O guardião da memória

O guardião da memória

Faz tempo que Jeová Pinto de Santana, 74 anos, deixou de participar dos adjutórios em Itatim, cidade baiana que já se chamou Tanquinho. Ele lembra que era comum as pessoas quebrarem licuri nos dias úteis e no final de semana receberem amigos e vizinhos para um “djutório” (ajuda) para descascar o coquinho do licurizeiro, usado para fazer óleo, doces, licores. O trabalho feito com alegria era regado a uma boa refeição e, no final, comemorado com cantigas de rodas e samba. Hoje, é coisa raríssima, praticamente extinta.

Nas lembranças de Jeová – engenheiro aposentado da Companhia Vale do Rio Doce, dono de uma loja de material de construção e da rádio Ponta Aguda FM) – ficaram no passado as brincadeiras como empinar papagaio e jogar pião. O pé no chão foi substituído por jogos eletrônicos. Também se foi a época em que as relações pessoais eram mais cordiais:

“O filme Central do Brasil retrata muito bem o que acontecia em Itatim. As pessoas que eram analfabetas iam na casa de meu pai para ele escrever cartas para os filhos e os maridos que estavam trabalhando em São Paulo. Quando recebiam as respostas, voltavam lá para que ele lesse o que estava escrito. Pedido de casamento, quem fazia essa carta era meu pai”, recorda o empresário.

As lembranças sempre foram importantes para o filho de seu Martinho Santana e dona Alaíde. E assim como a curiosidade fizeram-no criar um projeto para preservar as duas coisas que prezava: escrever um livro, que levou dez anos para ser escrito. E foi lançado em 2014 com o título de “Tanquinho de ontem ao Itatim de hoje”.

CÓDIGO MORSE

O objetivo do memorialista era “deixar alguma coisa para daqui a 50 anos”. Em menino, tinha fama de indagador e perguntava ao pai, telegrafista da Estrada de Ferro Central da Bahia, tudo sobre a ferrovia que ligava o Recôncavo baiano ao sertão.

As histórias contadas por seu Martinho e por Cabo Rufino, avô de Jeová, um dos pioneiros do povoado de Tanquinho serviram como fagulhas para acender a ideia que seria posta em prática muitos anos depois. Também colaborou para isto a ausência de documentos que registrassem a história de Itatim.

O avô do escritor se chamava José Rufino de Santana e fez parte primeiro trio de funcionários que chefiou os trens em Tanquinho. Trazia acoplado ao nome o cargo que ocupava: cabo de turma, designação para o chefe dos garimpeiros que faziam a manutenção das linhas férreas.

Quando começou a ler, Jeová recebeu do pai o ABC, o Código Morse e um manipulador para aprender a ser telegrafista. Todos os filhos homens (quatro) receberam o mesmo presente. Nenhum, porém, quis ser ferroviário.

PANE GERAL

Jeová Santana conta que levou cerca de 10 anos para concluir o livro. Nesse período, segundo ele, 20 dos personagens retratados morreram.

Dois motivos contribuíram para a demora. O primeiro está relacionado com as muitas atribuições do autor. Ele tinha uma ideia, escrevia alguma coisa e levava até seis meses para voltar ao trabalho. A outra, catastrófica, foi quando uma pane no computador apagou tudo que ele tinha escrito até então.

“Quase desisti, mas disse para mim mesmo que tinha que retomar o que foi perdido”.

Em 2014, dois mil exemplares do livro foram publicados, com direito a festa de lançamento e a presença de amigos que foram de Salvador e outras cidades. Uma parte da tiragem foi enviada para filhos e parentes próximos dos personagens citados em Ipirá, Salvador e São Paulo.

Das 104 histórias, contadas em 142 páginas, Jeová ressalta a de Aristóteles Carneiro, seu padrinho, homem caridoso e valente, em sua definição. Segundo o autor, Tote, como era conhecido, cuidou de doentes, salvou vidas e enfrentou revoltosos do bando de Lampião e homens do temido “coronel” Horácio de Matos.

Ipiraense como Cabo Rufino, Aristóteles se estabeleceu na cidade como comerciante, à beira da ferrovia. Fez fortuna, comprou fazendas de gado e foi nomeado delegado. Apesar de ter se deparado com bandidos perigosos morreu por causa de uma praga rogada pela mãe de uma moça que foi chamada a atenção por estar namorando e atrapalhando o trabalho de um funcionário de Tote.

“A jovem mentiu que tinha sido agredida por Aristóteles. E ele foi chamado para depor na comarca de Castro Alves. Dona Bilu, mãe da moça, passou e falou que ele iria, mas não voltaria à cidade. Coincidência ou não, praga ou feitiço, misticismo ou a caso Aristóteles morreu em um acidente, em Santa Teresinha. O local de sua morte foi batizado de Ladeira de Aristóteles” – conta o memorialista.

Além de histórias que homenageiam antigos moradores como dona Morena Rebouças, uma das responsáveis pela construção da Igreja de Santo Antônio, em 1948, e de Aquilino Andrade, dono do complexo comercial construído em 1945 para atender funcionários e visitantes durante a construção da BR-116 (Rio-Bahia), o livro relata uma diversidade de casos.

Alguns deles envolvem curandeirismo, figuras folclóricas e histórias do tempo em os 378 km entre Itatim a Brumado eram percorridos por trens mistos (mochila) em até oito dias, devido aos constantes descarrilamentos.

O próximo projeto de Jeová Santana é realizar um documentário sobre o município, que dará destaque a personagens nonagenários que vieram de outras cidades, assim como a maioria da população, para formar Itatim.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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Uma reflexão sobre “O guardião da memória&rdquo

  1. lustres para salaDisse…
    Replied on

    Ola. Obrigado.Bom artigo.

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