As pedras do destino

As pedras do destino

Isaura Maria de Jesus, benzedeira e umbandista da comunidade Entre Morros, em Itatim (BA), tem um poder especial: ela consegue decifrar o destino das pessoas após jogar três pedras que guarda no altar de sua casa.

O dom permanece mesmo depois que dona Isaura, que não sabe direito a idade, ter ficado cega após uma operação nos olhos, feita há quatro anos em um hospital em Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

No altar do pequeno quarto transformado em terreiro, ela recebe seus guias – Ogum de Ronda, Obaluaê o os caboclos Sultão das Matas e Boiadeiro.

“Os guias desce, fala o que tem que falar e o que tiver de aparecer, aparece nas pedras” (*) – explica.

No gongá, há outras pedras. As maiores estão em uma bacia com água, destinadas à Santa Bárbara, Janaína e Sereia. Entidades ligadas às águas, segundo dona Isaura.

A prática das religiões de matriz africana no sertão mistura santos católicos, orixás africanos e encantados, espíritos que já andavam por nossa terra antes da chegada dos colonizadores.

Antes de saber como funcionam as pequenas pedras adivinhatórias, vamos conhecer um pouco da história de Isaura, citada por sua descendência, costumes e tradições no relatório enviado para a Fundação Palmares para que Entre Morros seja reconhecida como comunidade quilombola.

VIDA LONGA E SOFRIDA

Nascida em Lajedo do Batista, a cerca de 30 km em linha reta de Itatim, Isaura perdeu a mãe quando ainda engatinhava. Onze meses depois, também ficou órfã de pai.

A avó materna a criou até os oito anos, quando ela começou a trabalhar.

“Varria a casa dos outros, lavava roupa para mãe de menino, lavava prato para ganhar um trocado para comer” – conta.

Com o falecimento da avó, passou à tutela de um dos tios, o “Velho Gino”, que casou e a carregou para trabalhar na roça.

“Eu me casei na enxada. Fiquei a vida inteira na enxada. Só separei dela depois de cega” – revela.

Isaura conheceu o marido, em Amargosa. Claudiomiro Norberto dos Santos tinha 34 anos. Ela, 16. Viveram juntos por  mais de três décadas até que ele “se acabou”.

Ficou sete vezes grávida. Perdeu quatro filhos, vingaram três.

dom

Os dons da reza e do contato com os guias começaram cedo. Aos sete anos repetia os gestos do tio benzedor, com bons resultados, segundo ela. Aos 15, começou a fazer trabalhos espirituais.

Quando pensou em desistir de tudo, inclusive da reza para São Cosme que sempre fazia no mês de setembro, o marido pediu para que ela não parasse.  Embutida na súplica estava as dificuldades que passaram durante os três anos em que o ritual tinha sido suspenso:

“Foi três anos sem rezar, foi três anos que até a roupa do corpo acabou” – recorda.

A volta da reza, que inclui caruru, ladainhas, reisado, samba de roda e de caboclo, também a fez recuperar as celebrações para Santa Luzia e Bom Jesus, embora em menor frequência.

ATENDIMENTOS

“Prefeito senhor Sormão (Salomão). Quem de Roma nasceu? Quem de Roma se criou? Quem de Roma lhe sacramentou? É o ar do tempo, ar do chão, ar do terreiro, ar de xaqueto, o ar de pontado, ar de ventosidade, ar de estopor, o ar de sete, o ar de 14, o ar encruzado, o ar branco. Pronto, sobe para cima.” – Reza para curar moléstia (passagem de ar que causa paralisia em alguma parte do corpo)

Dona Isaura reza tudo: olhado, moléstia, cobreiro, fogo selvagem. Tudo conforme o modo que a pessoa tiver. Tem horas que uma vez só basta. Há casos que precisa repetir três vezes.

Voltando às pedrinhas. A vidente diz que primeiro sonhou com elas. No dia seguinte, foi arar o terreno e encontrou uma. Tempos depois, achou a segunda. A terceira estava debaixo de “um pé de árvore”. Em seguida, mandou benzê-las e as colocou no altar, ao lado de uma bacia com água. Não revela quem fez a sagração nem onde.

Para fazer a leitura, Isaura incorpora os guias. Os orixás mostram a situação de cada pessoa. De acordo ela, sombras se formam nas pedras:

“Vê tudo. Se o nego tiver doente, tiver para morrer mesmo, não tiver de escapar é bater na mesa, chamar na pedra, bitelão, chega o caixãozão. Se ele tiver em pé, o nego ainda está em salva terra. Se tiver deitado, caixão e vela” – exemplifica.

A benzedeira vidente faz questão de dizer que trabalha com a “corrente branca”  e que já salvou muitas pessoas.

“Todos nós deve saber que o caminho é um só. Nós tem que andar no caminho de Deus”

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(*) Meus Sertões preservou a forma de falar de Dona Isaura e atendeu ao seu pedido para não ser fotografada. “Fotografia é coisa ruim”, justificou.

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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