Quando a caatinga vira carvão

Quando a caatinga vira carvão

Geraldo (nome fictício), 17 anos, cava uma caieira para produzir carvão vegetal em um povoado baiano. Ele não fica à vontade com a chegada de MEUS SERTÕES. O jovem sabe que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) e o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) proíbem a produção de carvão com lenha retirada da caatinga. A necessidade, porém, fala mais alto.

O adolescente conta que começou a cavar às 13 horas. Quatro horas depois, o “forno” está quase pronto. A seguir ele cortará a lenha que será colocada na caieira e a cobrirá com folhas de icozeiro ou capim, antes de atear o fogo.

As folhas de icó cobrem o forno para produção de carvão vegetal. Fotos: Paulo Oliveira

Nas extremidades dos fornos há dois buracos por onde sairá a fumaça. O processo para produção de carvão pode levar até três dias. Dali sairão quatro sacos grandes de carvão, que serão vendidos a R$ 25 reais, cada. O preço é baixo e não compensa tanto trabalho. No entanto, quando a situação financeira se complica é a única opção para se obter dinheiro.

No sertão, pequenos agricultores usam o carvão como fonte de renda e para cozinhar. Costumam dizer que só colocam algaroba nos fornos, única madeira que pode ser usada livremente por não ser nativa da caatinga. Dificilmente isto é cumprido. Os dados mais recentes mostram que 78% da matéria-prima têm origem na mata nativa. Catingueira, marmeleiro, angico, umburana e baraúna, árvore protegida até nos planos de manejo não são poupadas.

É preciso ressaltar que a lenha retirada em pequena escala não é responsável pela devastação da caatinga. Por trás do desmatamento preocupante está a demanda de lenha e carvão vegetal por parte de grandes complexos industriais. Em Pernambuco, por exemplo, na região do município de Serra Talhada, em 2011, eram produzidas semanalmente 12 toneladas de carvão.

Estudo publicado na Revista Estatística Florestal da Caatinga, em 2015, mostra que 45,7% da área total da caatinga no Ceará foi devastada até 2009. Na Paraíba, o desmatamento ilegal atingiu 40,2% no mesmo período. A principal causa foi o fornecimento de 56% a 69% do necessário para consumo industrial, principalmente para a indústria siderúrgica e gesseira. Também falta monitoramento e fiscalização eficientes dos órgãos ambientais.

PRODUÇÃO NACIONAL

O Brasil ocupa o primeiro lugar do ranking mundial na produção de carvão vegetal. Cerca de 85% do que é produzido é utilizado nas indústrias, 9% em residências e 1,5% em pizzarias, churrascarias e padarias.

No setor industrial, o carvão é empregado em metalurgia, indústria cimenteira e, principalmente, siderurgia. No final dos anos 1980, o consumo na área siderúrgica foi de 7,8 milhões de toneladas (86,7%) do consumo nacional.

Para produzir carvão é necessário ter permissão dos órgãos ambientais, com previsão do que será utilizado. No entanto, há vários meios de driblar esse controle. Um deles é a operação nas carvoarias de mais fornos do que os permitidos em suas licenças ambientais, gerando produção bem maior do que o declarado nas guias florestais. Também há desrespeito aos planos de manejo.

O uso elevado do carvão vegetal no Brasil também está relacionado à pouca quantidade de jazidas de carvão mineral. O eucalipto é a principal opção para substituir a vegetação nativa, no entanto, sua difusão gera uma série de outros problemas como ressecamento do solo, consumo excessivo de água, grilagem, expulsão de comunidades tradicionais.

No ano passado, a pesquisa Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registrou que a produção do carvão vegetal caiu 31,7%. Boa parte por causa do mau desempenho da indústria siderúrgica. Minas Gerais lidera a produção de carvão por estados, respondendo por 80% do total.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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