Naná do Argoim e Dina do Araguaia

Naná do Argoim e Dina do Araguaia

A mais temida guerrilheira do Araguaia, Dinalva Conceição Oliveira Teixeira, a Dina, era exímia atiradora, tinha excelente preparo físico e foi a única mulher a ocupar cargo de vice comandante de destacamento na guerrilha. Os soldados a temiam. Anos depois de seu desaparecimento e de haver relatos de que foi assassinada por um sargento, seu nome ainda era utilizado nos quartéis como  sinônimo de “miseravona”. 

No Exército diziam que ela passava a noite espreitando a tropa na floresta e gritava que quem dormisse ia morrer. Depois, dava um tiro e matava um soldado. Os militares tinham especial determinação para capturá-la. Queriam desfazer o mito.

Os caboclos da floresta gostavam de Dina. Ela e o marido, Antônio Carlos Monteiro Teixeira, foram para o Araguaia em maio de 1970. Lá, a geóloga assumiu as funções de professora e parteira. Muitas vezes, Dina se deslocou de barco sozinha, durante a madrugada, para ajudar no nascimento de crianças.

Ganhou a admiração dos moradores e ficou famosa pelos serviços que prestava e por conseguir escapar dos cercos do exército. Havia uma lenda de que Dinalva nunca era pega, pois conseguia se transformar em borboleta e fugir.

Em 1998, vinte e cinco anos depois de ter desaparecido, a bravura e a disposição dela para lutar contra a ditadura civil-militar foi reconhecida por seus conterrâneos. Seu nome passou a designar a principal avenida do distrito de Argoim, onde ela nasceu. A  localidade pertencia ao município de Castro Alves (BA) em seu tempo de criança. Em 1986, porém, passou a integrar o mapa de Rafael Jambeiro (BA).

Na entrada do distrito, está escrito em uma imensa placa encravada numa estrutura de concreto “Av. Dinamonte (…) Homenagem da Amar (Associação dos Moradores do Argoim) à heroica Dinalva de Oliveira Teixeira”. Dinamonte, segundo a escrevente e professora Maria de Brotas Sousa Silva, 63 anos, integrante da Amar desde a sua fundação, é a junção do nome da geóloga e guerrilheira baiana com um dos sobrenomes de seu marido (Monteiro).

Maria explica o que significa Dinamonte. Fotos: Paulo Oliveira
O ARGOIM

A história do distrito de Argoim começou a ser traçada quando um senhor chamado Antônio, da fazenda Olhos D’ Água, resolveu construiu uma capela em homenagem ao santo de sua devoção, entre 1650-1670. Em torno desta capela surgiu a paróquia de Santo Antônio do Argoim e o arraial com o mesmo nome, mas com outra grafia – “Arguim”. Em 13 de agosto de 1875, a aldeia foi elevada à condição de freguesia.

O taumaturgo Santo Antônio tem vários títulos, sendo um deles ligado a uma ilha e fortaleza na Mauritânia, instalada na Baía de Arguim, costa ocidental africana. O local foi dominado pelos portugueses no século XV e servia para trocas comerciais: tecidos, cavalo e trigo por goma-arábica, ouro e escravos.

A atual igreja de Santo Antônio, no centro do distrito

Conta a lenda que uma frota formada por protestantes franceses pretendia tomar a Bahia, em 1595. No trajeto, atacou e saqueou a ilha africana, roubando a imagem de Santo Antônio, que foi jogada ao chão várias vezes antes de ser dada para cães morderem. O santo de Argoim foi atirado ao mar e recuperado intacto – uns dizem que na costa africana; outros, na Bahia. Os invasores teriam sido presos em Sergipe, após enfrentarem surto de peste e tempestades em alto mar. Atribui-se as desventuras a um castigo divino.

Na versão do aparecimento da imagem no Brasil, ela foi colocada no Farol da Barra e alistada como soldado da fortaleza. Durante anos, a Igreja recebeu o soldo por Santo Antônio, que chegou ao posto de capitão antes do pagamento ser cancelado. A origem da imagem do Farol é questionável, mas seu alistamento é real. São Francisco do Argoim foi o primeiro padroeiro de Salvador.

Como nas terras distantes 200 km da capital foi encontrado um outro Santo Antônio nas pedras de um rio, o distrito passou a se chamar Argoim.

A PEQUENA NANÁ

Dinalva Conceição Oliveira nasceu em 16 de maio de 1945. Era a segunda dos sete filhos do segundo casamento de sua mãe Elza Conceição Bastos, a Preta. Em sua primeira união com um senhor chamado Cirino, Preta, como era conhecida, teve três filhos.

O casamento dela com Viriato Augusto de Oliveira foi um dos 400 realizados na comunidade pelo juiz de paz Renato Costa Rebouças, hoje com 87 anos. Ele lembra que a oficialização do matrimônio ocorreu em uma audiência especial, o que no jargão cartorial significa ter sido realizada na residência do casal. A celebração aconteceu em 1992, quando a filha mais nova deles, segundo Renato, tinha 28 anos.

A escola rural hoje é uma sala do colégio municipal.

Naná, apelido familiar de Dinalva, morou no Argoim até completar o 5º ano do ensino primário, na escola rural. Nesse tempo, o distrito tinha poucas residências, a praça era tomada pelo mato, não havia calçamento. Energia elétrica, escolas de segundo grau e correios eram apenas sonhos . Trabalho só no campo. Eram organizados os “adjutórios”, mutirões para capinar, embalado por cantigas e batida de enxadas ao final do dia:

“Graças a Deus/ Que o trabalho já acabou/ É mentira, é mentiroso/ Que a roça ainda ficou”- entoa o caminhoneiro Aloísio Santos de Oliveira, 77 anos, marido da prima de Dinalva.

Maria Lúcia Sampaio de Oliveira, a Lucinha, mulher de Aloísio, lembra que a infância de Naná foi tranquila:

“Fomos criadas juntas. Nossa casa era em frente a da minha avó. A gente brincava. Ia para o rio Paraguaçu tomar banho. Ela saiu daqui quando concluiu o primário. Foi para Salvador, onde ficou em um pensionato. Sofreu por causa da pobreza, mas tinha força de vontade de estudar. ” – relata

Lucinha, ao lado de Aloísio,lembra da última vez que viu a prima

Dinalva só voltava para casa nas férias. A última vez que Lucinha lhe viu foi em 1964.

MILITÂNCIA

Na capital baiana, Dinalva estudou no Instituto Central de Educação Isaías Alves (Icea – ginasial); Colégio Estadual da Bahia ou apenas Central (científico) e na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Enquanto cursava geologia, Dina morava na Casa do Estudante.

Entre 1967 e 1968, ano de sua formatura, militou no movimento estudantil e passou a integrar o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Nesse período conheceu o ilheense Antônio Carlos Monteiro Teixeira, seu colega de turma e também integrante do PCdoB.

Antônio, oito meses e 24 dias mais velho, e Dinalva começaram a namorar. Casaram em 1969 e foram para o Rio de Janeiro, onde trabalharam no Departamento Nacional de Produção Mineral, do Ministério de Minas e Energia. Ambos eram membros da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

No ano seguinte, o casal foi deslocado pelo partido para a região do Araguaia. O comandante do grupo era Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, campeão de boxe, com formação militar, treinado em técnicas de insurgência, em Praga, na antiga Tchecoslováquia.

Osvaldão comandava o grupamento C. Reprodução

Quando começou o confronto armado, em abril de 1972, Dina e Antônio estavam separados. Dina mantinha um novo relacionamento com Gilberto Olímpio Maria, genro de Maurício Grabois, fundador do PCdoB e comandante da guerrilha por seis anos. A informação consta do dossiê 49/96 da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Antônio Carlos foi preso após ser ferido em combate no dia 21 de setembro de 1972. Desde então está desaparecido. Segundo o relatório Arroyo, organizado por Ângelo Arroyo, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil e um dos poucos sobreviventes da Guerrilha do Araguaia, Antônio foi gravemente ferido quando ele e outros três companheiros – Dina dentre eles – tentavam apanhar mandioca em uma propriedade para se alimentar. Um dos guerrilheiros fez um ruído acidental e os guardas metralharam os quatro. Dois deles morreram de imediato. Antônio foi levado, torturado e morto. Dina sofreu um arranhão de bala no pescoço, e conseguiu fugir.

Já o relatório da 3ª Brigada de Infantaria no Sudeste do Pará informa que ação de patrulhamento em 29 de setembro de 1972 resultou na morte dos “terroristas” José Toledo de Oliveira, o Vítor; Antônio Carlos Monteiro Teixeira, o Antônio; e José Francisco, todos do destacamento C. Segundo depoimentos dos coveiros Raimundo Bandeira e Osvaldo Rodrigues, oito guerrilheiros do PCdoB foram enterrados em três covas rasas. Dentre eles, o ex-companheiro de Dina.

No Natal de 1973, os militares atacaram à comissão da guerrilha. Na ocasião, o comandante-geral Maurício Grabois foi morto, em Xambioá (PA). Baiano de Salvador, Grabois estudou no Colégio Militar de Salvador. Em seguida, cursou agronomia no Rio de Janeiro.

Antes de ir para o Araguaia, em dezembro de 1967, foi deputado federal e senador. Versões diferentes dão conta de que outros três – ou quatro – guerrilheiros foram mortos neste episódio, inclusive Gilberto Olímpio. Dina foi a única sobrevivente. Ela se embrenhou na floresta, apesar de estar com malária.

sofrimento EM SILÊNCIO

Lucinha, prima de Dinalva, revela que os pais da geóloga baiana sabiam de seu envolvimento com a guerrilha. Segundo ela, Vavá e Preta recebiam informes periodicamente de visitantes. Os dois eram discretos e falavam pouco sobre a filha em público.

“Só vi tio Vavá chorando uma vez”, lembra Maria Lúcia, que guarda na memória a imagem da prima tímida e recatada  e diz não ter ideia de como ela aprendeu a atirar.

A professora de história e escrevente Maria de Brotas, 63 anos, conhecia os pais de Dinalva desde menina. Um dos filhos do casal, Raimundo Elito, o Ito, que viria a ser professor de química, foi seu colega de escola. Nos anos 1970, a relação entre eles se estreitou. Maria e o marido foram testemunhas do casamento de Vavá e Preta. Ela confirma que os dois sabiam das ligações de Dina com a luta armada.

Dina e Antônio no Araguaia. Reprodução da internet

“Preta sofria muito. Sempre me mostrava fotos de Naná (Dina), inclusive um retrato em que apareciam cinquenta e tantas pessoas que fizeram parte da guerrilha. Ela ficava aflita por não saber o que aconteceu com a filha. Sempre tinha uma esperança que estivesse viva” – conta.

A mãe de Dinalva se dividia entre o Rio de Janeiro e o Argoim. Seu Vavá passava mais tempo em sua terra natal.

Maria de Brotas lembra que o Exército chegou a enviar homens para o Argoim. No entanto, eles procuravam Carlos Lamarca, ex-capitão do exército que se aliou à guerrilha e estava escondido no sertão baiano.

CAPTURADA NA FLORESTA

Dina reapareceu na floresta com outra combatente em junho de 1974. Há versões desencontradas sobre quem seria a outra guerrilheira. Ora é citada a enfermeira Luiza Augusta Garlippe, a Tuca; ora, a militante do PCdoB e ex-estudante de geografia Telma Regina Cordeiro Corrêa, a Lia. Os informes dão conta que Dinalva estava vagando fraca, doente e desnutrida.

Relatório da Marinha, apresentado em 1993 ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, diz que Dina teria sido morta em julho de 1974, em Xambioá. Depoimentos contraditórios de moradores assinalam que ela foi presa na Serra das Andorinhas, grávida. Esta versão também foi contada pelo coronel-aviador Pedro Corrêa Cabral, em depoimento à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Levada à base militar em Xambioá (TO). Dina foi torturada por duas semanas, mas não teria dado informações aos militares. Há relatos de que foi levada de helicóptero para uma mata próxima à base e assassinada. Segundo o livro “Lei da Selva: Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia”,  do jornalista Hugo Studart, publicado em 2006, ela teria travado o seguinte diálogo com seu suposto assassino, o sargento Joaquim Arthur Lopes de Souza:

“Vou morrer agora? ”

“Vai. Agora vai ter que ir”

“Então quero morrer de frente”

“Vira para cá”.

Em seguida, o militar teria se aproximado e dado um tiro no peito da guerrilheira. Ela teria sido enterrada no local da execução. Dois anos depois, foi supostamente exumada e cremada. Seu corpo nunca foi encontrado. Oficialmente, é considerada desaparecida política desde 25 de dezembro de 1973.

irmão DJALMA

O desaparecimento de Dinalva mudou a vida de Djalma, um de seus irmãos. Segundo sua prima Lucinha e marido dela, Aloísio, ele abandonou a profissão de funileiro e se filiou ao PCdoB, chegando a secretário-geral do partido:

“Esse irmão foi várias vezes ao Araguaia. Ele tem procurado os restos mortais de Naná, mas nunca conseguiu encontrar. Ele mora no Rio. Ele vai bastante lá. Já encontraram documentos em oco de árvore, mas os dela não estavam. Tinham muitas identidades apagadas. Ele quer encontrar os restos mortais. No caso de achar, é para trazer para o Argoim. É o que ele diz” – conta Lucinha.

Djalma, irmão de Dina, foi um dos fundadores da Amar Argoim

A militância política também aproximou Djalma de Maria de Brotas. Em 1983, eles estavam entre os fundadores da Associação dos Moradores do Argoim (Amar). Graças ao trabalho da entidade, o distrito teve muitas melhorias como o calçamento,  alinhamento das ruas, construção de barragens, cobertura da feira livre, ampliação do cemitério administrado pela Amar e implantação de normas para a construção de imóveis.

Maria ressalta que apesar de Djalma morar no Rio, ele sempre visita o distrito ou mantém contato por telefone ou e-mail.

HOMENAGENs

Em 1998, Dinalva passou a designar a principal avenida do distrito, substituindo Natanael Rebouças, outro filho da terra, cujo nome também estava – e permanece até hoje – no letreiro de uma escola municipal.

O processo de mudança foi tranquilo:

“A proposta de mudança surgiu em uma reunião da associação de moradores, que a encaminhou para a Câmara de Vereadores de Rafael Jambeiro. Decidimos colocar o nome de Dinamonte porque fomos informados que em Salvador havia um espaço cultural que a homenageava dessa forma. Djalma só soube da mudança, quando retornou ao Argoim. Foi uma surpresa para ele”  – conta Maria de Brotas.

Além de falar com carinho da prima de sua mulher, seu Aloísio faz questão de mostrar a escola onde Dina estudou. A única sala de aula da Escola Rural do Argoim foi englobada por um prédio bem maior, onde hoje funciona a Escola Municipal Santo Antônio do Argoim,

Casa onde Dinalva morou, ao lado da farmácia, foi demolida

Mais adiante, ao lado da farmácia Santa Luzia, ele nos aponta o terreno murado, onde Dinalva morou quando era criança e adolescente. A casa foi demolida.

Seu Viriato, pai de Dina, morreu há três anos. Após sofrer uma queda e quebrar o fêmur, foi levado para tratamento no Rio de Janeiro. Não resistiu.

Residência onde Preta e Vavá guardavam as fotos da filha

No final de 2016, Dona Elza morreu. Seu corpo foi cremado em Salvador.

Maria de Brotas lembra que, nos últimos tempos, Preta estava mais consciente que a filha não estava viva.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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