A rua do Fogo

A rua do Fogo

Mundinha chegou em Riachão do Jacuípe, em fevereiro de 1980. Tinha 14 anos, quando resolveu tentar a vida longe do Ceará, onde nasceu. Sem saber o que faria, parou para beber cerveja no bar de Eulina, um dos oito principais cabarés que existiam na rua do Fogo, nome dado pelo povo desde que a rua Barão do Rio Branco passou a concentrar locais de prostituição (mulheres fogosas) nas primeiras décadas do século passado.

De repente, Mundinha ouviu o convite da cafetina: “Quer morar mais eu? ”. Aceitou. Trabalhou em diversas atividades no brega, virou braço direito da proprietária e cuidou dela até 4 de novembro de 2016, quando a patroa morreu aos 93 anos. O prostíbulo está fechado desde 1990.

Mundinha que herdou a casa da Lina, também guarda muitas histórias.

A cafetina nasceu e foi enterrada em Riacho da Onça, no município de Santaluz (BA). Seu estabelecimento tinha várias mulheres, nunca menos de seis atendendo os clientes. Na vitrola, músicas de Fernando Mendes e Odair José.

Mundinha considerava Lina muito bonita. Conta que ela tinha muitos pretendentes, mas não dava confiança. Um dia se apaixonou e “embuchou” de um rapaz chamado Zeca, que sumiu. Com o passar dos anos, passou a sofrer de pressão alta, diabetes e câncer. Ela foi a última grande personagem dos tempos áureos da Rua do Fogo.

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A Boate Refúgio, do cafetão Nivaldo, era o estabelecimento mais sofisticado da rua. Na década de 1960, quando houve a expansão da indústria sisaleira, a instalação de três batedeiras (unidades de beneficiamento das fibras do sisal), da energia elétrica e de uma empresa de pavimentação, a prostituição muda de perfil: mulheres de outras cidades e estados substituem as da região.

Nivaldo instalou um letreiro de acrílico em seu estabelecimento. Inovou, colocando luz negra estroboscópica e música ao vivo nos finais de semana, enquanto as mulheres dançavam de biquíni, minissaia, short e sutiã. Apesar de ser um cabaré elegante, os colchões dos quartos tinham enchimento de capim, segundo Lourdisnete Silva Benevides, autora do livro “A Louvação das Prostitutas de Riachão de Jacuípe ao Glorioso São Roque”

Depoimentos de antigos moradores à Lourdisnete dão conta que o cantor Waldick Soriano foi convidado para se apresentar, em 1964, na Lyra 8 de setembro, clube da alta sociedade jacuipense, presidido por dona Loura, esposa do delegado Zé Gordo. O show estava previsto para começar às 20 horas.

Waldick chegou duas horas antes, dirigindo um Simca Chambord conversível.  Ele queria se apresentar imediatamente, o que não foi permitido. Para passar o tempo, se refugiou no brega do Nivaldo, onde cantou, tocou violão e bebeu cachaça. Quando voltou para se apresentar na Lyra, foi impedido por um grupo de senhoras:

“Já que você cantou lá embaixo para as putas, como é que quer cantar agora para a sociedade? Aqui, não. Aqui não vai ter show seu” – teriam dito as mulheres, segundo Lourdisnete.

O cantor, porém, não se abateu. Bebeu uns tragos em um bar e voltou para a boate Refúgio, onde cantou e se divertiu.

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Até hoje existe tabu e preconceito em torno da rua do Fogo. São poucas as pessoas que concordam em falar sobre os antigos e famosos cabarés e os poucos pontos de prostituição existentes hoje. Pessoas que vivenciaram as duas fases, dizem que atualmente não há o mesmo glamour e que traficantes de drogas atuam nos pontos de encontros com desenvoltura.

“Na minha época tínhamos clientes que eram empresários, políticos, gente graúda. Hoje, quem procura a rua do Fogo são pivetes”, queixa-se uma ex-prostituta.

Um aposentado que pede para não ser identificado conta que, no tempo antigo, as mulheres dos bregas cortavam os cabelos nos dois salões de barbeiros existentes na rua. Ele lembra que seu patrão criou nove filhos, graças às prostitutas.

Assim como os diretores e supervisores das sisaleiras e vários homens casados de Riachão, esse cabeleireiro primitivo tinha uma amante em um dos cabarés.

“De sexta-feira a domingo, as farras rolavam. Os homens passavam o final de semana com as amantes prostitutas. Levavam elas para a beira do rio, faziam festas e churrascos. Segunda-feira voltavam para o trabalho e para a família” – conta.

O barbeiro teve menos sorte, segundo o relato de seu ex-empregado. A mulher descobriu a traição e o atacou com uma tesoura em uma mão e uma faca na outra, depois lhe abandonou. O homem quase morreu com os golpes que recebeu, mas não deu queixa da mãe dos seus filhos. Também nunca entendeu a reação da mulher, pois seu irmão teve cinco amantes e a esposa dele nunca se queixou.

LIVRO

As três histórias acima dão ideia do universo de personagens que habitavam e frequentavam a rua do Fogo. Há também um livro sobre os antigos cabarés de Riachão do Jacuípe, originário da dissertação de mestrado de Lurdisnete Silva Benevides. A obra foi concluída em 2003 e submetida ao programa de pós-graduação em artes cênicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Com o título “A louvação das prostitutas do Jacuípe ao glorioso São Roque”, está disponível na internet e é a obra com maior informação sobre o lugar, que congregava açougueiros, carroceiros, lavadeiras, prostitutas e “músicos barbeiros”. A ocupação do local começou em 1920:

“Eram várias casinhas pequenas. Quando era época de enchentes e o rio enchia, todas as casas da rua do Fogo ficavam alagadas. Inundava tudo…Era gente pobre, de pedir esmola, era esse povo” – conta a jacuipense Marizete Mascarenhas.

O pedreiro Eloy Silveira da Costa também disse para a autora do livro que o primeiro cabaré dali pertencia a João Bretante e recebia mulheres das cidades vizinhas, na época em que não havia asfalto, calçamento, luz elétrica, aparelho de som e geladeira. A animação do lugar ficava por conta do ambiente festivo do prostíbulo e do som que João tirava de sua sanfona.

Nos anos 40 e 50, de acordo com a pesquisa, era comum um homem contratar e se encontrar com a rapariga, que negociava o preço diretamente com o interessado. Não havia intermediários. Os encontros ocorriam nas casas das mulheres.

A figura do cafetão surge com Nivaldo, o dono da Boate Refúgio. Isto vai provocar o afastamento das prostitutas da região e atrair a de outras cidade e estados.

O apogeu da atividade acontece com a instalação de fábricas e grandes empresas na cidade. Nivaldo começou a recrutar prostitutas na boate Sonho Azul, na localidade de Caieira. Logo, atraiu mulheres de Juazeiro e Jacobina. Depois, vieram as do Ceará, Maranhão, Piauí e Pernambuco, muitas fugindo da seca e em busca de melhoria financeira.

O livro ressalta que as principais casas de exploração sexual eram a Boate Refúgio e os cabarés de Hermina, o mais famoso por possuir pista de dança e som ao vivo; de Astézio; de Lita; de Colombina, a Coló, filha de Hermina; de Xangô de Tico; de Mané Cassimirinho; e de Astério Fiúza.

“Naquela época, as canções que animavam os salões dos bregas era as de Benvenido Granda, sendo “Perfume de Gardênia” a preferida, Vicente Celestino, Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo e Lindomar Castilho.

No meretrício bebia-se, além de chamberlém, mistura de cachaça com vinho, conhaque Dreher,  rum Montilla, vodka com Coca-Cola, Campari, Cinzano, cerveja e Martini” – reconstitui Lourdisnete.

A malandragem de Nivaldo era notória. Ele servia suco de uva para as mulheres como se fosse bebida alcóolica. Os clientes pagavam a conta sem saber o que era servido.

As drogas também faziam parte desse universo. A prostituta Maria do Carmo Pereira das Mercês, a Cheirinho, deu o seguinte depoimento sobre o que acontecia nos anos 70/80:

“Sempre tinha uma maconha pra gente queimá, pra ficar doida e guentar o rebolado. Muito cara já chegava drogado, mais às vez trazia para fumar no quarto. Agora, a mulher que quisesse usava, se não quisesse… Mas pra mim mermo eu não gostei não, eu usei mais não mim viciei não, porque, eu sei lá, achei uma coisa diferente, não gostei não. Porque a bebida a gente bebe e fica legal e a maconha quando eu fumava, eu dava bode. Mas sempre teve maconha nos cabarés, já veio do tempo velho, a maconha já veio dos antigo. Fora a maconha, também usava, álcool, Rupinol (tranquilizante potente) e Algafan. Mais a droga prejudica o homem, porque o homem que tava sem nada a coisa era milhor e o drogado demorava mais. Era ruim porque eles demorava e aí atrasava a gente.” (sic)

Cheirinho também revela como foi sua iniciação no meretrício, onde permaneceu por nove anos, e as receitas ensinadas para mais velhas para evitar filhos e doenças venéreas.

“Quando a gente ia pra vida, as mais velhas mandavam tomar três pingos de gás de candeeiro dentro da bebida que não pegava nenhuma doença. Podia o homem tá com a doença que fosse”, enfatiza

CULTO A SÃO ROQUE

A Lavagem de São Roque, em Riachão do Jacuípe, surgiu após surto de peste bubônica que atingiu a cidade na década de 1920. Consta que um morador chamado Abdias prometeu, caso os doentes se curassem e a doença não se espalhasse, buscar uma imagem de São Roque, em Portugal. Com a regressão do surto, ele cumpriu o prometido. A imagem chegou a Salvador e seguiu de trem até Serrinha. O trajeto a Riachão foi concluído em carro de boi.

Nas primeiras décadas do século XX, as senhoras da sociedade não admitiam a presença das mulheres dos bregas em procissões. Idalina, uma ex-prostituta, contou para um dos sites da cidade que a proibição não ocorria apenas por causa do preconceito:

“Além de fogosas, nós éramos bonitas e nos vestíamos com elegância, causando ciúmes e inveja” – diz.

Sem poder participar das procissões, as mulheres dos bregas resolveram fazer sua própria Lavagem. O evento, realizado no dia 15 de agosto, ganhou força e passou a atrair centenas de adeptos. A festa de São Roque é realizada até hoje.

(*) Foto principal: Rua Barão do Rio Branco, conhecida por rua do Fogo, já sem os bordéis, nos dias de hoje. Autor: Paulo Oliveira

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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