Gigantes de pedra

Gigantes de pedra

Quando Florisvaldo Souza dos Santos, o Flori, se inscreveu na escola de artesanato da Companhia Baiana de Produção Mineral não sabia que ia criar uma dinastia de escultores de pedras que envolveria dois irmãos e cinco primos. Muito menos que seria referência para a produção de peças de 20 toneladas ou mais que se espalhariam pelo Brasil e pelo mundo.

A família Souza dos Santos misturara artesãos de barro, como a avó de Flori, Hortelina de Jesus, e garimpeiros. O pai Augusto Primo dos Santos começou a se aventurar como garimpeiro em 1964, época do início da corrida por esmeraldas nas Carnaíbas, em Pindobaçu (BA).

Seu Augusto começou a cavar a terra em busca das pedras verdes pouco depois do início do garimpo. Flori lembra que na época não precisava cavar fundo, pois as “esmeraldas brotavam da terra rasa”. Ele acompanhava o pai e começou a ter contato com as pedras. A princípio como um “quijila, como são chamadas as crianças que remexem o entulho das escavações em busca de esmeraldas pequenas e pouco valiosas“

“Cheguei a encontrar algumas. Nada de muito valor” – diz.

Com o tempo, Augusto deixou o trabalho braçal e passou a comercializar pedras preciosas e semipreciosas. Deixou Pindobaçu e foi para um garimpo em Goiás.

Em 1984, a primeira escola de artesanato mineral, destinada à fabricação de estatuetas, foi implantada em Campo Formoso. Aos 14 anos, Flori passou a frequentá-la. Logo, o Programa de Inclusão Social da Mineração (Prisma), a cargo da Companhia Baiana de Pesquisas Minerais (CBPM), foi ampliado para oferecer o curso de lapidação.

“Quando a escola se fixou aqui, comecei a fazer o curso. Fui lá e fiquei amigo do professor. Os coordenadores diziam que eu não podia continuar porque era menor, muito jovem. Aí o professor disse para me deixarem lá. Continuei aprendendo. Primeiro fiz pequenos animais. Depois, meus irmãos Florinaldo, o Galego, e Eliel, o Léo, me seguiram. O pai deu apoio e montamos uma fábrica de fundo de quintal, em casa, aqui em Campo Formoso” – lembra.

Das miniaturas de 10 e 20 gramas, os meninos passaram a esculpir rostos, o que se transformou em uma febre, entre 1989 e 1994. O serviço era tanto que os clientes ficavam na porta esperando a finalização do trabalho. Outro fator contribuía para a demanda: a esmeralda e o material retirado das minas eram abundantes.

DO ROSTO PARA OS BUSTOS

O trabalho com figuras humanas aconteceu por acidente. Um dia, Flori estava fazendo um elefante e a pedra quebrou ao meio. Ele saiu da pequena fábrica para relaxar. Ao voltar, reparou que “tinha surgido um rosto”.

Com a ajuda de Galego, que à época desenhava os modelos, começou a trabalhar com corpo humano. Fez o busto de Ana Néri para o hospital soteropolitano que leva o nome da enfermeira baiana, heroína na guerra do Paraguai; o de Iraguaci Gonçalves, política que participou do movimento emancipacionista da cidade de Antônio Gonçalves; e uma série de políticos

A primeira grande peça em forma humana foi “O Garimpeiro”. Com dois metros de altura, foi colocado no contorno da estrada para Campo Formoso. Durante muito tempo, foi considerado o maior desafio enfrentado pelos irmãos escultores. Com o passar do tempo, obras maiores vieram até culminar com o Cristo Redentor de cinco metros de altura e 20 toneladas, esculpido por Léo. A imagem foi colocada no Morro do Cruzeiro, ponto mais alto da sede do município.

Cidades e povoados vizinhos fizeram encomendas grandes. Em Senhor do Bonfim, a escultura “O Retirante”, e no distrito de Tijuaçu, território quilombola, está “O Escravo Liberto”.  As pedras de xisto pretas, normalmente são utilizadas para fazer peças referentes ao garimpo e à escravidão, segundo Flori.

Uma estátua com cerca de 1,80 metros leva cerca de três meses para ser concluída. Utilizando xisto, o preço varia entre R$ 25 e R$ 30 mil. As mais caras são feitas com rejeitos de rubis e esmeraldas. Florisvaldo conta que fez um trabalho em rubi, sem especificar o tema, para um colecionador que a revendeu para uma fábrica de roupas italiana. O trabalho de quatro quilos custou US$ 5 mil (cerca de R$ 16 mil).

“Obras desse porte em Campo Formoso só nós e Luciano, um outro artesão, fazemos. No entanto, ele só trabalha com esculturas de animais. ”

Os irmãos Santos enumeram clientes nos Estados Unidos, França e Bélgica. Flori diz que um museu no estado americano de Ohio tem 27 obras de sua família.

MEGAEXPOSIÇÃO

Desde 2008, os irmãos de Campo Formoso trabalham na preparação de uma megaexposição com 40 peças. Na verdade, é uma junção de coleções. A primeira consiste na história do negro no Brasil, passando pela escravidão até chegar nos dias de hoje, onde as conquistas de negros famosos são exaltadas, sem esquecer a luta contra o preconceito.

Nesta primeira parte são 20 esculturas de xisto já prontas, incluindo os castigos impostos aos negros escravizados, a luta das mães para criarem os filhos, o primeiro diploma, além das imagens de Ronaldinho Gaúcho. As outras vinte peças tratam de temas como as histórias do Oriente Médio, das religiões e do Imperador Adriano, além da representação do Pecado e da Virtude e da grandiosidade da China. Os trabalhos desta fase são feitos com diferentes rochas brasileiras. Ametista, mármore e quartzos de diferentes cores, dentre elas.

Este trabalho é feito em sociedade com o engenheiro, dono de áreas de exploração de esmeraldas e quarto e prefeito de Antônio Gonçalves, Roberto Carlos Dantas Lima (PMDB). Foi ele quem encomendou o primeiro busto para colocar em uma praça da cidade. Depois, sugeriu a realização da exposição.

As esculturas até agora foram bancadas pelos irmãos e Roberto. A parte sobre a escravidão já foi exposta em Salvador, Teófilo Otoni (MG) e Soledade (RS). Os organizadores das feiras de pedras custearam apenas o transporte. Apesar de ter convites para outros locais, o prefeito convenceu os sócios a aguardarem a conclusão de todos os trabalhos para mostrar tudo junto. Flori não esconde que o objetivo é vender todas as peças, depois que elas forem expostas em cidades do Brasil e do exterior.

Apesar da escola de artesanato mineral ter sido fechada em Campo Formoso, os escultores que passaram por lá e se projetaram continuam tendo apoio do governo estadual e da CBPM. Segundo Floriano, o grupo apresentou seus trabalhos na Bahia durante os governos Paulo Souto e Jaques Wagner.

“Os governantes fazem questão de mostrar que uma história que deu certo” – revela.

O escultor acrescenta que o governo do estado disponibilizou um espaço no Pelourinho, onde funcionava o Instituto Mauá, para os artistas de Campo Formoso administrarem. A negociação ainda depende de aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Hoje o governo disponibilizou um espaço em Salvador para termos uma exposição permanente. É através da CBPM. Está dependendo do Iphan liberar o espaço para fazer a reforma. Eles estão querendo fazer assim: lá onde funcionava o Instituto Mauá, no Pelourinho, eles fizeram a proposta de liberar o espaço para a gente, mas está dependendo do Iphan. Eles estão tentando liberar para os artesãos fazer tipo lojas. Estamos tratando com a CBPM.

LOCAL DE TRABALHO

Flori, Galego e Léo deixaram a oficina de fundo de quintal e se mudaram em 1998 para um imenso galpão na rua Ernesto Geisel, no bairro Vila Encantada. O local foi comprado pelo empresário italiano Ferdinando Braganholi e oferecido para os três irmãos em troca de esculturas que seriam vendidas na Europa.

Ferdinando era construtor civil e tinha uma empresa em Recife (PE). Ele foi o primeiro a acreditar nos jovens campo-formosenses, quando eles ainda levavam muito tempo para finalizar uma escultura.

“Ele perguntava em que a pedra se transformaria e pagava adiantado. Era um cliente maravilhoso” – exalta.

Campo Formoso é frequentado por estrangeiros de diversas nacionalidades, principalmente indianos, os principais compradores de esmeraldas. Há uma gíria entre os garimpeiros que serve de referência aos asiáticos. “Indianada” significa pedras de qualidade inferior vendidas para o mercado indiano.

Um outro agente que trabalhava com Floriano se chamava Elliot. Ele comercializava as esculturas nos Estados Unidos. Houve uma época em que o escultor vendeu muitos crânios de caveiras, peça preferida de motoqueiros e roqueiros, não só nos EUA como também na Finlândia. O artesão lembra que na época da série de filmes Indiana Jones houve um grande “boom”. Até hoje as encomendas de cabeças de caveiras são frequentes. Um lote com 200 quilos de crânios de tamanhos diversos será enviado nos próximos dias para a América do Norte.

Na oficina dos Souza dos Santos é possível trabalhar com qualquer tipo de pedra. Até hoje, só não usaram diamante. A escória com raspas de rubi chega a custar R$ 40 reais o quilo. Não há como estabelecer de antemão qual será o peso de uma grande imagem. A LF Artesanato e Mineração foi contratada recentemente para reduzir o peso de uma pantera feita em outra cidade de 50 para 37 quilos.

“O cliente queria enviá-la para a Itália, mas tinha um limite de peso. Deu o maior trabalho porque foi preciso afiná-la bastante e vazar a peça por baixo. Não dava para ter ideia de quanto peso a gente tirava” – disse.

Florisvaldo acrescenta que no ramo do artesanato mineral não há muita preocupação com segurança, pois o material usado não é tão caro e as obras são muito pesadas.

O maior cuidado é com a silicose, doença pulmonar que causa dificuldades respiratórias, febre, baixa oxigenação do sangue e cianose, causada pela inalação de poeiras minerais. A evolução provoca incapacidade para o trabalho, invalidez e costuma levar o paciente à morte. Para evitá-la, os artesãos da LF trabalham com máscaras com filtros de poeira e gás.

FAMA INTERNACIONAL

Florinaldo, o Galego, é considerado o irmão mais criativo pelos outros dois irmãos. O trio teve vários discípulos. Certa vez, ensinaram 24 jovens da região. A qualidade do trabalho e a experiência de professor levou Galego à Argélia, graças ao convênio firmado entre a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e o país africano, em 2007, mas só concretizado em 2016.

Galego fez parte do grupo de professores de artesanato, lapidação, ourivesaria, fundição e maquinaria levados para transmitir seus conhecimentos para os artesãos de lá durante quatro meses. O artista baiano fez ainda o busto do presidente argelino Abdelaziz Bouteflika.

“Foi uma experiência excelente. Em outubro, voltaremos e escolheremos os seis melhores alunos para trazê-los para conhecer Ouro Preto e mostrar novas técnicas. Em 2018, estão previstos cursos semelhantes na Tunísia, Egito e África do Sul” – conta.

O mestre também revela que o sistema de segurança na Argélia é muito rigoroso. Ele só se deslocava com escolta policial. Ameaça de atentado em um hotel lhe marcou bastante, assim como a prisão de dois terroristas em Tamanrasset, cidade oásis no deserto.

mercado louco

Florisvaldo possui uma área de garimpo de ametista, variação do quartzo em tonalidades que vão do violeta ao roxo, em Curaçá. Seria apenas para extrair material para suas esculturas. Ele também negocia com esmeraldas e diz que o mundo das pedras “é uma loucura”. Para exemplificar, conta duas histórias.

A primeira:

“Estou com uma esmeralda à venda há seis meses mais ou menos. Estou pedindo R$ 50 mil reais. Entrei na internet outro dia e vi que estavam oferecendo minha pedra por R$ 2 milhões. O cara tinha tirado uma foto dela, se passando por interessado em comprá-la e estava oferecendo no mercado por um preço absurdo. A pedra bruta com os canudos de esmeralda pesa 70 quilos. ”

A segunda:

“Uma pedra foi vendida por US$ 16 mil (cerca de R$ 64 mil reais), após ter sido encontrada no início dos anos 2000 em Pindobaçu. Ela foi enviada para os Estados Unidos e um bilionário árabe ficou interessado nela. Além disso, o Brasil começou a disputar a esmeralda na justiça com empresários americanos. Começaram a dizer que a canga (pedra diversa com canudos de esmeraldas sem muito valor comercial) valia US$ 400 milhões (aproximadamente R$ 1,6 bilhão). Em 2015, a justiça dos Estados Unidos deu ganho de causa para os empresários. Só sei que o valor anunciado é irreal”.

as esculturas dos três irmãos

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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