Tripas e carnes

Tripas e carnes

FEIRA QUILOMBOLA

A ‘cortina’ de tripas, carnes e úberes chama a atenção nas barracas da feira livre do distrito de Laje dos Negros, formado por 23 comunidades quilombolas, em Campo Formoso (BA). A tradicional feira dos domingos começa a ser montada no sábado, com a colocação dos tabuleiros e barracas na praça principal da sede, onde moram cerca de quatro mil pessoas. Outras seis mil estão espalhadas em uma área de aproximadamente mil metros quadrados.

Não se tem certeza de quando as feiras surgiram. Há divergências se elas apareceram em 500 antes de Cristo, no Oriente Médio, ou se estão relacionadas com as festividades religiosas na Idade Média. O certo é que sempre foram pontos de comércio e convivência das comunidades.

Laje dos Negros fica a 96 quilômetros de Campo Formoso e a viagem em ônibus particulares levam três horas, pois o acesso é feito por estrada que foi pavimentada pela metade. No outro trecho, as autoridades cultivam buracos. Só há um horário de ida e outro de volta para o distrito, cujas atividades econômicas principais são a agricultura e a criação de animais.

Criado em 2003, Laje tem pretensões emancipacionistas. No entanto, não há previsão para que isto se concretize.

Agora que sabemos um pouco sobre a localidade, voltemos à feira. Além da variedade de carnes e tripas de diferentes tamanhos, lá é vendido o úbere (glândulas mamárias) da vaca. Não precisa torcer o nariz, pois  o úbere é servido, tostado no carvão, em conceituadas bodegas de países latinos americanos como o Chile. É alimento muito consumido no Nordeste, também grelhado na cinza do carvão.

Há também os vendedores de peixes secos e salgados e de carne de porco, retalhada na hora.

Servido desde o raiar do dia, o café da manhã é, praticamente, um almoço. Cuscuz de milho, feijão, carnes. Os mais comedidos têm como opção café com leite e bolos diversos. Na barraca em frente, doce de goiaba, de banana, queijo coalho e requeijão.

Outro produto interessante é o pão pesado. Feito com massa grossa. A vendedora vem de do distrito de Poços, a 104 quilômetros de distância, onde no passado o pão seria amassado com os pés. Poços virou distrito em 2008. Seu nome deriva de um alagadiço entre o povoado de Caraíbas e Campo Formoso. Inicialmente, era chamado de Poço das Antas, animais que bebiam água e se  refrescavam na lama.

Farelos, roupas de todos os tipos, almofadas coloridas, antigas balanças e uma variedade de produtos transformam o domingo em um grande evento no povoado.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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