Esconde-esconde

Esconde-esconde

A Coluna Prestes chegou à Bahia em 1926. Entrou pela divisa com Pernambuco, próximo a Paulo Afonso, e seguiu para o sertão. Não se sabe quantos homens seguiam a marcha nessa fase, considerada a mais violenta por causa das potreadas (arrastões e roubos de animais) que fizeram o medo se espalhar.

Anita Prestes, em seu livro “A Coluna Prestes”, rebate as acusações. Aponta as tropas oficiais como responsáveis pelo terror e por espalhar mentiras sobre a marcha liderada por Luiz Carlos Prestes, seu pai.

De qualquer modo, estas ações fizeram os “coronéis” baianos mobilizarem forças para resistir – Horácio de Mattos, por exemplo, reuniu 600. Assim, o exército passou a contar com ajuda de “batalhões patrióticos”, formado por jagunços e militares. É neste contexto que ocorre o episódio que o jornalista Biaggio Talento enviou para Meus Sertões e que está publicado abaixo.

A história também faz parte do livro “Nestor Duarte – Paladino da Liberdade” – Coleção Gente da Bahia – Grupo Editorial da Assembleia Legislativa da Bahia, escrito por Biaggio.

Prestes e Nestor no sertão baiano

Luiz Carlos Prestes
Nestor Duarte

Jeremoabo é citada como região de presença dos bandos de bandoleiros por Estácio de Lima no seu livro O mundo estranho dos cangaceiros. Ele conta que além de considerarem protegidos espiritualmente pelo Padre Cícero Romão Batista, os cangaceiros tinham respeito a outros sacerdotes. Um desses era justamente o padre Magalhães, vigário de Jeremoabo que batizava e amparava filhos de cangaceiros.

O professor Estácio de Lima, alagoano que se radicou na Bahia em 1916 para se tornar notório catedrático de medicina legal e grande estudioso do cangaço, comprovou o prestígio do padre Magalhães quando voltava, com amigos, de uma jornada na caatinga, “no auge das persigas” aos bandos de cangaceiro, num frágil Ford de bigode.

O veículo acabou pifando numa garganta propícia a emboscadas e rota comum de Lampião. Todos ficaram apavorados, menos padre Magalhães que, por providência divina, estava no grupo.  O pároco percebeu a situação e procurando evitar um eventual ataque dos bandoleiros desceu do carro e gritou para as escarpas dos morros próximos: “Meninos! Sou eu, o vigário Magalhães de Jeremoabo! Estamos aqui de passeio”. Lima assinala que o padre insistiu em pronunciar seu nome, clara e pausadamente, “no intuito de proteger-nos”.

Obviamente, os integrantes do grupo não foram verificar se os “meninos” estavam lá a lustrar suas armas e anuíram compreensivelmente ao pedido do vigário. Deixaram o local de mansinho, com a proteção do padre Magalhães, mas sem abusar da sorte.

Talvez Nestor tenha percorrido o mesmo caminho que o carro do professor Estácio de Lima para cumprir a ordem mais famosa que recebeu através de telegrama do governo estadual: ante a aproximação da Coluna Prestes na região de Jeremoabo, era preciso esconder todas as armas e munições da delegacia de polícia, para evitar que fossem “expropriadas” pelos revoltosos.

A passagem da Coluna pelas cidades tinha como um dos objetivos justamente recolher armamentos para a revolução. Conta Marcelo Duarte que seu pai pegou os velhos mosquetões e um cunhete [caixote de madeira] de 500 balas jogou num veículo “fordeco de bigode” atravessou com dificuldade a via férrea e depois de algumas horas chegou ao município de Queimadas (os 313 km de distância são percorridos em 5h30min nos dias de hoje¹)  onde o “arsenal” foi enterrado. Apreensiva, a população de Jeremoabo aguardou a passagem da Coluna Prestes e nada ocorreu, pois ela mudara de rumo.

O episódio ganhou ares de grande piada quando, vinte anos depois, na tarde de 16 de setembro de 1946 ocorreu a solenidade de assinatura da Constituição que se promulgara. Convidados, os familiares dos deputados estavam presentes. A coincidência é que o deputado constituinte Nestor Duarte junto com os filhos Marcelo e Maria sentaram próximos do senador constituinte Luis Carlos Prestes e sua filha Anita Leocádia.

Conversa vai, conversa vem Marcelo contou a Anita o episódio das armas de Jeremoabo e ela a repassou ao pai ao lado, que reagiu com espanto, dizendo não ter invadido a cidade baiana, pois os integrantes da Coluna foram informados que havia um delegado jovem e valente disposto a enfrentar uma eventual briga. Nesse momento, Nestor que escutara a conversa calado, interrompe, dirigindo-se ao líder máximo do Partido Comunista no Brasil: “Pois é, senador, eu fugi do senhor e o senhor fugiu de mim”. Todos riram.

Nestor e Prestes consolidaram suas convicções política após conhecer a miséria e o abandono existentes no Brasil. Prestes declarou sua tomada de consciência sobre a desigualdade social ocorreu após percorrer o interior do País. Ele tornou-se comunista depois da marcha da coluna por entender que o marxismo seria a resposta para a superação dos problemas que testemunhou.

No seu artigo “Leia quem quiser…”, publicado na edição do jornal O Imparcial do dia 5 de janeiro de 1930, Nestor, já no seu primeiro mandato de deputado estadual da base de apoio do governador Vital Soares, usa a figura de Lampião para traçar um quadro do distanciamento e desconhecimento do sertão pelo mundo da capital.

Explicita as dificuldades de a polícia capturar o cangaceiro devido ao habitat que ele conhece e domina. Um fenômeno parecido com as barreiras encontradas pelo Exército para combater os jagunços de Antonio Conselheiro. Não seria possível vencer Lampião, sem vencer a caatinga. Isso porque “ali, no ermo, tudo é anônimo na vastidão de um silêncio de terra maldita. Nem uma estrada. Uns trilhosinhos tortuosos levam a gente para a cilada, para um brinquedo trágico de ‘esconde-esconde’ que está mais adiante. Lampião ali, ainda não morreu, porque está de braços dados com a caatinga”, escreveu.

O artigo parece ser uma reação aos críticos da atuação da Segurança Pública do Estado, comandada por Madureira de Pinho, pelo fato de a polícia não conseguir prender Lampião. Num trecho ele cita que o fenômeno Lampião “é prato, também para os apetites oposicionistas do governo. A própria literatura veneranda do Dr. Seabra já o empregou nos comícios populares”.

Ao mostrar as dificuldades dessa empreitada em função da vastidão da caatinga, Nestor avisa: “quem quiser, pois, julgar esse assunto, tenha sempre em mente a situação de uma terra ou zona em que alguma coisa de recuado e primitivo palpita e anima a sua vida e o seu destino”. Assinala que “nessa ‘terra de ninguém’, os batalhões da polícia comandados pelo acaso, há de pagar duro preço às coisas desumanas que lá ameaçam o homem, antes que possam golpear, por uma vez, essa árvore do crime que ali floresce por espontânea geração”.

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