A preparação do arsenal

A preparação do arsenal

Francisco dos Santos, o Chiota, ex-presidente do Humaitá e funcionário aposentado do Banco do Brasil, é um dos três últimos mestres fogueteiros que produzem busca-pés para as festas de São João, em Barra (BA), onde clubes com nomes de batalhas da Guerra do Paraguai fazem uma bela festa. A cidade já teve oito fogueteiros, mas dois desistiram da função e os outros três morreram.

É ele e seu filho Alan Kleber, que fotografou e filmou o processo, que nos contam como é a fabricação dos fogos feitas por seus assistentes.

A primeira etapa consiste em enrolar mecanicamente, com barbante de algodão, os tubetes de papelão cilindrado que substituíram as tabocas (bambu, taquara) como corpo dos rojões. Quando o produto original, mais frágil, começou a rarear, colocando em risco a realização da festa, Chiota encontrou a solução para o problema na sala de telex do Banco do Brasil e entrou em contato com a empresa paulista que fabricava o material.

A troca proporcionou mais segurança e resistência para os soldados e diminuiu a possibilidade de os fogos darem chabu por causa de rachaduras. Outra matéria-prima, a corda de sisal, que precisava ser encerada com cera de abelha, foi trocada pelo barbante. O enrolamento é necessário para dar mais aderência ao busca-pé, evitando que ele escorregue da mão de quem o solta.

A pólvora é fabricada através da galga, uma espécie de moinho, onde é bem moída para misturar os ingredientes: 65% de salitre (nitrato de potássio), 15% de carvão e 10% de enxofre. Depois, será acrescida a limalha de ferro para dar brilho à lâmina de fogo quando o busca-pé for aceso. A produção de 33 quilos de pólvora na galga leva, em média, seis horas. Anteriormente, era feita em pilão, gerando dois quilos a cada duas horas. Além da baixa produtividade, o antigo processo também estourava a mão dos trabalhadores depois de um dia, obrigando a frequentes substituições.

Quando sai da galga, a pólvora tem cerca de 25% de umidade e precisa ser posta ao sol para secar. Depois, ela é peneirada para ficar bem fininha e ser usada para encher os tubetes, transformando-os em busca-pés. Cada tubo é preenchido com cerca de 100 gramas de pólvora.

BARREAMENTO E ESCORVA

A etapa seguinte é chamada de barreamento. Consiste na colocação de barro no tubo. Em seguida, esta parte será furada com uma broca e preenchida com pólvora mais grossa, que se chama escorva, artefato que permite provocar a explosão de uma carga. Ela fará contato com a pólvora mais fina.

Depois da escorva, o busca-pé está pronto. É só beliscar fogo no artefato que ele pega. Aí, a chama começa a sair. A explosão final é causada por pólvora mais grossa, colocada sem socar no fim do tubo. Quando chega nela, não sai chama, ela explode. A pólvora que tem granulação maior é o resultado da peneiração feita para extrair a pólvora fina. O resíduo dela é de uma granulometria maior e serve para fazer o estouro.

Outro detalhe: antes de serem colocados no suporte para o preenchimento, os tubos barreados são mergulhados em água, rapidamente, para evitar a compactação do barro de louça, evitando o seu esfacelamento.

Entre o barreamento, o enchimento do tubete e a finalização leva-se em torno de meia-hora para cada grupo de 16 busca-pés, carga máxima da base de suporte para o enchimento. Diariamente são preenchidos 400 tubetes. O tempo médio de queima dos busca-pés é de 15 segundos.

A feitura dos busca-pés do Humaitá este ano começou a ser feita por volta do dia 9 de junho. No dia 18, havia 2.000 busca-pés prontos. A previsão era de 3.500. A produção do Curuzu segue o mesmo ritmo. Antes da entrega, os fogos são testados.

Os fabricantes dos busca-pés dizem a maneira do barrense soltar o busca-pé, sem soltá-lo até a explosão, não coloca a população em risco. Durante a apresentação da linha de fogo, muitas pessoas invadem a área para tirar selfies ao lado dos soldados.

Chiota diz ainda que só há risco de explosão se o artefato for mal feito e a pólvora fina não for bem socada. O fogueteiro faz ainda uma comparação com os fogos de Barra e a espada de Cruz das Almas (BA)

“Quando estoura, o barro sobe o suficiente para sair da mão do ‘soldado’. Não voa, não bate na cabeça de ninguém. Em Cruz das Almas, o pessoal joga os fogos no chão. Aquela espada é feita com uma taboca grossa, pesada. Quando solta, o arrojo da chama tem uma força muito grande. Onde ela bate, fere. E onde não fere, queima. E o nosso busca-pé a gente não solta. Às vezes, acontece de um busca-pé sair da mão. Ele sai rabeando, corre para aqui, corre para acolá, mas não há um perigo de queimar, sair todo mundo para o hospital” – diz.

Chiota conta que uma vez levou uma fita para Estância (SE), onde também ocorre guerra de espada. Segundo ele, os sergipanos ficaram impressionados porque o estouro na Barra é feito na mão

“A gente não solta, não joga, não faz nada. É por isso que a gente desfila na rua” – acrescenta o fogueteiro.

Os soldados e soldadas da linha de fogo usam casacos de brim grosso, luvas de couro e capacetes. Os mais experientes realizam manobras como ‘pegar chama’ (tirar da mão de outro soldado o busca-pé) e ‘cabriolas’. Para isto, é preciso que o companheiro conheça os códigos dos participantes, como tocar nas costas de quem terá o fogo retirado de suas mãos. Alan conta que uma vez se queimou porque o companheiro da linha de fogo era inexperiente.

Do momento em que se acende o busca-pé até a explosão, o tempo médio é de 15 segundos.

GALERIA DE FOTOS

Veja as fotos do processo de fabricação do buscapé:

 

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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