120 anos depois do fim da guerra

120 anos depois do fim da guerra

Júlia Maria dos Santos, 81, conta histórias sobre Antônio Conselheiro, a Guerra de Canudos e sobre e a vida de sua família após o conflito. Duru, como também é conhecida é descendente de conselheiristas.

Júlia: “A vida no arraial era muito boa”. Foto: Paulo Oliveira

Seus bisavós e avós viveram e lutaram em Belo Monte, escapando da morte por pouco: saíram para procurar comida e quando voltaram o Exército havia fechado os acessos da estrada de Uauá e ninguém mais entrava no arraial. As mulheres de sua família foram presas (na foto de Flávio de Barros, no alto da página, mulheres e crianças presas pelo Exército) e passaram seis meses detidas em Salvador, antes de voltarem para Canudos.

O pai de Júlia, João de Régis (segunda foto de cima para baixo), era considerado por pesquisadores como um dos melhores e mais respeitados conhecedores dos fatos relacionados à Guerra e um dos poucos a contá-los, pois, depois do massacre, a maioria dos sobreviventes tinha medo de falar sobre Conselheiro e seus seguidores. Temiam retaliação.

A filha de João, que convalesce de um tombo e passa boa parte do tempo na cama ao lado de remédios e de um exemplar da Bíblia, confessa nesta entrevista para Meus Sertões, que chegou a se revoltar contra Antônio Conselheiro quando era criança:

“Por causa dele morreu tanta gente, houve tanto sofrimento” – acreditava antes de conhecer os fatos que levaram ao massacre de homens, mulheres e crianças.

Foi com a chegada de religiosas na região que o pensamento dela começou a mudar:

“As irmãs falavam sobre Conselheiro. Aí, a gente foi perdendo o medo. Foram surgindo as histórias, os almanaques, as romarias. Foi bom demais” – revela.

Júlia acrescenta que o pessoal de fora dá mais valor ao beato do que os canudenses. E classifica a vida no arraial de Belo Monte como muito boa:

“Os pais botavam os filhos para rezar Bendito, Pai Nosso, Terço. Naquela época, a gente respeitava a Quaresma. Não comia carne. Não cantava. Se cantasse levava um tapa na bunda e ouvia: ‘Você está cantando na Quaresma, quer virar bicho’. Quem é que dizia um nome (palavrão) na Quaresma? Perto da Semana Santa a gente jejuava, não pintava unha, não botava batom. Em Belo Monte não havia prostituição, cachaçada, roubo”

Veja o vídeos com o depoimento de Júlia

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