Fazenda Pau de Colher

Fazenda Pau de Colher

O empenho do agricultor Abelmanto Carneiro de Oliveira, 44 anos, para transformar os 10 hectares que herdou da Fazenda Pau de Colher, a 16 km de Riachão do Jacuípe, em uma área experimental de tecnologias para a convivência com o semiárido, o fez obter ótimos resultados. Atualmente, consegue passar por período de até dois anos e seis meses de seca sem sobressaltos.

A experiência, que consiste em testar e implantar tecnologias de convivência com o semiárido atraíram, nos últimos três anos (2014 a 2016), 5.603 visitantes interessados em conhecer o projeto Vida do Solo. São estudantes, universitários, professores, agricultores e técnicos do Brasil e de outros países, incluindo Estados Unidos, Alemanha, Quênia e África do Sul.

Para receber melhor e permitir que as pessoas passem mais tempo no Centro de Formação João Pitanga – nome dado para homenagear o pai -, Abelmanto construiu um alojamento com recursos próprios, ganhos com suas invenções.

“Somos um livro aberto. O pessoal vem para socializar e copiar as técnicas. Os representantes da África são os que mais utilizam o que aprendem aqui. Não cobramos nada, apenas mostramos que somos capazes” – diz Abel, como também é conhecido.

O agricultor concluiu o segundo grau, mas diz só ter ganho conhecimento até a quarta série. Sua vida é dedicada ao campo, onde ganhou experiência na “força bruta”. Abel lembra que seus pais não entendiam a forma que ele agia e diziam que era melhor estudar porque ele “não tinha coragem para trabalhar”. Hoje, discute questões com agrônomos e veterinários e faz palestras por todo o estado, em ONGs e universidades.

Sua trajetória iniciou em 2004, quando criou o Projeto Educacional Ambiental Vida do Solo, que deslanchou dois anos depois e ganhou repercussão internacional. O primeiro incentivo foi dado pelo Movimento de Organização Comunitária (MOC), entidade criada em 1967 com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável no campo.

“O MOC me deu oportunidade de conhecer outras dimensões e de buscar novos conhecimentos” – conta.

Através do projeto, Abel criou técnicas e soluções simples para problemas complexos. A primeira invenção foi a “bomba malhação”, feita com tubos de PVC, bola de gude, borracha e uma garrafa pet.

A bomba, inspirada em modelo manual de encher pneus surgiu para atender programas de governo como o “Água para Todos”, e “Um milhão de cisternas”, em localidades em que não havia luz elétrica. O rústico equipamento é capaz de fazer jorrar 1.322 litros de água por hora em profundidade de até 25 metros.

“Com isso ganhamos aval. Saiu bomba daqui para o Rio Grande do Norte, Sergipe, toda a Bahia e para o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais” – lembra.

A iniciativa gerou emprego e renda para 12 pessoas da comunidade do Mucambo, onde fica a Fazenda Pau de Colher, durante um ano. Cada bomba custava R$ 65 reais, bem mais barata que a esférica (R$ 180), usada em áreas com energia elétrica.

No total, foram vendidas 8.768 unidades, o que rendeu R$ 569.920. Parte do que foi arrecadado (R$ 5 por bomba vendida) gerou um fundo de reserva. Esta verba serviu para a construção do alojamento e do centro de formação da fazenda.

“Dentre os trabalhadores,  alguns compraram moto e construíram casa. Todos eram jovens. Isso me deixou muito feliz” – comenta.

A venda de bombas diminuiu na proporção em que a rede de energia elétrica avançou nas zonas rurais. No entanto, mais tarde, a invenção seria utilizada para fazer chover no sertão.

O FAZEDOR DE CHUVA

A bomba malhação passou a fazer parte do kit  Irrigação Alternativa, que inclui micro aspersores feitos com material reciclável – arame, prego e haste de pirulito ou de caneta e tubos de PVC de meia polegada. Os kits foram produzidos por mulheres da comunidade, que ganharam R$ 70 por dia, enquanto a diária na roça era de R$ 38. Foram comercializadas 12 mil unidades.

O equipamento permite simular chuva de inverno em áreas pequenas, economiza 40% de água em comparação ao modelo de irrigação convencional e evita a salinização do solo.

Na fazenda Colher de Pau, o sistema está instalado em uma estufa de 32 m² que produz mudas de plantas condimentais (coentro, cheiro verde) e de árvores frutíferas, usadas para fornecer matéria-prima para a principal atividade da propriedade atualmente: a fabricação de polpas de frutas.

Após o acionamento da bomba por dois minutos, a água é jogada na tubulação instalada no alto da estufa. Por pressão, o líquido se choca com os pregos, acionando os aspersores e abrindo um leque de água. Em pouco tempo, a temperatura no local fica amena. O procedimento é feito três vezes por dia. O jato de água de cada aspersor atinge dois metros de circunferência.

A estufa também serve como uma terapia para Abel. Ele planta as mudas e elas formam diferentes imagens como a bandeira do Brasil e o escudo de seu time, o Vitória.

“Quem chegar de manhã cedo, verá que estou sentado aqui, conversando com as plantas” – conta.

PROJETO DE AGROINDÚSTRIA

A decisão de produzir e vender polpas de frutas surgiu em 2008, quando Abel e o grupo comunitário conhecido como Mulheres do Mucambo começaram a discutir questões como segurança alimentar. Em um dos debates, a questão do desperdício de frutas na região foi tratada.

O agricultor coordenou um levantamento em um raio de 6 km. Foi identificada a existência de 1.800 umbuzeiros. Cada pé produzia, em média, 55 kg de umbu por safra. Dos 99 mil quilos da fruta, apenas 5% eram aproveitados pelos moradores.

O início do empreendimento foi marcado por dificuldades. As polpas de frutas eram retiradas à mão e não havia onde armazená-las. Em setembro de 2009, o grupo pediu ajuda ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural na Bahia (Senar), que ministrou cursos de processamento de frutas e cooperativismo.

Obteve também assessoria do MOC e do Projeto Rede de Cidadania no Sertão da Bahia, apoiado pela Petrobras. Conseguiram então qualificar seus processos, aumentar a produção e obter certificação para comercialização em mercados institucionais.

O processo avançou e a equipe, atualmente com nove pessoas, obteve equipamentos apropriados – um selador, três freezers, um despolpador e uma cozinha comunitária, cedida pelo Projeto Vida do Solo.

A fábrica de polpas da fazenda Pau de Colher proporciona renda indireta para 42 pessoas. Nos últimos dois anos, a produção foi superior a dois mil litros de polpas.

Hoje, além do umbu, são produzidas polpas outras frutas como goiaba e acerola. Em dezembro, foi a vez de tamarindo e manga. A safra do cajá começa mês que vem. Os próximos passos são fundar uma cooperativa e obter subsídios do governo para a instalação de uma agroindústria.

“O Ministério da Agricultura estabelece que você não pode botar menos de 30% de polpa no produto. Quando diz isso, significa que o produto pode ter 70% de água. O nosso é 100% de polpa. É concentrado. Devido à qualidade, estamos vendendo de 500 a 600 saquinhos de 130 gramas de polpa para outras cidades” – acrescenta.

A produção de mudas de umbu também desperta interesse. Segundo o agricultor, a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), uma das mais conhecidas no estado, sondou a possibilidade de produção de 10 mil unidades. O umbuzeiro é a árvore símbolo da caatinga. Com expectativa de vida de 100 anos, começa a dar frutos, de acordo com o solo, a partir do sexto.

O SENHOR DAS ÁGUAS

De tudo o que produz em suas terras, Abel gosta mesmo é de fazer água. Em 10 hectares – parte da fazenda que lhe coube de herança –  ele possui cinco cisternas que armazenam 150 m³ de água e 16 barreiros de diferentes tipos.

São eles o barreiro-trincheira (tanque longo, estreito e fundo usado para armazenar a água da chuva, matar a sede dos animais e ampliar área produtiva), barragem sucessiva (feita para abastecer o lençol freático) e barragens subterrâneas ( mantêm o solo úmido a 50 cm de profundidade, eliminando a necessidade de regar a terra para que ela fique produtiva durante o ano todo).

Sua capacidade total de armazenamento é de 4 milhões e 388 mil litros de água.

“A minha carga de consumo anual é de 788 mil litros. Isto significa que tenho água sobrando. Para conviver com o semiárido é preciso criar condições. O que sobra é usado para plantio de capim de corte, árvores frutíferas e inventar várias coisas” – diz.

Das cisternas, as duas de produção foram obtidas através do Projeto Rede de Cidadania no Sertão da Bahia, apoiado pela Petrobras, e da ONG Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). As outras foram feitas pelo agricultor. Assim, ele conseguiu suportar dois anos e meio de seca sem problemas de abastecimento para cinco famílias e seu rebanho com 52 cabeças de ovinos e caprinos.

No último dia 17, choveu 30 mm por m² em Riachão do Jacuípe. Foi suficiente para Abel recuperar 242 mil m³ de água em seus reservatórios.

O proprietário rural  se vangloria de ter uma espécie de adutora e de não depender da Embasa, concessionária que atua no estado. Ele trata da própria água com uma pastilhas de cloro – uma a cada 12 m³.

“Quando as pessoas chegam aqui não acreditam que estão no semiárido e que aqui é possível viver bem” – comenta.

Apesar da fartura, Abel ainda utiliza um sistema de fossa biodigestor com dois filtros para reaproveitar a água descartada. Também criou o  “bebedouro inteligente” para o rebanho, evitando desperdício.

FORRAGEM PARA O REBANHO

Certa vez, Abel pediu para um veterinário uma fórmula de ração para suas cabras e ovelhas. Depois de insistir por dois meses, recebeu uma resposta padrã: 30% soja e 60% milho. Não ficou satisfeito porque não produzia soja. Resolveu pesquisar e chegou a uma mistura de capim Tanzânia ou capim de corte e palhada de milho triturada. Seu o capim é plantado debaixo de árvores para ter mais proteínas.

Os fardos de ração são ensacados e enterrados em dunas de silagem, mantendo suas propriedades por até três anos. Em dezembro do ano passado, o estoque era de 10.800 quilos de ração. Atualmente são cinco mil quilos, além das plantações de mandacaru e de palma, cactos utilizados como forragem e que ainda não foram tocados.

A técnica utilizada para o plantio da palma – adensada em curva de nível – reduz o tempo de colheita de 32 para 16 meses e permite melhor aproveitamento da água da chuva, que infiltra mais no solo.

O risco de oferecer só palma para os animais, como estão fazendo muitos criadores da região, é que por ter apenas 10% de matéria seca o alimento pode causar diarreia, infecção intestinal e outras doenças que reduzirão a produção de leite e de carne.

A propriedade rural de Abel tem capacidade para 100 cabeças de caprinos e ovinos, mas ele decidiu criar a metade, devido aos seus compromissos externos – palestras, cursos e seminários. Além disso, mantém um blog e uma página no Facebook do Projeto Educação Ambiental Vida do Solo, nos quais posta vídeos e dicas com informações para os agricultores.

A maior parte dos animais é sem raça definida, mas atualmente é feito um trabalho de melhoria genética, cruzando as fêmeas com raças que produzem mais leites como a parda alpina.

Outra vantagem da estocagem de ração é que o criador pode fazer bons negócios no período da estiagem. Abel, por exemplo, comprou  reprodutores que custavam R$ 800 no mercado por menos da metade do preço. O vendedor não tinha mais alimento para os animais.

OUTROS EQUIPAMENTOS

Uma das maiores alegrias do agricultor foi ter o trabalho reconhecido pelo pai, quando este lhe pediu conselho sobre a poda de uma árvore.

“No início, ele me chamava de preguiçoso, mas consegui quebrar o paradigma. Quando ele  fez a consulta, fiquei mais motivado. Hoje somos referência” – diz.

A disposição de introduzir novas técnicas e inovar sempre e a produtividade permitem que a Colher de Pau obtenha novos equipamentos com as ONGs.

Foi assim com a Bomba de Água Popular (BAP), introduzida no Nordeste pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA).

Na década de 2000, a organização importou as três primeiras BAPs, criadas pelo voluntário holandês Gert Jam Bom e nunca patenteada para ser utilizada em qualquer lugar do mundo. Dentre os países que a adotaram estão a Nigéria, Moçambique e Burquina Faso.

A BAP é uma bomba manual, de fácil manuseio,  baixo custo de manutenção e muito resistente. É utilizada para captar água em poços perfurados e desativados até 100 metros de profundidade. A 40 metros retira mil litros por hora. Doze mil litros atendem até 60 famílias diariamente.

Abel foi um dos criadores que recebeu uma delas. Entre 2005 e 2012 foram instaladas mil bombas no semiárido, beneficiando 140 mil pessoas.

Além disso, por conta própria, ele instalou na propriedade um sistema de biogás, que produz o equivalente a 2,5 botijões por mês. Com o biogás, o desmatamento de árvores da caatinga para produção de lenha e carvão é reduzido. Outros efeitos benéficos: o uso de gás liquefeito de petróleo é eliminado, os currais são mantidos limpos e são produzidos insumos para fertilizantes.

Para manter as cabras longe de suas hortas ou impedir que avancem sobre outras propriedades e para áreas de mata preservada foram instaladas cercas eletrificadas, que exigem menos estacas. O eletrificador de sistema alternado dá choque, mas não mata os animais

PROGRAMA DE RÁDIO

 Convidado pelo proprietário da Rádio Jacuípe, Evandro Matos, para apresentar um programa sobre agricultura aos domingos, às 6 horas, Abel “enrolou” o empresário durante um ano. Quando não tinha mais argumentos, aceitou a proposta.

Sem nenhuma experiência como comunicador, decidiu fazer o que sabia: dar dicas falando a linguagem do campo. O programa se transformou em um líder de audiência, tratando de temas como produção orgânica e agroecologia. Nele, as pessoas aprendem a fazer inseticida natural e a usar o capim tiririca como enraizador.

Sobre seus conhecimentos, o produtor rural conta que queria ser técnico em agropecuária ou em agroecologia, mas não tinha estudo. Quando seus métodos passaram a ser divulgados, foi procurado por universidades como a Uneb e o IFBA, de Jequié, para ensinar prática para os estudantes de agronomia.

“Imagine, um cara como eu que não teve formação acadêmica, fazendo palestras em universidades” – orgulha-se.

Casado com Jacira de Oliveira e pai de uma filha, Abel também conscientiza crianças a preservar a natureza, visitando a escola da comunidade, semanalmente.

Seu mais recente projeto é a instalação de um sistema de evaporação, semelhante ao que é usado em Israel, para dessalinizar água salobra.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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