Fazenda Alto do Leite

Fazenda Alto do Leite

Na casa do criador de cabras e ovelhas Maurício Pereira dos Santos, 74 anos, as visitas não saem sem beber um copo de leite de cabra fervido em panela de barro, no fogão a lenha. Saborosa, a bebida ainda recebe uma pitada de sal. É uma prática comum na Fazenda Alto do Leite, em Canudos, e na região.

Leite na panela de barro fica saboroso.

Desde que tomou entendimento, seu Maurício cria animais. Estabelecido na Serra do Angico, durante os períodos de estiagem, ele enfrenta uma dificuldade adicional. O solo de sua propriedade é argiloso.

Na seca, ele forma uma camada dura e pouco arejada, prejudicando o desenvolvimento da vegetação, bem diferente do que ocorre nos períodos de chuva, quando absorvem bastante água e a terra, composta por mais de 30% de argila, alumínio e ferro, fica úmida e macia.

Aproveitando o período chuvoso, ele planta capim, que é triturado com palha de milho, xerém (milho moído), palma e soja e se transforma em forragem para o rebanho. Devido à atual estiagem, o alimento estocado está bem abaixo do esperado, o que obriga Maurício a comprar um pouco de ração.

Há 30 dias, quatro tambores com 200 kg de forragem estavam cheios, bem socados. O capim cortado em janeiro, reforçou o estoque de alimentos para os animais. Em fevereiro, houve um revés. A plantação de palma não vingou, o que fez o criador comprar 17 sulcos de capim de outras propriedades, a R$ 5 o metro.

Galões com forragem. Foto: Paulo Oliveira

Seu Maurício cria seu rebanho em fundo de pasto, mas também faz cruzamentos para aumentar a quantidade de leite produzido e fazer melhoria genética. Por isso, mantém cerca de 50 cabeças de caprinos e ovinos confinados em três currais.

Os bichos presos consomem um tambor de forragem em cinco dias. Os reprodutores também são mantidos nos currais. Os machos precisam se alimentar bem e têm capacidade para cobrir até três fêmeas por noite. O cruzamento entre os animais precisa ser feito com cautela para que as raças nativas não sejam extintas.

As cabras nos cercados são das raças Canindé (originária do Piauí e que produz até 800 ml de leite por dia), Parda Alpina (trazidas nas décadas de 1970 e 1980 da Alemanha, Suíça e França para o Brasil e capazes de fornecer entre dois e quatro litros de leite por dia), Saanen (importadas da Suíça e campeãs de produção leiteira – entre sete e 11 litros diários) e resistente e fértil Dorper (criada na África do Sul e introduzida no Brasil por incentivo de autoridades paraibanas, em 1998). Os melhores animais são vendidos por valores entre R$ 600 e R$ 800, cada.

No dia 8 de fevereiro ainda havia alimento para os animais confinados.

“A estiagem mói muito a criação” – diz Maurício, sem saber ainda que a previsão para fevereiro, março e abril é de poucas chuvas.

PREVISÃO DO TEMPO

Segundo o Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal (GTPCS) do Ministério da Ciência e Tecnologia, formado por pesquisadores de fundações e institutos meteorológicos, o cenário previsto é que chova até 30% abaixo da média histórica na região. Como consequência, se a previsão se concretizar, os reservatórios de água não terão recuperação significativa.

Projeta-se ainda “impacto severo nas condições para agricultura e pecuária”, principalmente no leste do Piauí, sul do Ceará, oeste de Pernambuco e centro-norte da Bahia. Se as chuvas atingirem a média histórica, a seca atingirá de forma leve ou moderada 54% da área do semiárido e 7% de forma moderada ou extrema.

Apesar da previsão pouco animadora, seu Maurício hoje tem mais condições de enfrentar os longos períodos de estiagem, graças a tecnologias implantadas em suas terras e a assistência técnica oferecida pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) e outras entidades.

Técnico dá orientações. Foto: Paulo Oliveira

Oito de fevereiro também foi dia da visita do técnico de agropecuária do IRPAA, Vanderlei Leite da Silva, que tem entre suas diversas atividades a prestação de assistência técnica para 90 criadores e agricultores da região.

Sediada em Juazeiro (BA), a Organização Não Governamental (ONG) IRPAA atua há 26 anos em Canudos e mais nove municípios do território de identidade sertão do São Francisco e integra a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Além da assistência técnica, atua no processo de regularização de terras, ações de sustentabilidade, fortalecimento de associações e projetos de conservação da caatinga.

Filho de vaqueiro, Vanderlei, 28 anos, está cursando o 5º período da faculdade de agronomia. Desde 2009 – inicialmente foi agente de desenvolvimento rural – faz parte da equipe que beneficia cerca de 5 mil pessoas, em Canudos e localidades vizinhas.

Graças ao IRPAA e a Companhia de Desenvolvimento de Ação Regional (CAR) da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Rural, a família Pereira dos Santos convive melhor com a seca. No passado, Maurício conta que vendeu quase todo o rebanho, ficando apenas com uma cabra e duas ovelhas. Hoje, só vende os animais “a pulso”, para comprar um bom reprodutor ou em caso de muita necessidade.

A fazenda de seu Maurício hoje tem uma casa de alvenaria que funciona como silo, duas cisternas, e um biodigestor que produz biogás com estrume dos animais que é utilizado na residência. Na localidade há uma forrageira para ser utilizada pelos moradores

O técnico do IRPAA também verifica a limpeza dos currais, o manejo alimentar, a sanidade dos bichos e ensina a preparar remédios naturais para controlar vermes.

Há dez anos, foi construída uma parte elevada na área de confinamento para evitar que os caprinos fiquem em contato com o estrume, o que pode causar danos no casco. A ONG sertaneja contratou alguém para fazer a obra há 10 anos, utilizando como lastro as flechas de sisal, material resistente que nunca deu cupim. Recentemente, a madeira foi renovada.

Na bicicleta, folhas de icó. Foto: Paulo Oliveira

As cabras criadas soltas comem as folhas da catingueira e faveleira. Seu Maurício, por precaução, estoca folhas de icó, consideradas “um refrigério” para o rebanho quando a seca é muito forte. Há quem diga que a folha do icozeiro escurece a carne dos animais e modifica o gosto, mas não há prova concreta que isto ocorra, segundo Vanderlei.

O proprietário da fazenda não gosta de falar sobre quanto ganha com a criação. De acordo com ele, o rebanho é mais para o consumo da família. O litro de leite de cabra na região é vendido a R$ 3.

MAIOR REBANHO DO BRASIL

Reprodutor e filhote no cocho. Foto: Paulo Oliveira

Apesar de enfrentar períodos de seca rigorosos, a Bahia é o estado com o maior rebanho de caprinos do país. Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) de 2015, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que as criações de caprinos somaram 9,6 milhões de cabeças em todo o país. Bahia (24,7%, o equivalente a 2,6 milhões), Pernambuco (25,3%), Piauí (12,8%) e Ceará (11,6%) são responsáveis por 83,3% do total. As cidades com os maiores rebanhos são Casa Nova (BA), Floresta (PE) e Petrolina (PE).

O mesmo levantamento mostra que em relação aos ovinos, a Bahia está em segundo lugar, atrás do Rio Grande do Sul. Os municípios com mais cabeças são Santana do Livramento (RS), Casa Nova (BA) e Alegrete (RS). Há expectativa que o IBGE realize um novo censo agropecuário este ano.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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