Fazenda Rebolão de Chorrochó

Fazenda Rebolão de Chorrochó

O auxiliar de enfermagem Genivaldo Bernardes dos Santos, 57 anos, improvisou um motor de motocicleta para servir de bomba hidráulica e puxar a água de um dos poços da Fazenda Rebolão, que herdou dos pais, em Chorrochó. Ao acionar a máquina, as cabras e ovelhas espalhadas pela caatinga se guiam pelo barulho e correm para o bebedouro.

Neste mês de férias, Genivaldo vai diariamente de Macururé, onde mora, à propriedade, que pertence à sua família há cerca de 80 anos. É em uma caminhonete Chevrolet C10, ano 1974, que cruza a BR-116. São 18 km de distância, sendo oito, tabuleiro adentro.

O dia está nublado, venta um pouco e a temperatura amena faz com que a esperança de chuva aumente. Não se fala em outra coisa na região a não ser da estiagem deste ano. Caminhoneiros que abastecem no posto MAR, na BR-116 norte, dizem que a chuvarada está chegando, pois naquele dia regou Cabrobó (PE), a 110 km. A notícia corre velozmente, mas não se concretiza.

Chorrochó e Macururé não são monitoradas por uma das estações automáticas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), instaladas em 47 das 417 cidades baianas. Para se ter uma ideia do clima da região, consideremos a estação de Paulo Afonso, município que assim como as duas cidades integra o Território de Identidade (uma das subdivisões regionais feitas pelo governo da Bahia) de Itaparica (PE), devido à influência do estado vizinho. O rio São Francisco corta parte da região.

Segundo dados do Inmet, entre os dias 16 de fevereiro de 2016 e 14 de fevereiro deste ano, Paulo Afonso teve 37 dias chuvosos. Em 28 dias, choveu menos de 3 mm por metro quadrado. O restante do período variou de 3 mm a 16 mm. Maio e junho foram os meses com maior precipitação pluviométrica (33 mm e 57,6 mm, respectivamente. As últimas (e poucas) chuvas foram registradas nos dias 21 e 22 de dezembro.

É preciso ressaltar que as condições pluviométricas diferem. O último temporal na região ocorreu em janeiro de 2016. Macururé recebeu 279 mm de chuva; Paulo Afonso, 239,6 mm; e Chorrochó, 169,6 mm. Os dados são do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do Ministério da Ciência e Tecnologia, um dos cinco órgãos estaduais e federais que recolhem e acompanham os dados pluviométricos na Bahia.

MARCAS NA ORELHA

A resistente picape de Genivaldo corta o tabuleiro, relevo formado por pequenos platôs, limitado por escarpas abruptas, com vegetação repleta de cactus e arbustos. Cruza com grupos de cabras e reconhece algumas.

Uma das formas de identificar os bichos é pelas marcas nas orelhas, feitas para que sejam criadas livres. Normalmente, os vizinhos identificam as marcações uns dos outros.

As de Genivaldo possuem, em um dos lados, dois “lascões” nas pontas, formando o mourão. Na outra orelha, há um talho ou dois para mostrar que o animal pertence ao pai ou a um de seus filhos. Outras marcas são chamadas de troncha, canzil, porta, mossa, concha de quadro, nesgas e dente limpo.

A caminhonete chacoalha. Atrás, carrega tonéis vazios. Deveria transportar ração. Só que há pelo menos três dias, os mercados da Macururé não têm o produto. Normalmente, os sacos de comida animal terminam nos dias de feira, às terças, quando a procura é grande. Cinco atravessadores de Paulo Afonso compram ovinos e caprinos na cidade.

“Dizem que Uauá é a terra do bode, mas na verdade Macururé e Chorrochó é que são. O rebanho de lá tem melhor qualidade, mas os daqui são maiores”, diz o criador, que costuma vender de 15 a 20 animais quando tem necessidade.

A feira de Macururé negocia entre 150 e 250 bodes por semana. Em passado recente, chegava a 500. Os bichos são comprados vivos. O quilo custa cerca de R$ 15 reais. O preço cai para R$ 8 reais se a oferta for muito grande. Um caprino chega a pesar 15 quilos na faixa etária de dois a três anos.

O rebanho de Genivaldo é usado para alimentar a família –  ele não gosta de carne de boi. O dinheiro arrecadado com os que são vendidos é utilizado, em grande parte, para comprar ração.

A VELHA CABRA

Ao descer do carro, diante da antiga casa da fazenda de 50 hectares, o criador separa a cabra mais velha e a leva para dentro de casa, onde serve milho. Ele explica que se não fizer isto, a “pé-duro” de pelo marrom não consegue se alimentar, pois as mais novas não deixam. O animal tem tratamento privilegiado, mas não tem nome. Não é costume se apegar tanto aos bichos.

Do lado de fora, as outras cabras e ovelhas aguardam a vez de comer.

Enquanto distribui o pouco milho que levou, Genivaldo volta a falar sobre chuva. Ele comenta que tem observado relâmpagos para os lados de Pernambuco e acrescenta que a água deve chegar logo, se o vento mudar.

Na Fazenda Rebolão, por enquanto, dois poços dão conta de matar a sede do rebanho.

“Fui obrigado a fazer as perfurações porque a criação estava berrando de sede”, conta.

Para encontrar o veio de água, contratou um “achador” ou “vedor de água”, profissional também conhecido por um nome complicado: radiestesista. Ele utilizado bastões, pêndulos e outros instrumentos em seu ofício.

Na primeira vez, seguindo a indicação de um “vedor” da região, perfurou 75 metros. O resultado foi pó e decepção. A água que atingiria o patamar de 20 metros brotou muitos dias depois.

Nesse ínterim, um radiestesista estabelecido em Juazeiro, foi chamado. Cobrou R$ 300 para localizar água, um pouco salobra, a 15 metros de profundidade.

“Dá até para a gente beber”, comemora.

FALTA DE ENERGIA

Sem dinheiro para comprar uma bomba e um gerador, já que a localidade não tem energia elétrica, Genivaldo improvisou um motor de motocicleta para puxar a água e jogá-la no bebedouro, distante 150 metros. Após colocar menos de um litro de gasolina e acionar a “gambiarra”, como ele mesmo chama, foi preciso esperar 45 minutos para encher a caixa d’água de dois mil litros.

Antes dos poços, a família Santos se virava com cacimbas. A primeira, aberta a golpes de picareta há 50 anos, parecia inesgotável. Um dia secou. O líquido acabou porque, segundo Genivaldo, o cunhado de seu pai começou a brigar por água e impedir que outras pessoas utilizassem o reservatório.

Uma antiga crença sertaneja diz que o castigo para quem nega água é ficar sem ela. Isto também ocorre com quem maltrata os animais. E o marido de sua tia matava sapos.

“É por isso que deixo a porteira do bebedouro aberta. Pode entrar um elefante ou uma formiga, que não nego água” – conta.

As outras cacimbas foram feitas há 30 e 10 anos, respectivamente. A mais nova está entupida. Para abrir o buraco, dois homens levaram 35 dias. As pedras retiradas foram usadas para construir um paredão rochoso numa área próxima ao reservatório.

Os problemas não param por aí. A cisterna perdeu a utilidade porque rachou e não segura mais água. É preciso construir outra. Genivaldo diz que por ser funcionário público não pode se habilitar aos programas estaduais.

Uma barragem construída com verbas públicas às margens da BR-116, na época da construção da estrada, no final da década de 1960, foi cercada pelo atual dono da propriedade onde ela está instalada. Ele determina as regras de acesso e quem pode retirar água. Moradores da região dizem que o senhor das águas é parente do atual prefeito de Macururé.  Faz as regras, mas não cuida da manutenção da barragem:  a rampa do sangradouro está desmoronando.

Desde os primeiros anos da década atual, políticos prometem obter recursos para a construção da Barragem do Careta, que atenderia Macururé e Chorrochó.

Primeiro foi o deputado federal e, posteriormente, ministro das Cidades Mário Negromonte. Ele não cumpriu a palavra. Em janeiro do ano passado, saiu de cena, indiciado pela Polícia Federal na Operação Lava-Jato por crime de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

Em 2014, o então candidato a governador Rui Costa (PT) prometeu ampliar o projeto Água para Todos, o que incluía a construção da represa do Careta. Eleito, anunciou que buscaria recursos para a obra. Até hoje a barragem, fundamental para a segurança hídrica, não foi construída.

RAÇÃO CARA E RISCOS

Apesar de todos os obstáculos, Genivaldo considera a falta de condições para produzir e adquirir ração seu maior problema. De 2016 para cá, ele diz ter perdido 12 cabeças, equivalente a 4% do rebanho. Presume que os animais morreram de fome e considera as perdas pequenas.

Criar bichos soltos na caatinga tem muitas vantagens – mais facilidade para conseguir alimento e água é a principal -, mas sempre há riscos. Genivaldo já viu um bode morto com o casco enganchado no galho de uma árvore, na qual tinha subido para comer as folhas. Os espinhos do quipá (um tipo de cactus) são outro perigo: cegam os animais e provocam ferimentos graves na língua deles.

O dono da fazenda Rebolão admite que por causa de sua outra profissão, nunca participou de reuniões com as entidades que ensinam métodos de produção e armazenamento de alimentos para os bichos.

“Não sei como manusear com a seca do semiárido. Na nossa região, a caatinga não oferece mais condições de alimentação para todos os animais. Aqui não existe mais mandacaru e  xique-xique” – lamenta.

Na semana passada, o saco de 50 kg do farelo de algodão custava R$ 100; o de milho, R$ 60; e o de cerca de 20 kg de farelo de trigo, R$ 40.

Genivaldo não dá folhas de icó para os bichos, como outros criadores fazem quando os recursos minguam, porque, de acordo com ele, a carne do bode fica preta e os compradores de Paulo Afonso não querem animais assim. A rama dessa árvore é considerada um “refrigério” para os animais, por criadores de Canudos.

ESPERANÇA SEM FIM

Pai de três filhos, uma jovem que estuda em Vitória (ES) e um casal de gêmeos de 10 anos, o dono das terras não tem quem o ajude. Ele não conta com assistência técnica do governo nem de ONGs. Quando precisa de socorro recorre a dois peões – um deles com mais de 60 anos – que faziam serviços para seu pai. O pagamento é feito por diária. A mão de obra na região é escassa. A lida é muita e mal remunerada.

Genivaldo diz que gostaria de poder compra exemplares de outras raças para melhorar geneticamente seus animais. Reconhece que precisa de mudas, como as de mandacaru, para substituir a ração. A palma que plantou há três meses não vingou.

Os obstáculos não tiram sua esperança. Ele faz planos de comprar uma máquina forrageira. Mas, por enquanto, mesmo reconhecendo que sofre “para caramba”, mantém o modo de criar o rebanho da forma que aprendeu com os pais.

Em seus planos, se não chover até março pretende vender metade do rebanho para reduzir os custos.

Se cair um pouco de água do céu, em cinco dias a caatinga voltará a ficar verde. É nisto que reside sua esperança.

Enquanto isso, reza, faz pedidos nas missas e adorações

“Se não tiver fé, tudo fica pior” – diz.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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