Marcha pela terra

Marcha pela terra

“Bendita e louvada seja esta romaria, Bendito o povo que marcha, bendito o povo que marcha, tendo Cristo como guia”…

O canto do Zé Vicente (Bendito dos Romeiros) se tornou um hino e, toda vez que ouço, tenho boas recordações da Romaria da Terra e das Águas do Bom Jesus da Lapa,

Para quem não sabe, há 38 anos o Santuário do Bom Jesus, em Bom Jesus da Lapa, na região oeste da Bahia, recebe a Romaria da Terra e das Águas.

São 38 romarias realizadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e pelas dioceses de Irecê, Barra, Bom Jesus da Lapa, pela arquidiocese de Vitoria da Conquista e pelos movimentos sociais ligados à luta pela terra e em defesa das águas.

As Romarias da Terra têm um caráter ecumênico e macro ecumênico, incorporando ritos e símbolos de outras religiões ao universo católico.

As Romarias da Terra valorizam o religioso, e não falham na sua contribuição profética. Elas têm um sentido simbólico, acham sua fonte na própria marcha da humanidade.

CONFLITOS E CONQUISTAS

Sempre houve lugares que despertaram fascínio sobre as pessoas e para os quais elas foram e vão à busca de algo para suas vidas. O mais comum é que as Romarias da Terra se realizem em lugares marcados por algum fato significativo da luta pela terra ou água: um conflito, uma conquista. As terras do Bom Jesus da Lapa explicam tudo, se situa as margens do Velho Chico, rio marcado para morrer.

É um espaço onde comunidades tradicionais, povos da terra, povos das águas, ribeirinhos, pescadores, povos de fundo fecho de pasto, quilombolas e geraizeiros (agricultores que habitam as margens do rio São Francisco entre o norte de Minas Gerais  o oeste da Bahia, entre o cerrado e a caatinga, e dividem uma propriedade comum, chamada de quintal) manifestam suas alegrias, angústias e suas lutas, compartilhadas com todos que defendem seus territórios ameaçados pelos os grandes empreendimentos que degradam e expulsam as pessoas de seus territórios.

São três dias de romaria. Nesse período, têm alguns momentos que consideramos fortes. É claro que toda a mística da Romaria da Terra e das Águas tem sua importância para os povos, mas existem os espaços que chamamos de lugar onde ouvimos o lamento dos participantes. É o local da escuta, onde os povos que vêm para romaria fazem suas denúncias. E não são poucas.

A romaria ela começa em uma sexta-feira com uma missa, uma espécie de acolhida a todos. No dia seguinte, logo cedo, ocorrem os plenarinhos, que é a realização de discussões sobre cinco subtemas específicos, de acordo com a realidade de cada grupo participante e relacionados com a temática principal da romaria

as nossas lutas

Ainda no sábado acontece a Via Sacra, que é para mim um dos momentos mais impactantes da romaria. Eu, há mais de oito anos participo da Romaria da Terra e das Águas. Neste tempo também trago meus anseios e angústias e creio que a participação popular nestes espaços é de fundamental importância, pois são neles que historicamente nós, os povos, temos voz e vez. Momento em que vemos nos rostos de cada um e cada uma de suas lutas. Uma luta em defesa da vida.

Eu vejo a vida aflorar nesse momento. Enxergo uma luta que há 38 anos acontece e que continua a mesma com novos problemas e desafios, mas sempre renovada com o vigor de esperança.

A Via Sacra segue com rezas, benditos, ladainhas e incelenças proclamadas para um rio que morre ligeiramente a cada dia pela a ganância dos grandes projetos. Mas o canto também segue:

“Não deixe morrer/ Não deixe o rio morrer/ Se não o que será de mim que só tenho este rio pra viver…”

Lavradores, lavradoras, ribeirinhos, ribeirinhas, sem terra, guardiões e guardiãs das águas do Velho Chico carregam suas cruzes como espadas, como resistência. Levam a devoção popular e as luzes do Evangelho do Cristo libertador.

Em marcha, os romeiros alertam para a destruição da natureza, para o futuro do homem na Terra e denunciam a violência e o descaso do Estado com os trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Cada cruz tem a característica mística de sua região identificada, a maioria é das regiões do semiárido, onde a água é mais escassa e a luta pela sobrevivência é intensa. As cruzes enfeitadas com elementos representativos são místicas e históricas.

LIBERTAÇÃO E VIDA

Para o romeiro a cruz é sinal das lutas, da libertação e da vida. Algumas delas estão ali desde a primeira Romaria da Terra, que antes era chamada só desta maneira. Com o passar dos anos, para simbolizar a luta dos povos das águas, passou a se chamar Romaria da Terra e das Águas.

A cruz é símbolo de luta e resistência. Foto: Joabes R. Casaldáliga

A Via Sacra é um desfile sagrado de cruzes com enfeites variados, fitinhas, panos, cabaças, garrafinhas d´água e sementes representando a fartura da terra. A Via Sacra é finalizada sempre as margens do Velho Chico (ou o que resta ainda dele). A mística final é a imagem de São Francisco, sempre levada por Dom Luiz Cappio, bispo da Barra, que é uma referência das lutas pela vida do rio. A imagem do santo é colocada no centro da mística popular dos povos do campo e dos ribeirinhos e ribeirinhas.

A romaria termina no domingo, com o “grande plenarão” ou “plenerão final”, como é chamado. É para este encontro que são levadas todas as discussões realizadas e que serão apresentadas, sistematizadas, a todos e todas. Com elas, as dores e angústias dos povos servirão para elaboração da carta final, que será trabalhada nas comunidades e servirá de referência para os movimentos sociais durante o ano. A carta também pode ser entregue às autoridades, como aconteceu em anos passados.

A romaria segue, a nossa via sacra segue. Cantamos e rezamos a vida do povo em busca por dias melhores. Que nossas cruzes sejam de luta e resistência!

exposição romaria da terra e das águas

Conheça Joabes Casaldáliga

 

Joabes R Casaldaliga Contributor
Nascido em Teixeira de Freitas (BA), Joabes R Casaldáliga, aos 10 anos, participava das reuniões das Comunidades Eclesiais de Base. Era levado pela mãe, adepta de religião de matriz africana, que ia aos encontros para discutir os problemas da comunidade em que moravam, em Itamaraju. Cresceu entre o sincretismo, cantos, rezas, benditos, incelenças e a luta pela reforma agrária. Sua vida foi marcada por um encontro com José Comblin, padre que lançou as bases da Teoria da Enxada. É fotógrafo, comunicador popular e integrante da Pastoral da Juventude Rural.

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