Tiago Preto

Tiago Preto

Tiago de Jesus Santos, o Tiago Preto, é uma celebridade em Riachão de Jacuípe, onde também usa o nome de Cassimiro Cassiano Cassiote. O fato de ter sido um dos escolhidos pela artista plástica Virgínia de Medeiros para fazer parte da instalação “Fala dos Confins”, apresentada em São Paulo, em 2010, sobre o modo de se comunicar do sertanejo, aumentou um pouco a sua fama. Assim como o programa de anedotas – estas sim motivo de sua popularidade -, que apresenta na Rádio Jacuípe.

Nascido em Capela do Alto Alegre há 71 anos, segundo ele, e 78, de acordo com os amigos. Tiago perdeu o domínio de sua vida. Quando sai à rua, leva pelo menos três horas para voltar, pois é assediado para contar piadas e causos.

Tiago foi parar em Riachão com o pai, a mãe (Maria Salvadora de Jesus) e seis irmãos após uma enxurrada. Tinha oito anos e tudo o que sabia era trabalhar na roça porque o pai Emanuel dos Santos dizia que “filho macho não precisava aprender a ler e escrever, tinha que saber usar a enxada”.

Ficou analfabeto até os “30 e poucos anos”, quando se matriculou no curso noturno e sua vida começou a se confundir com os causos e anedotas que conta.

“Toda professora que eu tinha, morria. A primeira, Dalva, faleceu 30 dias depois que comecei na escola. A segunda, Maria Lima, durou um pouco mais: 90 dias. A terceira, dona Olga, estava indo bem. Mas três meses depois, ela chegou na escola chorando e disse que ia se aposentar. Acabou o milho, acabou a pipoca. Depois, passei a ter aula na casa dela, mas foi indo, foi indo, morreu. Achei que papagaio velho não ia falar e parei de estudar”, conta.

É difícil saber o que é verdade nas histórias de Tiago. E isto o torna mais fascinante. Certa vez, convenceu um fazendeiro que tinha terras e animais. Chegou a acertar a venda de alguns bichos, mas quando o comprador chegou com o dinheiro e o caminhão para transportar a carga, disse que era brincadeira. Por pouco não levou um tiro, segundo os amigos. Tiago não fala sobre o assunto.

Para quem já teve como profissão “a foice, o machado e a picareta”, foi  carroceiro, chofer, mecânico, pintor, vigia e operador de motor de sisal, hoje a vida está tranquila. Ele lubrifica carros, cuida de uma “rocinha de 10 hectares” – diz e ri –  e é dono de uma bodega.

Na entrada da birosca, duas coisas chamam atenção: o desenho de um caboclo pronto para atirar uma flecha e um par de chifres de bode.

O caboclo foi feito por um andarilho que trocou o desenho por algumas doses de cachaça. Os cornos são, de acordo com Tiago, para quem está apaixonado.

“Na bodega, ele pode usar esses de brincadeira. Em casa, ele põe os de verdade” – caçoa.

Tiago parece com Lázaro Ramos no quadro. Foto: Paulo Oliveira

Pendurados no teto e dispostos nas prateleiras do estabelecimento mal iluminado é possível encontrar couro de cobras (jiboia e sucuri) e de ema, cabeça de raposa, garra de gavião, carcaça de tatu, mandíbula de peixe grande, telefone que não funciona e objetos que fazem alusão à sexualidade do nordestino.

“Eu dependuro para o povo ver e admirar. Porque tem gente que fica na capital e se cria, nunca vem no interior e não sabe o que é isso” – explica.

Duas boas recordações estão afixadas na parede: a reportagem sobre a instalação da artista plástica, onde sobressai a foto de sua birosca, e um retrato de Tiago jovem, parecido com Lázaro Ramos, ao lado da companheira.

ERVAS COM CACHAÇA

Além das brincadeiras, a bodega, que lembra uma caverna, é conhecida pelas infusões de ervas com cachaça. Por dia, são vendidas 40 doses, a R$ 0,50 cada. As plantas ficam nas garrafas por até três meses.  Tiago conta quais seriam os “efeitos medicinais” das ervas que estão nas bebidas.

“Aroeira é refrescante, cambuí abre o apetite, umbuzeiro é bom para o intestino, cassutinga cura dor de barriga, imburana ajuda a “apertar” (acabar com a diarreia) e aroeira branca é bom para baixar pressão”.

A conversa vai longe. É entremeada por anedotas e frases engraçadas do tipo: “Se olhar fizesse aprender, cachorro era magarefe (açougueiro).

Tiago só fica sério na hora de tirar as fotos. O motivo é facilmente descoberto. Faltam os dentes para o homem que tanto faz rir.

AO VIVO

Escute algumas anedotas contadas por Tiago Preto.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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