Um álbum para Carmelita

Um álbum para Carmelita

A antiga fazenda do coronel João Sá, poderoso político e coiteiro de cangaceiros que por muitos anos mandou e desmandou em Jeremoabo, hoje faz parte do bairro de Nossa Senhora de Brotas, a pouco mais de um quilômetro do Centro. Diante da mansão do coronel, com duas casas impedindo a visão do que já foi um imenso canavial, um menino toca violão, observado por Samuel, pernambucano cuja cor branca engana, mas os olhos e feições não escondem a descendência indígena.

Carmelita e o marido Samuel. Reprodução do Facebook
Carmelita e o marido Samuel. Reprodução do Facebook

A professora do garoto e mulher daquele homem, há alguns minutos deixou a varanda para atender o pedido de Brenda, 6 anos, que queria conhecer Maria do Carmo Purificação de Rezende, também chamada de Carmelita, Karmé, Karmé de Dudé, Carmó, Carminha. Tantos nomes quanto as diferentes habilidades que tem para manter, preservar e resgatar a cultura popular de Jeremoabo.

Brenda colocou vestido novo como se fosse a uma festa ou a uma missa na Igreja de São João Batista para ir conhecer Carmelita e ouvir dela a história de Chico Gato, vaqueiro destemido que enfrentou o boi valente até a morte.

Carmelita, 70 anos, envelheceu contando a história do herói jeremoabense nas escolas e em faculdades. Julga que a façanha do vaqueiro precisa ser perpetuada. E, ao contrário da maioria da população que considera Chico uma lenda, acredita no que sua avó dizia:

 “Pode escrever com tinta de outro que é verdade.”

Além de contar, Carmelita canta que o vaqueiro morre para cumprir a promessa feita à amada.  Resgatou a “Canção de Jeremoabo”, do médico e compositor mineiro Joubert de Carvalho que fez sucesso nos anos 40 na voz do seresteiro cearense Gilberto Milfont. Quando a música que narra a saga do peão caiu no esquecimento, a professora passou a cantá-la em cerimônias públicas, resgatando-a.

Recentemente, alunos do 3º ano do colégio estadual José Lourenço de Carvalho, fizeram um álbum em que sua história e a de Chico Gato se misturam. Isso lhe deu muita alegria.

Mas nem sempre a vida foi tão generosa com Carmelita.

A VIDA POR UM FIO

Mistura de descuido e curiosidade infantil por pouco não resultaram em tragédia, registrada em detalhes na mente de Carmelita há mais de seis décadas. Com três anos, a pequena Maria do Carmo entrou na casa da vizinha Maria, que no dialeto infantil era chamada de Babia.

A menina viu um pires na mesa com algo que parecia gelo, tirou um pedaço e engoliu. Lábios e língua incharam. A garganta queimou. O que Carmelita pensava ser um cubo de “sal torrado”, era soda cáustica, que a vizinha utilizava para fazer sabão.

No tempo em que não havia médico, nem hospital, próximo à sua casa, a garotinha foi socorrida pela família com copos e mais copos de leite. Ela calcula que bebeu cerca de dois litros. Depois disso, enjoou e até hoje só consome leite em pó.

O episódio trouxe outra consequência inesperada:

“Perdi as pernas, fiquei paralítica” – conta.

ALFABETIZAÇÃO MUSICAL

Filha da agricultora e rendeira Ambrosina Alves dos Santos e do músico José Garcia da Purificação, Carmelita foi alfabetizada “na cama”:

“Aprendi a ler e escrever ouvindo minha mãe cantar e meu pai tocar. Ela me ensinou com música. Meu pai tocava bandolim, banjo e cavaquinho. Pense em Waldir Azevedo, pense. Ele tinha o mesmo estilo. De “Brasileirinho” a “Pedacinho do Céu” – recorda.

Aprendeu ainda a escala do violão e do cavaquinho, instrumentos que a acompanhariam por toda a vida.

Ao completar oito anos, Carmelita voltou a andar, sem ter feito nenhum tratamento. O inexplicável fazia parte de sua história.

Não entendia porque nas raras vezes que um circo chegava à cidade, chovia. Em sua imaginação, criou a versão de que as nuvens sabiam que as lonas dos circos eram esburacadas e, por isso, deixavam a água cair para pregar uma peça nos espectadores.

Para a família Purificação de Rezende, a chegada de uma trupe também era sinônimo de trabalho. Carmelita acompanhava o pai e o avô Pedro, o Bibo, nos espetáculos circenses. A família, conhecida como “Bibagem”, sempre era contratada para fazer a trilha sonora das apresentações. Às vezes, tinham como reforço um palhaço que tocava pandeiro.

 “Na época, não tinha banda de música, não tinha rádio, disco, nada. Então o circo convidava as pessoas que sabiam tocar e cantar para animar o povo. Quando parava uma apresentação, meu pai fazia belos sons, solando o banjo. Meu avô tocava violão de sete cordas. Era um negócio bonito, mesmo” – recorda.

TALENTO SUPERA BULLYNG

Quando começou a “ficar mocinha”, Carmelita deixou de se apresentar. Guardou nas lembranças bons momentos e um trauma. Quando o pai começou a levá-la para se apresentar nos circos, ainda tinha resquícios da paralisia. Por isso, lhe chamavam de “canela de sabiá”

“Eu não gostava. Sofri muito com isso. Cheguei a ficar de uma maneira que não podia ver ninguém olhar para mim. Eu tinha vergonha”.

Apesar de ser alvo de bullyng, o talento falava mais alto. Quando entrou para a escola, onde completou o ensino fundamental, era sempre chamada para tocar cavaquinho. Nessa época, sonhava em seguir a carreira de seu tio Dão, que tocava na orquestra de Osmar Milani e, posteriormente, foi trabalhar com Chico Anísio.

Se a partir do oitavo aniversário lidou com fatos inexplicáveis, no décimo realizou alguns de seus sonhos: a primeira apresentação oficial como cantora, o primeiro cachê, a primeira festa de São Francisco, a viagem a Paulo Afonso. Um fato foi consequência do outro. E o responsável pela série de acontecimentos foi o coronel João Sá, político poderoso.

Carmelita descreve João Sá como um “homem romântico”. Seu pai, avô e outros músicos eram contratados para fazer serenatas no aniversário do coronel e em datas que ele considerava importante. Em uma das apresentações, a pequena Maria do Carmo cantou a mesma música que apresentava nos circos.

“Meu senhor, eu sou tão infeliz. Canto samba para quem não me quis. Vou levando e indo cantando. Vou levando, vou levando. Já cansei de esperar…”

A menina e os músicos receberam do coronel um envelope com quantias diferenciadas. O dinheiro de Carmelita deu para dona Ambrosina comprar um tecido vermelho, que se transformou em um vestidinho de organza, uma sandália e fita para amarrar as tranças. E, vestida desse jeito, a jovem cantora foi com a família para Paulo Afonso, a 85 quilômetros de Jeremoabo, para a festa de São Francisco.

“Há 60 anos fui à festa pela primeira vez em um carro de feira (pau-de-arara) cheio de gente, de frutas, de tudo. Eu me exibi de roupa nova, sapato, laços de fita, tranças. Lembro da festa, da procissão no rio, uma coisa linda. Chego a me emocionar”

Não foi essa a única vez que o coronel João Sá fez parte de sua história. Carmelita fez a primeira comunhão na capelinha da fazenda do político, dedicada à Nossa Senhora de Brotas.

“A capelinha era um encanto, perfumada de jasmim”.

O jeito que Maria do Carmo descreve nos faz viajar no tempo, esquecer que a capela está em ruínas e até sentir o cheiro de flores.

E VIERAM AS “BRINCADEIRAS”

Quando ainda estava presa à cama por causa da paralisia, Carmelita ouvia incentivos da mãe. Dona Ambrosina prometia que ia ensiná-la a sapatear, a dançar São Gonçalo e reisado. A menina nem sabia o que eram essas coisas, mas bastou dar os primeiros passos começou a cobrar a concretização das promessas. Aos poucos, foi aprendendo a dançar.

O teatro também a seduziu. Começou a encenar dramas no fundo do quintal de casa. Quando faltava energia e só a lua iluminava a cidade, ela e as amigas sentavam nas calçadas e faziam seresta. “Noite cheia de estrelas”, de Cândido das Neves, era obrigatória.

Aos 22 anos, casou-se com Samuel, teve dois filhos e adotou o terceiro. Trabalhava na roça, cuidava da casa, participava do coral da igreja, mas a arte corria em suas veias. Resolveu, então, dedicar parte de seu tempo às danças folclóricas.

Criou, em 2000, o grupo de reisado D’Kartys para resgatar uma tradição, permitir que houvesse diversão durante o Natal e para tentar evitar que os jovens se envolvam com a criminalidade. D’Kartys é formado pelas iniciais dos nomes de pessoas que Carmelita ama e das palavras Deus e trabalho.

No reisado são 25 pessoas que tocam instrumentos, cantam e dançam. As apresentações para anunciar a chegada do Messias ocorrem entre os dias 25 de janeiro e 25 de dezembro. Os custos de produção variam de R$ 2.500 a R$ 3.000 e são obtidos através de doações de comerciantes e moradores de Jeremoabo.

Carmelita não recebe nada para organizar, ensaiar e se apresentar com o grupo. Ela só faz questão de uma coisa: o figurino tem que ser diferente a cada ano. Ela explica que empresta as roupas para as escolas e muitas delas ficam danificadas. Além disso, não quer ouvir o público reclamar que o reisado está usando roupas velhas.

O BAILE DAS CIGANAS

Cigana lembra o reisado de Carmelita. Reprodução do Facebook
Cigana lembra o reisado de Carmelita. Reprodução

A cantora, música, professora de violão, produtora cultural, restauradora de imagens, artesã e fazedora de licores para a festa de São João conta com carinho a experiência de fazer um reisado. Carmelita define o tema, cria as músicas e roteiriza a apresentação, iniciada por um canto feito por meninos. Uma das doze partes da apresentação já teve como personagens principais piratas e ciganas

 “Oh de casa, oh de fora/Maria vai ver quem é /Suas belas ciganinhas/Quem mandou foi São José”

Além do reisado, Maria do Carmo canta na igreja duas vezes por mês com o coral que ela criou formado por mais 11 pessoas. As apresentações também ocorrem em festas de 15 anos e casamentos, onde a música “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos é obrigatória.

Carmelita diz que, com o tempo, passou a ter medo de errar. Agora, só canta com a letra das músicas às mãos. Isto não impede que ela receba convites para se apresentar em Salvador, Paulo Afonso, Aracaju e em cidades pernambucanas.

CANTANDO DE  IMPROVISO

Ouça a “Canção de Jeremoabo”, interpretada por Carmelita

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “Um álbum para Carmelita”

  1. Flávio PassosDisse…
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    Parabéns pela matéria paulo Oliveira, onde você eterniza a cultura Jeremoabense, com certeza uma grande homenagem a esta baluarte da nossa cultura, CARMELITA DE DUDÉ.

    1. Paulo OliveiraDisse…
      Replied on

      Dona Carmelita é uma pessoa muito gentil, cordial e luta pela preservação da cultura de Jeremoabo. Tudo o que for feito para exaltá-la será pouco diante da importância dessa artista fabulosa.

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