Nordeste: ausências e permanências

Nordeste: ausências e permanências

O primeiro contato de Meus Sertões com o professor e fotógrafo Marcelo Eduardo Leite foi durante uma pesquisa para encontrar fotos que pudessem ilustrar um artigo sobre beatismo da professora Enaura Quixabeira, no site. Marcelo foi gentil e cedeu duas de suas muitas fotos sobre Juazeiro do Norte. Não precisou de muito esforço para perceber que seu olhar sobre as questões relacionadas com o Nordeste  era diferenciado.

A aproximação com este paulista de Rio Claro, que hoje mora na Cidade do México, onde faz pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Investigações Estéticas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), nos fez chegar a série de fotos intitulada “Nordeste: ausências e permanências”. As fotos aqui publicadas foram feitas em 14 cidades e sete estados do semiárido, entre 2006 e 2015. Elas ficarão expostas entre os dias 30 de novembro e 2 de janeiro, na sessão Galeria, na primeira página do site.

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Marcelo Eduardo Leite

Em entrevista por e-mail, Marcelo Eduardo Leite conta que iniciou o trabalho como uma forma de compreender a realidade da região para onde viajou e depois passou a viver, a partir de 2010, quando assumiu o cargo de professor na Universidade Federal do Cariri, a qual está vinculado até hoje, em Juazeiro do Norte (CE). O trabalho que hoje publicamos foi exposto em junho deste ano, na Universidade de Salamanca, na Espanha.

Além de revelar como foi o processo de montagem da exposição, Marcelo admite que ficou surpreso com o crescimento desordenado de Juazeiro do Norte e com outros problemas, incluindo a deficiência de saneamento, o trânsito caótico e os índices de criminalidade – a taxa de homicídios é cinco vezes maior do que o limite considerado aceitável pela organização Mundial de Saúde.

Marcelo Eduardo começou a carreira na adolescência. Aos 20 anos – ele nasceu em 1965 – decidiu ser fotógrafo profissional. Autodidata, montou um improvisado laboratório de revelação em preto e branco e produziu seu primeiro projeto autoral sobre a cidade de São Paulo. Na capital paulista, fez curso de fotojornalismo, na Escola Focus, e de iluminação de estúdio, no Sesc Pompéia. Entre 1986 e 1998, produziu a série “Efígies Noturnas”, sobre a boêmia carioca e paulista.

Em 1994, ingressou no curso de ciências sociais na Unesp, em Araraquara (SP). O passo seguinte foi concluir o mestrado em sociologia (2002), também na Unesp, e o doutorado em multimeios, na Unicamp (2007).

Três anos depois, foi aprovado no concurso para professor da Universidade Federal do Cariri, onde deu início a dois projetos. O primeiro em busca da compreensão sobre os aspectos da temporalidade, do esquecimento e das presenças e vestígios ligados aos processos migratórios no Nordeste e outro, intitulado a “Reinvenção de Juazeiro”, que consiste na contínua foto documentação das romarias ligadas à devoção ao Padre Cícero.

Marcelo também é filiado à Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e à Associação Brasileira de Antropologia. Participou de cerca de 40 exposições coletivas e individuais no Brasil e no exterior e recebeu 11 prêmios – seis deles internacionais – na área de fotografia. ´

CINCO PERGUNTAS

Marcelo respondeu a cinco perguntas, via e-mail, sobre a exposição “Nordeste: ausências e permanências”. Confira.

Quando você teve a ideia de fazer a série de fotos Nordeste: ausências e permanências?

A série se deu como uma forma de compreensão da realidade da região, pois senti necessidade de descobrir os espaços e a fotografia é minha forma de fazê-lo. As primeiras imagens durante uma viagem no ano de 2006, as demais foram realizadas após minha mudança para Juazeiro do Norte em 2010.

Qual era o seu objetivo?

Prioritariamente meu objetivo é existencial, de reorganização das coisas que vivo e que me provocam inquietações. No decorrer do processo, estudo o material, organizando e percebendo afinidades entre as fotografias. Diante dessa experiência, novos encaminhamentos surgem e influenciam novas incursões. Nesse caso, notei marcas do abandono nos espaços e, num outro sentido, uma releitura de valores que são introduzidos nestes mesmos lugares.  Só faço a edição final quando vejo uma forma de amarrar o material, numa exposição, por exemplo. Organizei o trabalho aqui exposto para concorrer ao prêmio de residência em fotografia, na Universidade de Salamanca, na Espanha. A exposição aconteceu em junho de 2016.

Das cidades por onde você passou, qual a que mais lhe impressionou. Por quê?

Na verdade, cada lugar tem sua importância, sua peculiaridade, sua forma de externar as condições locais. Admito, porém, que o Cariri Paraibano me surpreendeu. Passei por pequenos municípios com ruas praticamente desérticas, um calor de 45 graus e muita carência de água devido à seca. Destacaria ainda o Sertão de Inhamuns, com sua cor peculiar e um silêncio que é quebrado pelos pequenos movimentos de sua fauna, e oeste do Rio Grande do Norte, onde cidades como Patu e Janduís possuem paisagens maravilhosas.

O que o Nordeste significa para você?

Sou de São Paulo, vim para o Nordeste para trabalhar na Universidade Federal do Cariri e me surpreendi com os problemas da cidade e da região na qual resido, Juazeiro do Norte, no sul do Ceará. Sem planejamento algum, seu crescimento desordenado nos últimos anos acelerou uma desigualdade brutal, somando-se a grave deficiência no saneamento, trânsito extremamente caótico e um caos relacionado aos resíduos produzidos – lixo caseiro e do comércio, além de resíduos da construção civil, espalhados pelas ruas e terrenos cidade. Além disso, a taxa de homicídios é cinco vezes maior que o limite considerável aceitável pela Organização Mundial de Saúde. Tal vivência me fez partir em busca de um espaço maior, mais abrangente, no intuito de promover uma pacificação nessa minha relação com o Nordeste, no qual me inseri. Nesse sentido, fiz uso da localização privilegiada do Cariri cearense e parti para várias regiões, em todos os sentidos possíveis, redescobrindo meu lugar num espaço maior de pertencimento.

Como você descobriu a fotografia e há quanto tempo atua nesta área?

Sou fotógrafo há mais de 30 anos. Iniciei na fotografia com um equipamento amador, ainda na pré-adolescência. Aos 20 anos, vi que a fotografia era minha ferramenta para reflexão sobre minhas experiências de vida, meus reconhecimentos do espaço, minhas descobertas. Assim comecei a realizar projetos autorais nos anos 1980. Nos anos 1990, comecei a expor meus trabalhos e, pouco depois, iniciei a trajetória acadêmica, tendo a fotografia como objeto de pesquisa. Sou formado em Ciências Sociais e fiz mestrado em Sociologia, ambos na Unesp. Depois, conclui o doutorado em Multimeios, na Unicamp, sempre estudando as relações entre fotografia, sociedade e suas formas de representação. Comecei a dar aulas de fotografia no ensino superior em 2005. Atualmente resido na Cidade do México, onde realizo pós-doutorado na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).

Exposição: Ausências e permanências

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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