A resistência das filarmônicas

A resistência das filarmônicas

As filarmônicas surgiram no final do século XVII, com mais ênfase, após a Revolução Francesa, quando músicos amadores passaram a se inspirar nas bandas marciais que utilizavam instrumentos de sopro e percussão. Elas se espalharam pela Europa e pelo mundo e foram trazidas para o Brasil pelos portugueses.

No final do século XIX, quando começou a vigorar o sistema conhecido por coronelismo, pois a política no interior era controlada e comandada por fazendeiros ricos, chamados de coronéis, a filarmônicas começaram a viver um período áureo. Normalmente, segundo Gilmar do Faro Teles, presidente da Federação das Bandas Filarmônicas da Bahia, as cidades tinham no mínimo duas bandas: a do coronel que estava no poder a daquele que lhe fazia oposição.

Foi nesta época que surgiu a Filarmônica 24 de Junho – data em que se comemora o dia do padroeiro (São João) de Jeremoabo. A banda, formada por crianças e adolescentes e tendo como maestro, normalmente, um egresso das Forças Armadas ou da Polícia Militar, se apresentava em festas municipais ou em ocasiões determinadas por seus “padrinhos”, além de eventos políticos. Foi assim,  até a Revolução de 30 e a posse do presidente Getúlio Vargas, quando o coronelismo entrou em declínio.

Em 1935, as portas da 24 de Junho foram fechadas. E ficaram assim por 50 anos. Quando reabriu em 1985, já não era um dos principais instrumentos dos políticos em busca de votos e de demonstrar seu poderio. A filarmônica reabriu com outros objetivos e dependendo da ajuda de sócios, admiradores e empresas e da realização de rifas e sorteios. Passou também a ter como meta manter os jovens afastados das ruas e das drogas.

o oitavo MAESTRO

O atual maestro Mário da Silva é o oitavo da história da filarmônica de Jeremoabo. Formado pelo Centro de Educação Profissional em Artes Basileu França, em Goiás, e concluindo, à distância, o bacharelado em música pelo Centro Universitário Claretiano, em Feira de Santana (BA). Mário fez parte da banda quando tinha nove anos. Quando soube que ela estava sem regente, ofereceu-se para tocá-la.

Aos poucos, conseguiu reunir 28 componentes, com idades entre 9 e 22 anos, que se apresentam em novenas juninas, no desfile da Independência, no aniversário da cidade, em eventos para homenagear professores e em festivais em outros municípios. O repertório vai da MPB e de música pop internacional a valsas, dobrados e boleros.

Adolescentes se esforçam para fazer uma boa apresentação. Foto: Paulo Oliveira
Jovens se esforçam para fazer boa apresentação. Foto: Paulo Oliveira

São três ensaios de até três horas por semana. Um bom aluno leva, no mínimo, dois anos para conseguir ter boa desenvoltura. A princípio, a escolha dos instrumentos, que incluem clarinetes, saxofones, bombardino, trompetes, trombones, pratos e tambores, é feita pelo candidato a músico. No decorrer da aprendizagem, muitos deles trocam de opção.

Mário, que também ensina flauta doce para outro grupo de jovens na filarmônica, lamenta que as filarmônicas estejam acabando, mas não é por falta de talentos.

Uma de suas melhores alunas, Gesly da Silva, 17 anos, é de uma família de músicos e toca sax soprano. Embora tenha se destacado e receba muitos elogios do professor, Gesly só pretende tocar por hobby. Ela quer mesmo é ser bióloga

FALTA DINHEIRO

O presidente da Federação de Filarmônicas e da Sociedade Filarmônica União Ceciliana, em Alagoinhas (região leste da Bahia, próximo ao Recôncavo), Gilmar Teles, diz que há cinco meses tenta atualizar o cadastro de bandas que recebeu da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). Na relação, existem cerca de 200 filarmônicas. No entanto, muitas acabaram ou não estão com os dados atualizados. A Federação tem 50 filiadas, inclusive a de Jeremoabo. Nem todas estão em dia com as taxas.

“As filarmônicas estão acabando por falta de dinheiro. As prefeituras não ajudam mais. As que resistem são por conta do trabalho de abnegados, que bancam recursos do próprio bolso e dos maestros voluntários”, diz Teles, que reformou parte da sede da banda de Alagoinhas, trocando o piso e construindo dois banheiros.

Outros dirigentes  que pedem para não se identificar se queixam que têm dificuldade para ser contemplados com recursos de editais do governo estadual. Dizem que a categoria música é muito abrangente e quase nada sobra para as filarmônicas.

Atualmente, a região com maior número de banda de jovens é o recôncavo baiano. São pelo menos 23, sendo cinco estabelecidas em Santo Amaro e três, em Cachoeira. O custo de manutenção mensal de uma banda com muita atividade, como a Filarmônica Lyra Popular Belmonte, da cidade do mesmo nome localizada no litoral sul do estado, é de R$ 3 mil.

ENSAIO

Assista ao vídeo em que a Filarmônica 24 de Junho homenageia Tim Maia, tocando “Azul da cor do mar”, durante ensaio, realizado na sede da entidade, em Jeremoabo.

https://youtu.be/uIXlhwq9xy8

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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