O bacamarteiro de Santa Brígida

O bacamarteiro de Santa Brígida

José Cordeiro, chamado assim porque seu primeiro ofício era fazer cordas, se alistou no Grupamento de Bacamarteiros de Santa Brígida (BA), aos 64 anos. Para fazer parte do pelotão comprou a arma no distrito de Negras, município de Itaíba, em Pernambuco, a 164 km de distância. O bacamarte de madeira com cano de motocicleta emendado custou, à época, R$ 60.

José mostra o documento oficial do Grupo de Bacamarteiros. Foto: Paulo Oliveira
José mostra documento de Bacamarteiro. Foto: Paulo Oliveira

Depois de mandar fazer o uniforme de zuarte e adquirir bornal, chapéu de couro e cartucheira, Cordeiro ganhou a carteira com seu nome verdadeiro – José Demézio da Silva – e passou a integrar o grupo criado pelo Padrinho Pedro Batista, beato com fama de curar loucos, fazer milagres e responsável por uma comunidade que oferecia trabalho a quem precisava.

Quando as histórias do Padrinho se espalharam pelo Nordeste,  “um rebanho de seis pais de família” deixou o distrito de Negras, com mulheres e filhos, a caminho da terra prometida. Os poucos pertences dos imigrantes eram carregados em caçuás (cestos de vime, taquara ou cipó) por uma jumentinha.

A família Demézio da Silva chegou em Santa Brígida, em 1945. Encontrou resistência dos baianos que eram minoria desde a chegada de Pedro Batista e uma legião de pernambucanos, alagoanos, sergipanos e cearenses.

“Eles nos chamavam de “filho da pelada” e não deixavam a gente pegar água porque vendiam o que tiravam da fonte”.

O depoimento de José Cordeiro é repetido pelos moradores mais antigos que não esquecem como foram tratados nos primeiros tempos.

Muito antes de se transformar em bacamarteiro, José começou a trabalhar na roça do beato, apontado por seus seguidores como o responsável pela “primeira reforma agrária” feita no Brasil. Na verdade, o padrinho ganhou  terras do coronel João Sá, político poderoso na região. Depois, adquiriu mais tarefas do latifundiário  e, com a ajuda do Exército, distribuiu lotes para os romeiros.

Quem não tinha terra trabalhava na roça do beato,  local de difícil acesso:

“A gente tinha que atravessar a serra, seguir por uma estradinha cheia de lama porque chovia muito naquela época. No caminho, víamos as onças passarem de um lado para o outro” – recorda.

José Cordeiro também construiu casas e foi gari por 38 anos. Os serviços grosseiros (cortar mato, assentar paralelepípedos, carregar pedras), foram feitos por suas mãos. Casado com uma mulher 19 anos mais velha, teve três filhos.

“Um, Deus levou. Outro foi morar no Pará. A filha mora perto daqui em uma das casas que construí.”

DE COMO JOSÉ SE ACHOU

Consta que a tradição dos bacamarteiros surgiu na volta dos soldados após a Guerra do Paraguai (1864-1870). Os militares brasileiros ao passarem pelas igrejas faziam disparos para saudar e agradecer os santos por terem sobrevivido. Um dos armamentos mais comuns no século 19 eram os bacamartes, semelhantes ao clavinote holandês, uma arma de cano curto e boca larga, usada facilitar o municiamento.

O pernambucano José Cordeiro pagou R$ 60 pelo bacamarte que usa há dez anos. Foto: Paulo Oliveira
José pagou, há dez anos, R$ 60 pelo bacamarte. Foto: Paulo Oliveira

Logo, a prática ganhou conotação religiosa e surgiram pelotões de bacamarteiros em diversos estados nordestinos , principalmente, Pernambuco. No início, romeiros detonavam armas como pagamento de promessas feitas para recuperação de saúde e para saudar os santos padroeiros. Bastou juntar músicos e atiradores para o ritual virar folguedo, brincadeira.

Em determinadas regiões, os tiros são disparados enquanto casais dançam ao som de pífanos, zabumbas, prato e adufos (tipo de pandeiro de origem árabe). Dependendo da cidade, os bacamarteiros representam cangaceiros ou soldados.Em Cupira (PE), é feita uma linha de 20 ou mais atiradores que fazem disparos individuais por até uma hora.

Em Santa Brígida, o grupo surgiu nos anos 1950 para comemorar o final da obra da Igreja de São Pedro, construída pelo Padrinho para homenagear o santo xará. Só  mais tarde, José Cordeiro se alistou. E foi ali que se achou, como gosta de dizer. As apresentações em outras localidades, comos Brejo dos Padres, em Tacaratu (PE), o deixam satisfeito.

Limitados aos festejos religiosos, os ritos dos atiradores ganharam outras finalidades. Passaram a servir, por exemplo, como atração nas inaugurações políticas. Em março de 2014, o então governador da Bahia, Jaques Wagner, entregou um trecho de 13 km de estrada, entre o entroncamento da BR-110 e Santa Brígida. O governo decidiu a quantidade de tiros a ser dada e Wagner vestiu o uniforme do grupamento e posou para fotos, segurando uma arma.

Bacamarteiros passaram a ser chamados para inaugurar obras de políticos como o então governador Jaques Wagner, em 2014. Reprodução: Paulo Oliveira
Ex-governador inaugurou obras ao lado de bacamarteiros. Reprodução

PÓLVORA ALAGOANA

Acariciando o bacamarte com as mãos calejadas, José Cordeiro, conta que a pólvora é adquirida em Inhapi (AL). Ela é feita com carvão de mandioca, salitre e enxofre. Antes do disparo, é preciso pôr a pólvora pela boca da arma, usando uma colher, e comprimi-la com uma vareta de ferro. Em seguida, é colocada uma bucha de papel.

Dentre as disputas feitas pelos integrantes do grupamento está a de quem dá o tiro “mais forte”, o que José evita.

“Normalmente, cada um dá três disparos. Não sou de botar muita força no meu braço. Um dia, já estava vindo para casa quando escutei um tiro escandaloso, que abriu ao meio o bacamarte de um colega. Nunca me arranhei porque minhas cargas são maneirinhas. Também nunca dei tiro no pé”- revela.

José Cordeiro conta que o período mais movimentado para os bacamarteiros são as 48 horas entre o acender da fogueira de São Pedro e a procissão. No segundo dia, o grupamento se apresenta quatro vezes, de seis em seis horas, sendo a última à meia-noite.

Apesar de seu entusiasmo, o número de participantes do grupo está diminuindo a cada ano

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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