O enigma da tatuagem

O enigma da tatuagem

É hora da merenda na escola municipal da comunidade quilombola da Baixa do Quelé, em Jeremoabo, quando João Farias Filho passa com uma garrafa plástica com um líquido escurecido numa das mãos e um saco na outra. No braço, ele traz uma tatuagem enigmática: “SIAMUSA”. João causa um alvoroço entre a criançada que merenda debaixo do cajueiro, na área central da localidade. Um dos meninos pergunta o que ele carrega na garrafa. A resposta está na ponta da língua: “dipirona”, substância farmacológica usada para dor e febre. A criançada ri porque a fama de alcoólatra precede João. Não sabe que junto à bebida está misturada casca de pindaíba, indicada para dores no estômago e nos rins, dentre outras propriedades medicinais. A resposta, a princípio irônica, faz algum sentido.

O biscateiro e ex-funcionário público começou a beber com sete anos. A mãe o abandonou quando ele tinha três meses. O pai foi assassinado a facadas por um filho de criação em que bateu, quando voltava alcoolizado para casa, em 1973.

O menino foi morar com a avó e os tios Almir, o Bibi, e Rubens. Todas as noites era levado para cantar toadas em biroscas, em troca de moedas. Costumeiramente, João, também chamado de Doquinha, personagem de um desenho animado nordestino, voltava embriagado, carregado no colo dos tios, após ingerir doses de pinga. A avó brigava, mas a rotina não se alterava.

Nem a morte de Rubens por doença relacionada ao consumo excessivo de álcool, fez João parar de beber, embora detalhes do sofrimento do tio não lhe saiam da cabeça.

“Ele bebia muito e quase não comia. Às vezes, chupava limão e laranja para acompanhar a pinga. Um dia o intestino dele fechou. Depois que fecha não abre mais. De um dia para outro, desinchou. Quando desincha vai para a morte”.

Já Almir, que homenageou batizando dois de seus filhos (Almir e Almira), morreu na virada de 2015 para 2016. João não sabe de que doença.

SÓ NA CACHAÇA

Doquinha sempre encontra motivos e explicações para suas bebedeiras. Após separar-se da terceira mulher, Ivone Lima, se entregou de vez:

“Foram três anos só na cachaça”

Mesmo separado, continuou se encontrando com a ex-companheira três vezes por ano. No Natal, Ano Novo e Dia dos Namorados. Segundo João, ela, apesar de estar vivendo com outro homem, é que lhe procurava. Os encontros eram em outra cidade. Um dia, ele desistiu dela de vez.

A partir daí, morou com mais 16 mulheres, em períodos diferentes. O tempo de convivência variava de três meses a um ano, com exceção da parceira atual. Após tomar um gole de sua garrafinha, ele relata como foram alguns de seus relacionamentos.

“Em Jeremoabo, vivi com duas irmãs ao mesmo tempo. Cada noite eu dormia com uma. Saía para vender pneus e voltava com compras. Um dia, elas juntaram meio mundo de amigos para comer o que botei em casa. Aí não aceitei. As duas disseram que já conheciam as amigas antes de viverem comigo. Então falei: “Fique com elas”, saí e nunca mais voltei”

IVONe e MIÚDA MAIS 17

Das 19 mulheres, três o fizeram sofrer “por amor”. Lembra apenas do nome de Ivone e de Nete. Ele chama a mulher atual de Miúda. Começou o relacionamento, quando ela tinha 14 para 15 anos – atualmente tem 30. Lembra da magreza e da pequenez dela, que sumia no lençol da cama de casal. Decidiu permanecer junto quando a companheira ficou grávida. “Gosto de Miúda, mas não tenho paixão. Tenho mesmo é muito respeito” -, explica.

João diz que nunca foi rico. Que sempre gostou de farrear e pescar. À princípio, fazia isto nos dias de fogo, quando era vigilante da prefeitura de Monte Alegre, em Sergipe. Depois, foi cortado do emprego. Há um ano, aproveitando que o primo é o prefeito da cidade sergipana tentou voltar, mas só lhe ofereceram vaga de gari ou servente. Achou a proposta ruim e foi morar no povoado de Jeremoabo, após comprar a casa de uma prima a prestação. Ainda deve R$ 800.

Sobre a quantidade de mulheres, diz que isso é de família. O pai dele teve quatro.

“Lá em casa todo mundo é assim. É primo, é tio…Isso é de nascença, já vem no sangue”.

Com a relação a estranha tatuagem, evidentemente, foi feita num momento de bebedeira. Pretendia homenagear a filha Almira, 10 anos. Estava tão embriagado quanto o tatuador quando pediu para ele gravar em sua pele o apelido carinhoso da menina: “Sinhá Moça”. Saiu a palavra SIAMUSA, toda torta.

 

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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