Padre Cícero e o senhor Ogum

Padre Cícero e o senhor Ogum

A distância entre o Terreiro de Ogum, na Baixa da Lagoa, comunidade quilombola, e o centro de Jeremoabo (BA) é de 26 quilômetros por estrada de terra ou uma hora e dez minutos “de relógio”, como dizem os baianos. No caminho se avistam araras azuis. Ali, a caatinga é tão verde que muitos moradores acreditam estar diante da Mata Atlântica em pleno sertão.

O terreiro do rezador e pai de santo Abílio Pedro dos Santos, 73 anos,  surpreende tanto quanto o caminho que conduz até lá, onde o sincretismo religioso é levado ao extremo. No gongá (altar), a figura principal é uma das cinco imagens do Padrinho Padre Cícero. A primeira, Abílio comprou há tanto tempo que esqueceu quando. Só lembra que custou “um conto de réis”. Ao lado do padre estão fotos e imagens do Anjo Gabriel, de Cosme e Damião, de Iemanjá, de Nossa Senhora Aparecida, do Preto Velho, de Jesus Cristo e muitas outras.

Já o orixá mais importante do terreiro, o guia do rezador, é representado apenas por uma fotografia de Santo Antônio, que simboliza o “Senhor Ogum”. Associação bem diferente da que ocorre no restante do país, na qual o dono do ferro e do fogo equivale a São Jorge.

O começo desta religião que mistura os santos da igreja católica; orixás da umbanda; invisíveis e encantados – definidos pelo pai de santo como caboclos do tempo dos reis e dos escravos – aconteceu há 20 anos, quando Seu Abílio “começou a ser atacado”.

“Sabia que tinha um problema, sentia uma mordida que ia descendo pela cabeça. Durava uns dez minutos e desaparecia. Com o tempo, piorou e me vi só em Deus. Fui sofrendo falar com a rezadeira Antônia Maximiano dos Santos, em Jeremoabo. Ela chamou um encantado, rezou em mim e disse que era corrente (energia mediúnica)”, conta.

Antônia, que virou a mãe de santo de Abílio e cuja foto está no altar do terreiro da Baixa da Lagoa, foi taxativa:

“Tenho dois caminhos para você: ou você cuida de suas coisas ou então você morre em poucos tempos”.

Com medo da morte, Abílio fez as obrigações e iniciou a prática da religião. Também ganhou fama de bom rezador onde vive, um pequeno sítio com cinco casas na comunidade quilombola. A falta de transporte para o local, não impede que ele receba até três pessoas de fora para rezas e trabalho nas semanas de maior movimento.

Raízes de Abílio estão fincadas na Baixa da Lagoa. Foto: Paulo Oliveira
Raízes de Abílio estão fincadas na Baixa da Lagoa. Foto: Paulo Oliveira

PRECES E ‘BRINCADEIRAS’

Respeitado pelos vizinhos, Abílio costuma rezar quebranto e olhado e tratar de casos de embriaguez e problemas espirituais. Às vezes, além da prece, indica um remédio caseiro.

Se a pessoa, porém, não tem certeza do que lhe atormenta, há uma reza que é feita, logo depois dela se apresentar:

“Louvado seja, Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu vou rezar, vou benzer e Jesus Cristo vai curar. E o Divino Espírito Santo vai te proteger e te defender dos males, da perturbação e da condenação. O que tiver no corpo dessa criatura (cita o nome do aflito) Jesus Cristo vai chegar, fazendo consagrar, porque Deus tem força e tem poder. E a Virgem, Mãe do Céu, tem força para vencer”.

A frequência do centro aumenta quando ocorrem cerimônias que Abílio chama de “brincadeiras”. São elas: o fechamento de terreiro; a “abrição”, depois da Quaresma; a ceia de São Lázaro e a festa de Cosme e Damião.

A cerimônia de São Lázaro foi promessa feita quando uma das mulheres de Abílio – segundo os vizinhos ele tem três – passou a sofrer de um mal nas mãos.

“Nem tomar banho, ela tomava. Passou uns dois anos ou mais nesse sofrimento. Aí, eu falei para ela ter uma conversa com São Lázaro que é o protetor dessas coisas. Ela falou até que não tinha fé. Mandou que eu fizesse. Quando eu fiz, com três dias, graças a Deus, ela estava enxugando tudo, as mãos estavam bem melhor. Aí, prometi a São Lázaro que se ela se curasse daquele problema, eu faria a ceia dele” -, conta o rezador.

A festa de Cosme e Damião passou a ser realizada a pedido de outra pessoa.

padrinho santo

Abílio esclarece que desde rapazinho é devoto de Padre Cícero. Ele perdeu as contas de quanto tempo tem a estátua mais antiga, cuja pintura está descascada. Ele a mandou buscar em Juazeiro do Norte (CE), terra na qual nunca pisou. Desde então, nunca se desapartou de seu padroeiro.

O pai de santo conta ainda que os critérios para a escolha das fotos e das imagens no altar e no seu entorno são a devoção e a representação dos guias dele e dos frequentadores do terreiro.

Sobre o ritual de incorporação de orixás, ele explica que nem eles, nem os caboclos “entram nas pessoas”. Segundo Abílio, o médium sente “o corpo tremer e adormecer”. Em seguida, o orixá se posiciona ao lado e se manifesta, expressando-se pela “fala da gente”.

Para fazer trabalhos e rezas, Abílio não cobra. Ele costuma se contentar com o que os necessitados oferecem. Por causa disso, é taxado de tolo. Este ano, porém, abriu uma exceção. Procurado por três políticos interessados em uma ajuda para terem sucesso nas eleições, pediu um milheiro de blocos (tijolos) e madeiras para ampliar o terreiro. O rezador conta que os três foram eleitos, mas nenhum apareceu para pagar a dívida.

“Eles estão na minha lista”, diz em forma de cobrança.

UMBANDA E CALOMBRÉ

Atraída pela conversa, Josefa Maria de Jesus entra no terreiro e se apresenta como mulher de Abílio. Conta que desde criança fugia de casa para participar de Xangô – sessão de umbanda sem o uso de tambores, segundo ela. Aprendeu os ritos religiosos nesta época. Quando cresceu, Abílio começou a preparar as “correntes” para evitar que os espíritos e orixás “judiassem” dela.

Josefa se iniciou na umbanda, mas não quis se “batizar”. A filha de santo conta ainda que seu companheiro preparou muitos seguidores, mas vários deixam de cumprir as obrigações e saem sem dizer nada.

“Só quando precisam chamam os caboclos” -, ressalta.

Para Josefa, que é filha de Oxóssi, o nome de sua religião é umbanda, pois tem festas animadas com zabumba e gaita (instrumento parecido com pífano). Explica que se fosse ao som de tambores seria chamada de “calombré”

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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