Cordão poderoso

Cordão poderoso

“Encontrei o Cordão de São Francisco em quatro municípios do Nordeste brasileiro, mas em meus estudos localizei-o em todo o Brasil. No início século XVIII havia, na Vila de Cachoeira (BA), a Venerável Ordem dos Cordígeros da Penitência do Patriarca São Francisco de Assis, criada por pardos livres.

Um Capuchinho amigo contou-me que a devoção ao cordão de São Francisco existe desde o século XII, quando o Santo de Assis “ainda andava pelo mundo”. Diz-se que o cordão que ele usava na cintura e com o qual se açoitava “por disciplina” era tão poderoso para afastar o demônio e suas tentações, que São Domingos pedira-lhe de presente para que o protegesse das tentações do inimigo em viagem.

Tomás de Celano (século XIII) relata que um “Gualfredúcio (…) tinha consigo uma corda que São Francisco já tinha usado na cintura. Aconteceu que naquela cidade muitos homens e não poucas mulheres sofressem de várias doenças e febre. O homem de que falamos visitava a casa de cada um dos doentes, mergulhava a corda na água ou misturava alguns de seus fiapos dentro dela. Dava-a de beber aos pacientes e assim, no nome do Senhor, todos conseguiam a saúde” (I Cel. 64).

O cordão, que é de algodão, não pode ser feito por qualquer pessoa. É preciso muita fé e também saber “rezar os nós”. Cada nó do cordão tem o Creio-em-Deus-Padre, o Senhor-meu-Jesus-Cristo, Eu-pecador, Pai-nosso, Ave-Maria e Santa-Maria. Se o demônio chegar perto, ele dá uma rabanada com aquele cordão e o demônio afasta.

Aquelas palavras, que tem no cordão, faz ele ficar bento. Não é todo mundo que pode fazer o cordão. Só quem sabe fazer as orações e tiver confiança em Deus, pode fazer. Vai rezando e dando os nós devagarinho e quando termina, acocha o nó e faz o Nome-do-Pai. São sete nós. Eles servem para rebater o demônio”.

Em Tucano (BA), só pessoas de muito pouca fé ou com parentes descuidados são enterradas sem levar a cintura um cordão de São Francisco bem atado, embora a cada dia seja menor o número de “especialistas” no fazimento e reza do cordão.

Em Mucugê, Dona Maria Belo (foto principal) , benzedeira afamada do lugar, reza com o cordão da ferida ao quebranto. O mesmo se dá no Ceará  onde pessoas “preparadas” usam o cordão com o mesmo fim.”

HELENITA MONTE DE HOLANDA

Os usos do cordão de S. Francisco

Nasceu e cresceu numa típica família brasileira. Potiguar, morando na Bahia há vinte anos, é médica de formação e pesquisadora da cultura popular. Nos últimos 10 anos abandonou a sua especialidade em cardiologia e ultrassonografia vascular para atuar como médica da família na Bahia e no Rio Grande do Norte, onde passou a recolher histórias e saberes. Nessa jornada publicou cinco livros.”. No final de 2015 passou temporada no Amazonas recolhendo saberes indígenas.
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