Cruzes, capelas e estradas

Cruzes, capelas e estradas

“Valei-me, pai
Nessa hora de agonia
Chegou o dia da minha consumação
Minha alma teme
Pelo que tem que ser feito
Dai-me o direito
Dessa última oração”

A oração acima abre o documentário “Uma Cruz, uma História e uma Estrada”, realizado pelo pernambucano Wilson Freire, em 2007, e exibido pela TV Cultura. O filme, cuja narrativa é feita por cancioneiros e trovadores, mostra a antiga tradição, preservada até hoje, de se construir cruzes e capelas à beira de estradas para marcar os locais onde pessoas morreram em acidentes ou foram assassinadas.

No livro “Anubis e Outros Ensaios”, o antropólogo e historiador Câmara Cascudo revela que a tradição de homenagear os mortos à beira do caminho surgiu na Península Ibérica e foi trazida para o Brasil, principalmente, para a região Nordeste.

A construção desses monumentos fúnebres tem vários significados. Dentre eles, a de eternizar a dor e a perda e não permitir que as vítimas sejam esquecidas por seus entes queridos. Nestas capelas e cruzes costumam ser colocados flores, coroas, velas, imagens de santos e fotos dos mortos. Estes locais costumam receber mais visitas no Dia de Finados, quando são feitas orações e até entrega de ex-votos nos lugares onde os mortos são considerados santos.

“Ao ver na beira do caminho uma cruz
Lembrando o fim da vida de um cristão
Vejo comovido pela saudade
Que envolve densa meu coração
Ao saber que ali pereceu sem vida
Mais um de nossos irmãos”

As palavras do trovador Otávio Machado mostram que os pequenos templos cumprem também a função de sensibilizar mesmo quem não conhece os mortos e incentivar que seja feita uma oração para eles.

TRAGÉDIA

Em janeiro de 2015, Lucimar da Silva Vieira de Jesus, 33 anos, e sua filha Fátima, 3, morreram depois que motorista do Fiat em que viajavam despencou de uma altura de cinco metros, na curva da Ladeira do Aleixo, próximo ao povoado dos Brancos, em Jeremoabo (BA). Segundo amigos, Lucimar estaria levando a filha ao médico. Não há mureta de proteção na estrada. O motorista do carro sobreviveu.

Túmulo de mãe e filha mortas na Curva do Aleixo, na Estrada do Sertão, em Jeremoabo (BA). Foto: Paulo Oliveira
Carro em que mãe e filha viajavam despencou de uma altura de cinco metros, na BR- 235

Dias depois do acidente, foram fincadas duas cruzes com os nomes das vítimas e as datas de nascimento e de morte delas. Foi construída uma cobertura de alvenaria, o interior foi pintado de cor de rosa e colocaram flores e imagens de santos para homenagear a menina e a mãe. O local permanece conservado e limpo, 21 meses após o acidente.

Na entrada para Jeremoabo, diante da Serra do Cavalheiro, existe uma cruz, uma lápide e uma capela. Na lápide e nos braços da cruz foram depositadas várias pedras. Elas representam as orações feitas por quem passa pelo local. Em outro livro, “Religião do Povo”, Cascudo explica que no “rústico cenotáfio (túmulo fúnebre cujo corpo não jaz ali) são depositadas as “oferendas espirituais”. Diz ainda que esta prática, segundo uma pesquisadora irlandesa, provavelmente, é adotada em todo o mundo.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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