Sementes de esperança

Sementes de esperança

Entre 2000 e 2010, 383.472 pessoas migraram do interior baiano para as grandes cidades. Jovens, entre 16 e 29 anos, corresponderam a 47% dos migrantes. O fenômeno de envelhecimento dos trabalhadores rurais da Bahia preocupa as autoridades, ainda mais que o estado tem a maior população de pequenos agricultores do país – cerca de 4 milhões.

Mesmo diante deste quadro, é possível ter esperanças na solução do problema, a partir do exemplo de um grupo de jovens – três técnicos agrícolas, uma estudante e uma doceira – da Comunidade de Várzea Grande, a 23 km do centro de Jeremoabo (BA). Eles se uniram com a finalidade de produzir doces e preservar a caatinga.

A ideia surgiu quando uma empresa de São Paulo parou de negociar com a comunidade a aquisição de umbu para exportação. Foi aí que Alessandro dos Santos Gonçalves, 22, Éverton Leite, 22, André Luís, 24, Ailma Gonçalves, 28, e Ana Maria Pereira Gonçalves, 33, viram a oportunidade de criar na Associação Comunitária dos Produtores Rurais de Várzea Grande, um núcleo para preservar as árvores da caatinga e produzir bolos e sorvetes com frutas nativas.

O mentor do projeto, Alessandro, começou a arregimentar famílias em abril deste ano. Dos 64 produtores da associação, convenceu 20 a participar do projeto.

“Tem gente que diz que nossa ideia não vai dar certo, mas isso nos dá força para irmos em frente”, relata Ailma.

O grupo, inicialmente, colheu umbu, acerola, araçá azedinho, pitomba e araticum para produzir doces diversos.  Alessandro explica que a maior novidade é o fruto do araticunzeiro, árvore originária do cerrado com excelente adaptação à caatinga.  Ela pode atingir oito metros de altura e frutifica entre novembro e abril. Os frutos pesam até dois quilos, mas na região atingem, no máximo, meio quilo. Sua polpa adocicada é rica em ferro, potássio, cálcio, vitaminas A, B1, B2 e C.

Cerca de 20 famílias moram no povoado de Várzea Grande. Foto: Paulo Oliveira
Vinte famílias moram no povoado. Foto: Paulo Oliveira

É preciso ter paciência para cultivar o araticum. Suas sementes levam em torno de 300 dias para germinar. Na culinária, a fruta é usada para produção de geleias, sucos, licores, bolos, sorvetes e doces. Folhas e sementes do araticunzeiro são indicados para conter desarranjo intestinal e no tratamento de úlceras, cólicas e reumatismo. A demora na germinação tem feito com que a árvore seja alvo de desmatadores.

Preocupado com as questões ecológicas e de preservação, o grupo definiu suas prioridades. Elas incluem a produção de mudas, o trabalho de conscientização da comunidade, a limpeza no entorno das árvores para desenvolver melhor os frutos e o aumento da área produtiva, a prática da agrocaatinga (ou caatingamento) para a criação de pomares de frutas nativas – por enquanto eles utilizam os quintais de casas de Várzea Grande.

Outras metas são a inovação de receitas e a criação de rótulos e embalagens.

Os primeiros doces produzidos foram o de palma (cactos mais usado como alimento para o gado e, no passado, em períodos de seca intensa até para os humanos), umbu bom (doce da fruta com açúcar, parecido com uma bananada), bolo de araticum, bolo de acerola e mousse e sorvete de umbu com açaí. Os produtos, por enquanto, são vendidos em festas, reuniões escolares, jogos de futebol na comunidade e eventos de pequenos produtores em outras cidades. Os potes de doce custam R$ 2; pedaços de bolo, dependendo da quantidade de recheio, entre R$ 2 e R$ 3; e os sorvetes, a R$ 1, o copo.

RECEITAS INOVADORAS

A participação da tia de Alessandro, Ana Maria, é fundamental para o grupo. Ela é doceira e confeiteira e suas inovações garantem a freguesia.

Ana Maria Gonçalves prepara o mousse de umbu com açaí sob olhar de Dona Otacília, que colhe os frutos e participa do processo de preparação da polpa. Foto: Paulo Oliveira
Ana prepara mousse de umbu com açaí. Foto: Paulo Oliveira

“Quando estava fazendo o bolo de araticum, o recheio inicial ia ser de brigadeiro, mas fiquei com medo de o chocolate tirar o gosto da fruta. Decidi usar o próprio araticum para rechear. O cheiro do bolo é muito bom. Todos nós queríamos provar, enquanto eu o preparava. Comemos duas, três vezes, antes de colocar à venda. Foi um sucesso”, conta Ana, que agora desenvolve o Nego Palma (uma espécie de Umbu Bom), doce de banana com palma e o bolo de murici.

As polpas que sobraram da última safra são poucas e foram guardadas em geladeiras e freezers na casa dos empreendedores. As sementes também estão guardadas nas moradias até um viveiro comunitário construído.

Os novos empreendedores já definiram a marca que utilizarão em seus produtos. Se chamará Nativas Nordestinas e está em processo de registro. A esperança de sucesso no empreendimento é bem real, ainda mais com a ajuda de órgãos públicos e organizações não governamentais. Um deles é a Superintendência de Economia Solidária (Sesol), da secretária estadual de Trabalho, Renda, Emprego e Esporte. A Sesol articula parcerias para apoiar a melhoria de canais de comercialização, o assessoramento técnico e gerencial de empreendimentos solidários e viabiliza o acesso de linhas de financiamento apropriados para estimular cooperativismo de crédito e bancos comunitários.

Graças a Sesol, o grupo tem participado de encontros com cooperativas bem-sucedidas de outras cidades do sertão. A Superintendência calculou que para a cooperativa ir adiante é preciso investir R$ 50 mil reais. Os técnicos agrícolas e seus parceiros pretendem obter financiamento no Banco do Nordeste.

Os cálculos detalhados mostram que um bolo inteiro, com custo de R$ 27 reais, precisa ser vendido por pelo menos R$ 35 para dar lucro.

CISTERNAS

Outra entidade que incentiva o projeto é a Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (Arcas), com atuação no Nordeste da Bahia. Nesta região estão 26 municípios com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M). A Arcas surgiu por iniciativa da pastoral rural da diocese de Paulo Afonso (BA) para fazer um trabalho voltado à convivência com o semiárido e fortalecer as atividades agropecuárias de maneira sustentável e preservacionista.

A cisterna tem 200 m² e capacidade para 52 mil litros de água. Foto: Paulo Oliveira
Cisterna armazena 52 mil litros de água. Foto: Paulo Oliveira

Através do programa “Uma Terra e Duas Águas”, duas cisternas calçadão, com capacidade para 52 mil litros de água, cada, foram instaladas nas áreas de trabalho e moradia do grupo – no total são sete em Várzea Grande. A área das cisternas é de 200 m². Trezentos milímetros de chuva são suficientes para enche-las. O calçadão de cimento serve ainda para secagem de grãos.

A água é utilizada para irrigar quintais produtivos e proporcionar o plantio de árvores frutíferas, hortaliças e plantas medicinais, além da criação de animais. O programa é tocado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), rede formada por três mil associações, incluindo sindicatos rurais, cooperativas, ONGs e Oscips.

A ASA instalou 90.251 tecnologias para produção de alimentos desde o início dos anos 2000 até 14 de outubro deste ano. Além disso, implantou 588.935 cisternas de água para consumo humano no programa “Um Milhão de Cisternas”. Há uma série de requisitos para a obtenção de cisternas. A única contrapartida da comunidade é a mão de obra. Os pedreiros que constroem os equipamentos são qualificados para o trabalho.

Alessandro Gonçalves mostra a parte da palma (raquete menor) é usada para fazer o doce. Foto: Paulo Oliveira
A raquete menor da palma é usada no doce. Foto: Paulo Oliveira.

“Temos certeza que nosso trabalho dará muitos frutos”, prevê Alessandro.

“O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a matlotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticum maduro no cerrado”

Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas

Aprenda a fazer mouse de embu com açaí

Como construir uma cisterna calçadão

O vídeo sobre a cisterna foi reproduzido do site da  Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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