A motocicleta que deu cria

A motocicleta que deu cria

No ponto de mototaxistas em frente à Câmara Municipal de Jeremoabo, no sertão da Bahia, as conversas, na semana seguinte às eleições para prefeito e vereadores, giram em torno de um assunto: quem mais ganhou com as apostas feitas durante o período eleitoral. Ali, se reproduz o que acontece na cidade, incluindo os distritos e povoados mais afastados. Isto porque há mais de 50 anos, aposta-se em tudo que diz respeito aos candidatos: Quem vai ganhar? Qual será a diferença de votos entre dois adversários? Quem será o vereador mais votado? Qual a quantidade de votos que determinado candidato terá em uma urna? E no que mais a imaginação permitir.

Quem pensa que as apostas são pequenos objetos e uns trocados se engana. Este ano, o maior vencedor das eleições foi um dos filhos da prefeita Anabel de Sá Lima Carvalho, a Anabel de Tista, do PSD. Corre pela cidade que o rapaz ganhou dois caminhões carregados de gado – os veículos e os bichos -, um trator e um Saveiro Cross, avaliados em cerca de R$ 300 mil. Já o maior prejudicato, teria sido um policial que perdeu mais de 50 mil, apostando no candidato a prefeito que perdeu por 1.006 votos.

Os moradores da cidade garantem que ninguém faz como em Mairi (BA), onde há quatro anos foi anunciado pelo Jornal da Metrópole, de Salvador, que as apostas eram registradas em cartório como um modo de formalizar o acordo e evitar que após as eleições, as dívidas não fossem pagas.

Seu Nel, agricultor de Jeremoabo (BA)
Seu Nel ganhou um potro, caixa de cerveja e R$ 1.000

“Aqui não tem nada disso. O cabra chora e a peste, mas paga” – diz o agricultor Nel, que ganhou mil reais, um potro e uma caixa de cerveja.

Este ano, as eleições tiveram um componente a mais. Anabel de Tista teve a candidatura impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em setembro. Alguns apostadores ainda tentaram alegar que o pagamento da aposta estaria condicionado a posse dela, o que só será decidido pelo tribunal nos próximos meses. Os números, porém, falaram mais forte. A aposta era em quem teria mais votos e ela obteve 10.734 contra 9.728 de Derisvaldo José dos Santos, o Deri da Paloma, derrotado pela terceira vez consecutiva.

Deri, aliás, está sendo chamado de “o homem que se arrombou na política”. Segundo moradores, o sergipano se instalou na cidade e enriqueceu vendendo gasolina. Chegou a ter um posto e seis caminhões. Devido à insistência de ser prefeito, perdeu a maioria dos veículos e teve que dividir a sociedade do posto de combustíveis.

“Em 80 anos, nunca vi ninguém de fora ganhar as eleições em Jeremoabo”, afirma o aposentado José dos Santos.

PERDAS E GANHOS

O mototaxista Nino não tem vergonha de dizer que foi um dos apostadores que se deu mal. Ele acreditava que Deri venceria. Ficou sem um potro, avaliado em R$ 2.500, e R$ 200. Admite que estava confiante na vitória porque seu oponente lhe deu 1.000 votos de vantagem.

O dinheiro vivo foi embora porque ele acreditou que Didi da Padaria teria mais votos que Bino na disputa para vereador. Dessa vez foi derrotado não por seis votos, mas por 49.

Do lado dos vencedores, está o motorista José Romildo:

“Não gosto de apostar, fui desafiado em minha casa. Tenho um Honda 94, que gosto muito, não deixo nem meus filhos pegarem nela. Esse vizinho me provocou e disse que apostaria a motocicleta dele contra a minha. Acabei topando. Na segunda-feira, depois das eleições, ele levou o documento e uma chave reserva da moto e me entregou. Disse que ia comprar outra moto e pediu para fazer a entrega da que perdeu na sexta-feira. Aceitei. Afinal de contas, minha moto pariu outra” – conta, em tom de brincadeira.

José levou ainda R$ 500 reais e um relógio dourado, avaliado em R$ 340, de outros opositores. Ele contou que podia ter ganho mais. A aposta em dinheiro era de R$ 1.000. A mulher e a mãe do seu oponente chegaram a ir à casa de José para pedir a anulação da jogatina. O motorista procurou o conhecido e sugeriu que deixassem para lá. Ele não concordou, mas na véspera do pleito pediu a redução da aposta.

Nem só vitórias teve José Romildo. Ele contabilizou uma perda de R$ 100 porque cravou que o terceiro candidato a prefeito, José Santana Leão, PDT, teria 800 votos, mas ele só recebeu 230.

“Dioré perdeu R$ 50 mil”.

“Em Santana, um homem perdeu 100 tarefas de terra”.

“O genro da Terezinha perdeu 100 cabeças de boi, vai ter que trabalhar muitos anos para ter esse gado de volta”.

“Em um povoado lá para os lados dos Brancos, um homem perdeu os bichos que criava, os móveis, um trator. Só ficou com a casa”.

“Teve gente que pegou dinheiro emprestado a juros pelos ciganos. Perdeu e agora ainda está devendo”.

As histórias são muitas. E só são interrompidas quando Seu José dos Santos decreta :

“Na política você ‘quebra’ ou fica doido”

Zoeira eleitoral no sertão

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