A alma do sertão

A alma do sertão

Escrever sobre o Sertão é entrar num mundo particular de boas lembranças. Me lembra cadeiras na calçada para reunir amigos, no final de tarde e de lá enxergar o sol se pondo na serra ou a chuva que se formava embalada pelos relâmpagos no serrote que se avistava. A calçada me faz recordar meu pai sentado na cadeira de balanço falando alto com um ou outro que passava por ali.

Falar de calçada me lembra de dias chuvosos, com água debaixo da ponte e reunindo um montão de meninos que enfrentavam o medo e pulavam para nadar nas águas barrentas. Me faz recordar do barquinho de papel feito com folha retirada do caderno para as brincadeiras depois do banho de bica em bica. Dos dedos engelhados pelo frio e dos lábios roxos batendo sem parar. O inverno me retorna a veredas com plantas cheias de orvalho molhando as canelas. Rememora flores enfeitando as portas das casas no dia primeiro de maio anunciando o início do último mês da quadra chuvosa. Era tempo também da coroação de Nossa Senhora, festa ensaiada por crianças vestidas de anjo.

Falar do Sertão me leva de volta à praça cheia de casais nas noites de domingo após a missa na Igreja matriz. Era ali que começavam os namoros. Alguns por toda uma vida, outros infinitos enquanto duraram. A celebração me faz recordar da Festa da Padroeira em agosto, dos vestidos novos, dos sapatos e meia em folha para a estreia na última novena. Das tábuas de pirulito, das rodelas de rosca, das palmas, dos k-sucos vermelho, amarelo e verde.

A Festa de Agosto me traz à memória os ventos de fins d’água que anunciavam as férias, as festas juninas, quadrilhas, brincadeiras ao redor das fogueiras. A cidade ficava iluminada pela luz delas que queimavam por quase toda à noite. De manhã era acordar cedo para verificar as cinzas que ainda teimavam em proteger uma ou outra brasa acesa.

Os ventos que sopram no Sertão me transportam para o calor de outubro e novembro, antes do Natal, que era a festa mais bonita de todas. A multidão esperando a Missa do Galo, passeando de lá para cá, olhando as lapinhas feitas com esmero na igreja e na casa próximo à matriz. As crianças teimando em ficar acordadas deitadas no chão da igreja e as mães cedendo o colo, mais uma vez, para o descanso antes de voltar para casa.

Falar de Natal me lembra Ano Novo com os abraços de pai, de mãe, dos irmãos, dos amigos. Me lembra, sobretudo, de gente, pois é de gente que se faz a alma do Sertão.

Tania Alves Contributor

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