Lampião e a morte dos sete soldados

Lampião e a morte dos sete soldados

Do lado esquerdo, a prefeitura; do direito, a antiga cadeia pública onde Lampião prendeu soldados e, depois, tirou-os para matar. O prédio de 1924 foi obra do intendente coronel Vicente Lino da Costa. E em sua calçada foi derramado o sangue do pessoal da volante.

Na história de Queimadas está registrado que o rei do cangaço poupou um “macaco” no mesmo dia em que executou o restante do destacamento (sete soldados). Ele trocou a vida do sargento Evaristo por uma joia de ouro da dona de um restaurante da cidade, dona Santinha.

Lampião arrastava o policial pela cidade quando viu a comerciante com seu colar. Ela lhe deu a joia de presente. E o cangaceiro, em troca, disse que dona Santinha tinha direito a um pedido.

Evaristo frequentava a mesma igreja batista que a comerciante. Santinha, então, pediu para o cangaceiro poupar a vida do evangélico. Consta que Lampião disse que não costumava deixar soldado vivo, mas que abriria uma exceção porque tinha palavra.

Após a matança dos outros “macacos”, Lampião organizou um forró na cidade. Teria dado ordens para seus homens não abusarem das mulheres “honestas”, liberando sexo apenas com as “mulheres de ponta de rua”.

Durante a festa, o bando fugiu com o dinheiro que exigiu de empresários e políticos para não saquear a cidade.

 Eram sete soldados da volante. Uns valentes, outros nem tanto – até porque, diante da morte, pouca coisa resiste.

Tinham como sobrenome Oliveira, Souza e Silva. Coube a eles o mesmo destino, no dia 22 dezembro de 1929, quando Lampião e seu bando invadiram a cidade: foram mortos com tiros na nuca e sangrados, diante do quartel, que também servia de prisão.

“Uns imploraram para não morrer quando foram retirados do quartel. Outros desafiaram Lampião e Volta Seca para duelar com eles em igualdade de condições e decidir quem era mais homem”, conta o professor de história e gestor municipal de Cultura, Robson Bezerra.

Para a PM baiana, os mortos são heróis. No município onde fatos históricos costumam ser apagados – as marcas de tiros disparados contra os soldados nas paredes do quartel-cadeia foram cobertas com cimento –, oficiais homenagearam os volantes em 2014.

Colocaram uma placa no local do crime e realizaram uma cerimônia no cemitério municipal. Um jazigo foi restaurado. Ganhou até placa com o nome dos soldados chacinados. Só que apenas dois dos sete heróis da PM foram enterrados ali – eles eram irmãos.

Com a ajuda de Lúcio Coveiro, há 19 anos no ofício de sepultar gente e construir carneiros e mausoléus, é possível localizar o lugar onde cada um está.

“Uma das sepulturas é bem antiga, arredondada, foi feita com cal e bosta de vaca para dar liga. Ali, nem eu posso mexer”, diz.

Marcas da matança

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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