Imagens severinas

Imagens severinas

O rosto curtido do sol, as rugas bem marcadas, o olhar arisco. O boné com aba virada para trás é sua marca registrada. Olhando assim, no meio do sol carioca, Severino Silva parece um boiadeiro nordestino na cidade grande. A fala é mansa, baixinha, e a voz só se eleva para falar “das coisas boas de lá”. “Lá” é o Nordeste, o sertão, onde se sente mais à vontade, onde pode voltar a ser criança e brincar com a luz da lua perto de casas de pau a pique ou com a penumbra iluminada na chama de um toco de vela na mão de um romeiro em uma procissão. O Nordeste de Severino é grande, muito além de Pirpirituba, no interior da Paraíba, onde nasceu e de onde saiu ainda menino. É pelas estradas que ele segue para as pequenas cidades e chega de qualquer jeito: pode ser de ônibus, de carona ou a pé. Na inseparável mochila, disputam espaço as duas câmeras, as lentes, uma rede de selva e um saco de dormir. Às vezes, as roupas não conseguem ganhar nem um cantinho, ele confessa em meio a um sorriso.  E diz que pede pouso em qualquer lugar para poder amarrar sua rede em árvores ou se abancar em um canto de alpendre.

O Antônio do meio do nome, ele não usa. Os óculos também só aparecem em algumas ocasiões, deixando à mostra os olhos castanhos de uma cor que lembra o chão batido. Para quem o conhece na lida diária do jornalismo carioca, ele sempre está de bom humor, seja durante uma operação policial em uma favela ou na alvorada da festa de São Jorge. É na correria da cidade grande, entre uma pauta e outra, que ele conta um pouco da própria história, das exposições no exterior, do prazer de documentar manifestações populares no sertão, do gosto do “feijão-verde carregado” que a mãe fazia quando ele era pequeno e da paixão pela fotografia.

Nascido em 1958, ele saiu da Paraíba com 11 anos, com mãe, avó e uma irmã. No Rio, trabalhou em outros ofícios antes de entrar como contínuo no jornal O Globo e foi caminhando para chegar à fotografia, passando pela fotomecânica e chegando aos jornais de bairro. Rodou em outros jornais, como O Fluminense, O Povo, A Notícia, O Dia. Ganhou prêmios como Tim Lopes, Líbero Badaró, Nikon e Interpress. Fez a exposição Fé, Luz e Sombra, no Rio. Em maio, esteve em Dresden, na Alemanha, para a exposição Rio é uma cidade quente – Arquitetura da sobrevivência. Casado com uma carioca, pai de três filhos. Um deles já se encantou com a fotografia.

Severino é um apaixonado por histórias. Gostar de ouvir casos, lembranças de velhos sertanejos e de mostrar outros cantos pouco visitados por turistas no Nordeste.

Você saiu muito jovem do sertão da Paraíba, qual a imagem que ainda povoa sua memória do tempo de criança?

Severino Silva  – Apesar de eu ter saído menino, lembro-me de muita coisa. Coisas boas. Uma delas é que existem muita solidariedade e respeito com o outro. Eu acho que isto é o que os mantém vivos. Além de serem movidos pela fé, pois sempre acreditam em dias melhores. A solidariedade é muito forte. Pelo menos na casa onde eu cresci e fiquei uma parte da minha vida. Se um vizinho ou alguém não tivesse uma coisa para comer, o outro tinha. Se um matasse uma galinha, dava um pedaço para o vizinho. Sempre dividia. Na época da colheita, era quase um mutirão, e todo mundo se ajudava. Existia essa solidariedade. Outra coisa era poder dormir de porta aberta. Você chegava da rua e a porta dos outros estava aberta. E você falava: ‘Ô, de casa’. E ele respondia: ‘Ô, de fora’. Nem sabia quem era, mas sabia que alguém havia chegado e até se anunciado. Então, tudo bem, e você permitia que a pessoa entrasse na sua casa. Isso são coisas que eu não vejo aqui. Até em alguma cidadezinha do interior no Rio, isso fica difícil. Não tem isso, não.

 Você já voltou para sua cidade?

Eu volto, mas não para o lugar onde eu nasci. Estou sempre voltando para o Nordeste, para fotografar, porque há belos lugares para serem fotografados. Geralmente, quando vou, eu vou bem para o sertão. Para o lugar aonde ninguém quer ir. Geralmente no turismo, as pessoas vão para lugares bonitos, os mesmos lugares. Talvez, por falta de conhecimento, elas nem imaginam que em outro lado haja boniteza. Existe muita coisa bonita, histórias maravilhosas. Há aquelas pessoas mais velhas e que, também, estão sempre com um sorriso, sempre dispostas a receber você.

 Que lugares são esses?

Olha, existe um lugar que fica perto da divisa de Minas com a Bahia, chamado Pedra de Maria da Cruz. É muito legal. E, na Bahia, bem no interior, tem Santa Brígida, e é fantástico. Na Paraíba, há vários lugares

 O que o seu olhar busca nesses lugares?

Primeiro, eu procuro saber das histórias para, depois, tentar fazer a minha foto, e isso tem funcionado bem. Por causa disso, fiz muitas amizades, e a pessoa, às vezes, liga e me diz se está chovendo ou não. Na semana passada, me ligaram para dizer que, no interior da Paraíba, em um lugar chamado Pedra Branca, está seco. Uma das coisas com que eles estão preocupados é a transposição do rio São Francisco, que não foi realizada, e isso deixa muita gente preocupada.

 O que você fotografa no Nordeste?

Tem a Missa do Vaqueiro. O Raimundo Jacó, que era primo de Luiz Gonzaga, foi assassinado, e o Gonzaga fez uma música, e tem missa todo ano no local onde foi encontrado o corpo. Serrita, no sertão de Pernambuco, é um lugar que tem poesia, é maravilhoso. Há uma festa incrível, que atrai muita gente. Eu fui há dois anos e, puxa vida, havia umas dez mil pessoas, gente de vários lugares do Nordeste.

 Eu vi fotos da Miissa do Vaqueiro, e você busca um jogo de sombras, de luz, um amanhecer, um entardecer, lindo…

Onde eu nasci, não havia luz. Minha família era muito humilde, e, então, meu divertimento e de muitas crianças da mesma idade era ficar em casa de noite, brincando com a luz da lua. Eu, por exemplo, ficava atrás da minha casa, onde tinha uma plantação de bananeiras. Eu ficava vendo as folhas de bananeira balançando com o vento, parecia uma onda. Eu ficava fascinado, olhando as estrelas. A gente não tinha luz, e eu achava lindo aquilo.

 Essa luz você transporta para sua fotografia?

 Eu tento, né? Quando eu era pequeno, vivia na minha casa de pau a pique, com paredes de barro e coberta com palha. Com o tempo, a palha vai ficando velha e aparecem uns furos. Então, quando chovia, havia goteira. Quando não chovia, a luz entrava. Eu via minha vó pegar umas folhas de mato para varrer o chão, e, aí, subia aquela poeirinha e, com a luz entrando, fazia uns canais, e eu achava lindo. Minha vó pegava uma tigela para jogar água e baixar a poeira, e eu pedia para ela não jogar porque eu achava muito lindo a poeirinha subindo iluminada. Então, eu acho que meu olho procura uma luz diferente.

 Fale de cinco lugares onde você fotografou cenas lindas

Cinco? Fica até difícil, porque tem tanta coisa bonita. Tem a Missa do Vaqueiro, que é linda; a Semana Santa, em Santa Brígida; o Padre Cícero, que é fantástico. Você fica ali, parado, só ouvindo as pessoas conversando. Aquilo é uma faculdade da vida. Você aprende muita coisa… quem tem humildade para ouvir. Só o fato de você sentar e conversar com aquelas pessoas já é fantástico. Há, também, São Francisco de Canindé (interior do Ceará), para onde fui quando o papa Francisco foi nomeado. Eu fiquei ouvindo histórias no centro de apoio aos romeiros. Nossa, é uma maravilha. Eu sempre digo, as pessoas falam de paz, sempre agradecendo a Deus. Isto é fantástico.

 Você se considera um guardião dessas imagens, desses registros?

Sim. Eu acho que o fotógrafo, de uma maneira geral, não deixa de ser, né? Ele está sempre procurando fazer o registro. Sabe, existe um baiano chamado Pepe (Fiorentino) que tem um trabalho maravilhoso. Há outro também, João Machado, trabalho lindíssimo. Lá fora, as pessoas conhecem, dão valor. Há uns dez anos ou mais, eu fui à Dinamarca, participar de uma exposição, e os conheci. Lá, as pessoas vão olhar seu trabalho, interagem, ficam admirando, querem saber como foi feito. Aqui, a gente não tem esse reconhecimento. Um cara com nome de Severino Silva, aqui, quem vai querer dar esse cartaz todo, bancar exposição? São coisas assim que eu vejo. Mas, quando vejo alguém meio para baixo, eu falo: ‘não desanima, não. Se você desanimar, está fazendo o jogo deles. Você tem que reagir, tem que chegar e mostrar que sabe fazer. Você tem que ver isso como incentivo. Tem que mostrar para todo mundo que você tem capacidade, você não vai se deixar influenciar pelos outros’. Porque, hoje, é difícil, sabe, é aquela história: cair, todos nós caímos, levantar é que é difícil. Se não tiver uma mão para ajudar… Eu sempre digo: ‘não fica de cabeça baixa, levanta a cabeça e corre atrás’.

 Você fez uma exposição no Rio recentemente…

Fiz uma exposição que ficou na Feira de São Cristóvão e foi muito legal, porque, além de conhecer as histórias, eu descobri outras coisas com nordestinos que iam lá e conversavam. Descobri que algumas pessoas que foram à exposição eram de minha cidade. Os nordestinos sempre se encontram, aqui (Rio) e em São Paulo. Muitas cidades foram construídas por nordestinos. Claro que, também, existe um preconceito. Não adianta dizer que não. Há lugares que, quando uma coisa é feita de um jeito ruim, dizem que está “parecendo paraíba”. E isso, sem conhecer a Paraíba, sem conhecer o Nordeste, as coisas bonitas. É só procurar saber das histórias dos nordestinos, dos poetas e ver que existem muitos nordestinos importantes.

 O Nordeste está muito diferente?

Alguns meses atrás, eu estava conversando com um amigo sobre o que se está perdendo por lá. Primeiro, foi a internet chegando. A gente não vê mais criança ou jovem daquela cidade pequena querer ouvir a história do avô, do bisavô. Eles querem ficar na internet ou ir para uma cidade maior. Antes, essas pessoas ficavam ali, fazendo poesia, cordel. Muita coisa produzida se perdeu, não ficou nada escrito.

 Eu lembro da minha avó contando histórias de noite, na calçada com as crianças sentadas na roda.

Nossa, isso é lindo e hoje não existe mais. Se não tiver alguém para passar adiante, para guardar, as coisas se perdem. No Nordeste, há o mestre Azulão, Suassuna. Estes caras escreveram tanta beleza, muita coisa maravilhosa. Eles são conhecidos, mas, outros, ninguém conhece. Tenho um amigo que me pergunta o que eu vou fazer com tanta foto que faço e deixo na gaveta. Eu falo que está tudo guardado, quem sabe um dia serve para alguma coisa. Eu vou fazendo. Há coisas que fiz que mostram mudanças. Infelizmente, um desequilíbrio da natureza, e o homem é o culpado disso. As queimadas, você vê que fazem muitas queimadas para criar o gado em alguns lugares no São Francisco, e os ribeirinhos não têm mais como pescar. Só desespero, porque o rio está secando, e é aquela tristeza: onde havia embarcações, agora as pessoas atravessam a pé. É uma tristeza para o nordestino e para todo mundo, os afluentes do rio estão secando a cada ano.

 O que você pensa quando vê isso?

Eu vejo destruição. Penso nos filhos, nos netos, nas crianças. As queimadas, desmatamento e a ganância. Muitos fazem porque sabem o que estão fazendo. Outros fazem até sem saber e outros, para sobreviver, porque são obrigados a fazer. Não há muito lugar para trabalhar, infelizmente. No Nordeste, sempre houve seca, mas a gente vê  pouca coisa sendo feita pelo nordestino. Mas, mesmo nos lugares secos, ainda assim, existe alegria no rosto das pessoas, a esperança no brilho dos olhos. Existem pessoas que são sofredoras, trabalham, sabem que têm de derramar muito suor e lágrimas, mas não perdem a esperança. Estão sempre com um sorriso, esperando dias melhores.

 Do que você sente falta?

Eu gosto daquele forró tradicional, e aqui não tem. Sabe, um forró pé de serra, com sanfona, triângulo, zabumba. Quando passo por alguns lugares no Nordeste, eu vejo muita música eletrônica. E onde está o forró que eu gosto? Eu fui fazer a Procissão do Fogaréu, que é lindíssima, durante a Semana Santa, lá em Pirenópolis, em Goiás. Depois, fui com o pessoal em um lugar que tocou forró a noite toda. Sem briga, numa boa. Forró do bom.

Onde você mais encontra, no Rio, um pedaço do Nordeste?

Tem a feira de São Cristóvão. Às vezes, vou à feira fotografar, ouvir histórias, conversar. Eu tenho muitos amigos que trabalham na feira e passo para dar um oi e conversar.

Qual a comida que você não abre mão, mesmo quando está no Sul?

Um baião de dois, né? Todo nordestino gosta de um baião de dois, de uma buchada. Não tem jeito.

 E a rapadura?

Sempre. Nordestino que não gosta de rapadura não é nordestino. Tem, ainda, banana com farinha, o feijão-verde, fazendo bolinho, e pimenta. Puxa, para falar de comida tem o feijão, que é o principal. Adoro feijão de corda com tudo aquilo dentro: quiabo, maxixe, que a gente chama de feijão carregado. Minha mãe fazia aquele feijão gostoso, e, quando ela estava cozinhando, a gente sentia o cheiro.

 Qual o próximo trabalho que você pretende realizar?

Quando vim para o Rio, antes de fotografar, eu fiz de tudo. Só não fui guia de cego, porque não foi preciso. Capinei, trabalhei em obra, carreguei saco de cimento, trabalhei na feira, de office boy. O que era trabalho, eu fazia para ganhar dinheiro. Como fotógrafo, trabalho há uns 30 anos. E falo que vou acabar virando andarilho. Quero viajar, ouvir histórias, fotografar. Às vezes, quando viajo, vou de carona. Uma vez, fui a Juazeiro de pau de arara. É bom a gente parar para ouvir histórias. Hoje, a gente vive numa correria danada. Na cidade grande, você está sempre empenhado em resolver alguma coisa, então, praticamente, não consegue descansar. Tem que pagar isso, pagar aquilo… Então, fazer um trabalho ouvindo as pessoas é muito bom. No Nordeste, eu fui a um lugar, estava fotografando e fiz a foto de um rapaz que estava passando. Depois que eu fiz a foto, ele veio e me disse ‘muito obrigado’. Você vê isso é tão bonito. Então, eu vou fazer isso, vou ser um andarilho, pegar um ônibus para ir a um lugar, e vou assim, com minha mochila nas costas.

 O que você leva na mochila?

Um saco de dormir e uma rede de selva. Aonde eu chego, posso pedir pouso e já tenho rede. Já a coloquei em um coqueiro, em uma casa onde parei e perguntei se podia dormir lá. Eles falaram que havia mosquito, mas minha rede tem aquela tela, não entra mosquito (risos).

Quais os equipamentos que você carrega?

Geralmente, levo todas as lentes que eu tiver e uma segunda máquina. Eu aconselho a quem quer fazer viagem fotografando que leve duas máquinas. Às vezes, as pessoas falam: ‘eu levo uma boa e uma fraquinha’. Não faça isso. Eu tenho duas máquinas legais. Se tiver condições, vá com duas boas porque, às vezes, você está viajando e a máquina dá um problema. E, se você não tiver outra boa, dá uma brochada, desanima. Às vezes, não levo roupa, mas levo as máquinas.

 Qual a melhor hora para fotografar no Nordeste?

No início da manhã e no final da tarde, mas, em qualquer época, é lindo. Eu gosto muito. No início da carreira, eu fazia muito foto em preto e branco, mas gosto muito de cor também. Depende da situação. Às vezes, faço com pouca luz, na penumbra. Já fotografei com luz de vela, com pouca luz, teve também uma luz refletida em alguma. É muito difícil, mas a gente consegue. O gostoso da fotografia é justamente isso: o desafio.

 Como você arranja tempo para viajar?

 Às vezes, nas férias ou juntando dias de folgas. Agora mesmo, com as Olimpíadas, eu tinha 140 horas de folga e juntei isso, vou ver se pego um dinheirinho e viajo. Mas, agora, não tenho dinheiro, então posso ir de carona. Não preciso de muito para ser feliz (risos).

Exposição fotográfica Nordeste

Angelina Nunes Contributor
​Carioca, apaixonada pelo samba, nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital. Jornalista há mais de três décadas, conquistou prêmios como Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, e é mestre em Comunicação pela Uerj. Professora universitária, integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009, e o projeto Mulheres50mais. A família de seu pai é de Cedro de São João, cidade do semiárido sergipano.

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