O homem que gorjeia

O homem que gorjeia

Ele tem nome de santo e apelidos de passarinho. Em junho, tem festa para seu protetor e sua fama se espalha pelos quatro ventos quando gorjeia xotes, xaxados e baiões, exaltando Uauá, sua cidade natal.

Antônio Sabino Marques virou menino-passarinho fazendo trabalho pesado de homem feito. Não gostou da transformação. Resistiu, brigou. Deu socos ao vento e, às vezes, em pessoas. Levou bordoadas. Só 22 anos depois,  conformou-se em ser chamado de cavachão, “pássaro besta” que constrói o ninho em barrancos. Antes disso, foi sabiá.

O cantor e compositor mais famoso da terra dos pirilampos começou a trabalhar aos 13 anos, abrindo buracos para construção da estrada que ligaria Uauá a Juazeiro. Recebia em troca farinha, rapadura e carne do sertão. Dormia em um carrinho de mão, debaixo de um umbuzeiro. Nos dias mais frios, fazia uma pequena fogueira sob a cama improvisada.

 Como cavava mais rápido que os adultos, ouviu de um colega invejoso que só dava mesmo para “cavar chão”. Daí para o apelido pegar, bastou ele não querer. A raiva aumentou quando disseram que o bichinho era feio, o que não é verdade, mas servia para irritá-lo ainda mais.

 

Desde os 8 anos, Antônio ou Sabino, como era chamado antes de ganhar asas, brincava com instrumentos musicais. Primeiro, foi um cavaquinho com duas cordas, dado por Caboclo Preto. Depois, um violão, presente de Zé Pé Queimado, seu irmão.

Nas folgas de peão de trecho, ainda criança, ia tocar com Zé, Pedro da Rosa, Doutor Lambaia, conhecido por só saber tocar a melodia de um anúncio de Melhoral, e outros amigos. Vieram os primeiros goles de água que passarinho não bebe e, mais tarde, histórias que o deixavam envergonhado diante da mãe, que ficou viúva quando o filho tinha 7 anos.

A necessidade fez Antônio ir trabalhar como servente de pedreiro, em Salvador, em julho de 1950. Carregava latas cheias de massa de cimento na cabeça, de segunda a sábado  –  acredita que ficou careca cedo por causa disso. Aos domingos, tinha compromisso certo: cantar, tocar violão e farrear.

Fez a primeira música dois anos depois de chegar à capital, escrevendo a letra com carvão em papel de embrulho. Em 1954, após “Uauá” ter sido gravada pelo Conjunto Melódico de Atalaia, em Aracaju, foi convidado por Riachão para uma conversa. Depois de terminar a parceria com Riachinho, o sambista precisava de alguém para acompanhá-lo, fazendo a segunda voz.

A música-teste para foi a guarânia Índia, que Cavachão estava acostumado a cantar. Vieram outros pedidos  – todos tirados de letra. Dois dias depois, a dupla se apresentou na praia da Ribeira, em transmissão direta da Rádio Sociedade.

Cantar nos programas de auditórios foi um pulo.

“Sou vergonhoso, medroso e tímido. Foram as três pedras que tive de remover do meu caminho. Fui lá, cantei e agradei”.

No mesmo programa, ganhou novo apelido. As primeiras sugestões eram nomes de cidades  – Uauá, lugar que ninguém sabia onde ficava, e Juazeiro, município vizinho e mais conhecido. O público rejeitou os dois. Alguém do auditório ou o próprio Riachão – Antônio não sabe ao certo  – falou que ele cantava como um sabiá. E vieram voos mais longos.

A dupla e o grupo As Pastoras foram os primeiros  a se apresentar na TV Itapuã. Riachão e Sabiá passaram por várias emissoras de rádio, receberam cartas de todo o Brasil. Tiveram convite para cantar na rádio Mayrinck Veiga, no Rio, rejeitado pelo sambista, que não queria ficar longe da família.

No final de 1957, com o declínio dos programas de auditório, a dupla foi desfeita.

Sabiá voltou para o sertão. Voltou a ser Cavachão. Fez jingle para políticos. Começou a tocar no conjunto de Chico Dorope,  Auto Barbosa, Ranulfo, Veinho, Zé Pé Queimado, Bico Doce, Cancão e Zé da Janoca. Sem saber, começava a transformar o São João de Uauá em uma das maiores festas do interior da Bahia.

A “MARVADA”

Certa vez, Cavachão vestiu-se todo de branco e gravata vermelha para dar um show. Tomou um porre e caiu num buraco na estrada. Acordou altas horas, iluminado pela lua cheia. Chegou em casa sujo, para vergonha da mãe. Com o tempo, deixou a cachaça. Cerveja, só quando tem algo para festejar.

Em São Paulo, para onde se mudou em 1961, foi entregador de Cinzano e operador de máquinas da Geon do Brasil. Mesmo trabalhando até aos domingos, dava jeito de tocar em grupo de teatro e circo. Um dia, deu saudade e voltou, mais uma vez, para o sertão.

Compôs “Quero abraçar meu povo”, um clássico cantado por seus conterrâneos. Virou atração do Festival do Umbu e das festas juninas. Casou com Maria do Carmo e teve duas filhas. Apesar de ser operário qualificado, não encontrou vagas em Uauá, onde não havia fábricas. Decidiu mudar para Salvador, mais uma vez, e retornar à construção civil. Virou pedreiro da prefeitura.

Hoje, aos 84 anos, aposentado do serviço braçal, Cavachão faz parte do Quinteto dos Coroas, que se apresenta no restaurante Cantina da Lua, no Pelourinho, e no Centro Social de Mussurunga, bairro onde mora.

Para onde vai, carrega uma bolsa de couro com exemplares do livro “Mestre Cavachão”, CDs  –  é autor de 143 músicas registradas  –  e DVD, que vende para os fãs. Sempre dá uma “quebra”. Não é o dinheiro que mais importa. Como passarinho que é, o que vale é espalhar seu canto.

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Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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