Naufrágio do transporte

Naufrágio do transporte

O mascate Beltrando Caribé chegou a Januária (MG) pelo rio São Francisco, o melhor e praticamente único meio de transporte da região em 1930. Com o tempo, abriu uma loja de secos e molhados, que revendia produtos comprados no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nos anos 30, o comércio fervilhava nas águas do São Francisco, tanto que Beltrando resolveu mudar a loja para a área portuária e estender a venda de produtos para o sul da Bahia e Pirapora (MG). O movimento crescia, os negócios expandiam-se para Goiás.

O ex-mascate, que se tornara um grande comerciante, resolveu ter uma indústria e passou a produzir a cachaça Caribé, distribuída por via fluvial a partir de 1940. Os negócios iam de vento em popa e a empresa chegou a ter 16 embarcações de 60 toneladas, para levar o produto para os estados do Nordeste e do Norte, entre 1960 e 1980.

Cerca de 80% da cachaça produzida pela indústria Caribé foi transportada pelo São Francisco até 1997, quando o rio ainda era navegável por 1.361 quilômetros, entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA). Seu Beltrando morreu um ano antes. O assoreamento e a construção de represas e barragens que controlam o fluxo das águas foram determinantes para as barcas deixarem de navegar.

 

 Cachaça Caribé foi transportada por barcas durante 57 anos

A exceção é a Juriti, cujo proprietário José de Souza teima em chegar até onde é possível. Em sua última tentativa, em junho deste ano, conseguiu navegar até 400 quilômetros de distância de Juazeiro (BA), retornando em seguida porque a profundidade do rio era inferior a um metro. Há seis meses, José não consegue chegar a Januária. Espera o período das chuvas para refazer a travessia.

A construção da ponte no município de Pedras de Maria da Cruz (MG) e o asfaltamento do trecho da estrada Januária-Montes Claros (MG) permitiram que a empresa passasse a priorizar transporte rodoviário para distribuir a produção. Apesar disso, Dalmo Pinheiro, um dos sócios da indústria Caribé, ressalta que, quando o rio está navegável, o transporte fluvial é 40% mais barato do que o rodoviário.

“Nosso produto foi interiorizado graças ao rio São Francisco. Os principais mercados na Bahia sempre foram Remanso, Xique-Xique, Bom Jesus da Lapa e Juazeiro.”

O sócio da indústria de cachaça acrescenta que, nos 76 anos de existência da fábrica, nunca houve acidentes graves no rio, que resultassem em perda de vidas ou de mercadorias. Segundo ele, isto se deve ao fato de o rio ser tranquilo e ao conhecimento que os comandantes das barcas e balsas tinham do percurso.

“As notícias sobre acidentes e mortes no rio são, principalmente, de pescadores em embarcações pequenas e de pessoas nadando e mergulhando, sobretudo, nos períodos de cheias.”

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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