Trilhos da história

Trilhos da história

A estação de Queimadas, na Bahia, é importante monumento histórico. Foi nela que os soldados do Exército desembarcaram para combater Antônio Conselheiro e seus seguidores. Aberta em 1886, dez anos antes do desembarque da primeira tropa, a estação era o ponto mais próximo de Canudos, que ficava a cerca de 200 km de distância. Fazia parte da Estrada de Ferro Bahia, que ligava a estação de São Francisco, em Alagoinhas, ao rio São Francisco, em Juazeiro, em percurso de cerca de 440 km. Os trens levavam as riquezas minerais da região.

Estrategicamente, também era importante por estar em uma das margens do rio Itapicuru-Açu, que garantia o suprimento de água, e por, depois, possuir o primeiro sistema de telégrafo da região, permitindo a comunicação entre as tropas e os comandantes do Exército.

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Placa comemorativa da reforma da estação, realizada em 1943

Segundo registros dos jornais da época, a chegada do Exército – a princípio, festejada – acabou tornando-se um pesadelo para os moradores das cerca de 200 casas do local. As residências foram tomadas para servir ao alto escalão do Exército. Há registros, segundo o professor de história e gestor de Cultura da cidade, Robson Bezerra, de casos de abusos sexuais de moças e de saques feitos pelos militares. Os horrores da guerra, ainda de acordo com Bezerra, foram registrados pelo escritor e agrônomo Nonato Marques em um de seus livros.

Após o massacre dos conselheiristas, em 1897, os militares deixaram Queimadas. Aos poucos, a normalidade voltou ao município.

Em 1911, a linha férrea passou a ser concessão da companhia francesa Caminhos de Ferro Federal do Leste Brasileiro, nacionalizada 24 anos depois. Virou parte da Rede Ferroviária Federal S.A, em 1957, mas manteve o nome de Viação Férrea Federal Leste Brasileiro até 1975, quando ainda transportava passageiros entre Alagoinhas e Senhor do Bonfim.

Posteriormente, passou a ser explorada pela Ferrovia Centro-Atlântica, que usava o ramal apenas para o transporte de cargas. A desativação ocorreu antes do final da década de 1970, quando a ferrovia foi devolvida ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

Ruínas

A decadência da estação culminou com o desabamento do teto, durante uma “chuva de trovoada”, em 14 de outubro de 2009. O local, mal frequentado, estava acabando-se. Em 2011, população e autoridades perceberam a importância de preservá-la. Foi realizado um sarau, que reuniu cerca de 1.000 pessoas no local, segundo Bezerra. A prefeitura também encaminhou ao Dnit um documento, pedindo autorização para passar a cuidar do prédio. A resposta positiva veio três anos depois. Nesse período, as portas e janelas da estação foram lacradas ou fechadas com tijolos e cimentos para impedir acesso de usuários de drogas.

Com a autorização federal, a prefeitura recuperou o telhado e elaborou um projeto que prevê a transferência do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação para o local, assim como a construção de uma biblioteca, museu e outros serviços. O projeto descaracteriza o prédio, mas a funcionários municipais alegam que, na década de 1940, a estação passou por obras que alteraram a sua arquitetura.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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