O rei do rio

O rei do rio

Nina era a menor das caravelas da frota de Cristóvão Colombo, o descobridor oficial da América. Ela levou três anos para ficar pronta em um estaleiro de Huelva, na Andaluzia. As caravelas levavam vantagem sobre as naus porque navegavam mais rápido, chegavam mais perto da costa e eram mais fáceis de manobrar. No entanto, com o naufrágio da Santa Maria, Nina, que tinha este nome por causa do proprietário, Juan Niño, virou a nau capitânia. Transportava seu capitão, Vicente Yañez Pinzón, e o comandante Colombo.

A pequena caravela participou de três viagens do genovês, resistiu a um furacão nas Índias Ocidentais, foi apresada por piratas e libertada pelos próprios tripulantes.

Passados 526 anos de seu lançamento ao mar, outra embarcação com o mesmo nome percorre, opulenta, as águas do rio São Francisco. A Nina de hoje tem 32 metros de comprimento por 8 de largura. É quase o dobro do tamanho da caravela espanhola.

Construída em 1969, tem capacidade para transportar 160 pessoas –  mais do que a soma das tripulações dos três navios de Colombo – e 100 toneladas de carga. A última reforma, há dois anos, quando ganhou mais um andar e 12 camarotes com camas de casal e ar-condicionado, custou R$ 750 mil. A barca, que ainda tem um amplo salão no segundo andar, para festas, shows e jantares, está segurada em R$ 2,5 milhões.

Entre os passageiros da Nina, estão turistas que fazem passeios às ilhas do São Francisco, aos domingos, funcionários da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) em viagens a serviço, atores e produtores da novela Velho Chico e políticos excêntricos. Um deles, prefeito de uma cidade do Piauí, alugou o barco e contratou um conjunto de forró. Parou em Remanso e Xique-Xique, na Bahia, para pegar parentes. Todos foram “comendo água” (bebendo) até Barra, cidade natal do contratante, onde foram recebidos por intenso foguetório.

A maior barca do São Francisco é apenas uma das dez embarcações do “Rei do Rio”, o maranhense Luiz Raimundo Pereira, 70 anos, e de seu filho Rogério. Pouco depois de se estabelecer em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), na década de 1960, o empresário ficou conhecido como Luiz do Sal, pois negociava o produto adquirido em Mossoró (RN).

Um dia, Luiz decidiu  aventurar-se no ramo da navegação. Fretava a barca Ipanema, contratava os próprios tripulantes e descia o São Francisco até Pirapora (MG), carregado com 100 toneladas de produtos (açúcar, sabão, biscoito, algodão, mamona e macarrão), que eram entregues nos portos fluviais. Mesmo com a carga saindo de Juazeiro vendida, a viagem de ida e volta durava 25 dias.

Às vezes, enveredava pelo rio Corrente, em Sítio do Mato, e seguia até Santa Maria da Vitória, na Bahia. Outra opção era seguir pelo rio Grande, em Barra, até Barreiras, no oeste do estado. Na volta, trazia pelo menos 100 cabeças de gado.

A última barca arrendada foi a Maringá, de José Teodoro. Três anos depois, começou a ter as próprias embarcações: Núbia, Pinta e Nina.

“Muita gente dizia que eu ia quebrar”, recorda.

Em seguida, jogou a rede nas embarcações do Grupo Coelho, construídas em Petrolina.

Cada barcaça tinha seis tripulantes — piloto, mecânico/maquinista, três marinheiros e cozinheiro. E quem navegava pelo rio tinha que seguir um código, que consistia em socorrer qualquer embarcação com problemas e transportar pessoas de graça entre as localidades.

“Os donos das fazendas nos agradeciam, matando um boi e dando um quarto do animal para a tripulação”, lembra.

O “Rei do Rio” pretende passar os negócios para um dos netos. No entanto, não para de pensar em novos investimentos. Atualmente, estuda a possibilidade de realizar passeios de três dias entre Juazeiro e Barra.

NOVOS CAMINHOS

A abertura de estradas foi reduzindo o movimento de cargas nos 1.371 km entre Juazeiro (BA) e Pirapora (MG). A Franave (Companhia de Navegação do São Francisco) – empresa de economia mista formada, em 1963, com a fusão de duas empresas de navegação estaduais e uma privada – foi liquidada em janeiro de 2007.

Com o fim do transporte de cargas e de passageiros, os empresários do setor passaram a explorar o traslado de pessoas entre Juazeiro e Petrolina. O serviço foi iniciado pela Franave durante as obras de restauração e duplicação da ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra. No início, o transporte era feito por pequenos barcos que levavam até 20 passageiros, daí o nome barquinhas.

Quando o serviço foi extinto, seis empresários o assumiram e, há seis anos, criaram a ATB (Associação Travessia de Barquinhas). Na verdade, ela é feita por barcos com capacidade para até 100 passageiros. Os empresários têm 14 embarcações  – oito são de Luiz, presidente da associação, e seu filho.

A travessia funciona, nos dias úteis, com cinco barcaças que saem de 15 em 15 minutos de cada uma das margens do rio São Francisco. O percurso de 800 metros dura quatro minutos. As passagens custam R$ 1,30. Diariamente, são transportados, em média, três mil passageiros. O horário de funcionamento é das 6h às 23h, sendo que, após as 19h, só uma embarcação opera.

Aos sábados, a travessia é feita por dois barcos. Aos domingos, um. O dinheiro arrecadado é dividido entre os proprietários. Cada barca fatura R$ 23.500 mensais. O salário de cada tripulante, no máximo dois, é de R$ 1.500.

Há outros pontos do São Francisco em que são feitas travessias de passageiros. Como de Petrolina (PE) para a Ilha do Rodeador. Elas são feitas pelos acessos Almizão e Juarez. O preço é R$ 2.

TURISMO

O segmento turístico também é dominado por Luiz. O passeio da Nina vai até a Ilha do Maroto, inclui serviço de bar e restaurante, parada para banhos e show de música. O tempo de duração é de seis horas.

Já o Vapor do Vinho inclui uma visita e degustação na vinícola Miolo, passagem pela eclusa, passeio no lago de Sobradinho, almoço a bordo e banho de rio na Ilha da Fantasia. Parte do passeio é feito de ônibus. O ingresso custa R$ 145.

Existem outros tipos de passeio com menos estrutura. Os donos fretam as embarcações mais simples por R$ 1 mil, a diária. Elas seguem para a Ilha do Rodeador para banhos, e as passagens custam R$ 25.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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