O velho comandante

O velho comandante

O comandante Aprígio Nunes navega para os 70 anos a bordo da barca Vitória Régia, no vaivém da ligação entre Juazeiro e Petrolina. Desde julho de 1970, após tentativa frustrada de ser sócio de uma plantação de café, ele está no leme da barca Vitória Régia  –  a segunda com o mesmo nome que pertence a sua família.

O primeiro navegador foi o pai, Edvaldo Tavares, que, desde 1956, viajava para Januária (MG). Com a construção do lago de Sobradinho e a abertura de estradas, o transporte fluvial foi minguando e a primeira barca com nome de planta aquática amazônica parou de vez. À época, a Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) indenizou a família com 150 milhões de cruzeiros. Algo em torno de 150 mil reais.

Aprígio está aposentado como marinheiro fluvial de convés, na função de comandante, mas se mantém no vaivém de 800 metros, entre a Bahia e Pernambuco, Juazeiro e Petrolina. Desde 1991, não faz mais o longo transporte de carga, gado e pessoas.

 “Quando o nível da água baixava, a embarcação encalhava. Tínhamos de descarregar as mercadorias para o barco passar pelo banco de areia”.

O comandante ressalta que o assoreamento, pedras e paus são os maiores perigos no leito do rio. Também enumera o que deve ser feito para salvar o Velho Chico:

1 – O São Francisco precisa de dragagem e revitalização

2 – As prefeituras das cidades têm que tratar do esgoto sanitário que é jogado no rio

3 – Os donos de terra não devem desmatar as margens ciliares

Alguns barqueiros contam que o desmatamento ocorre porque grandes agricultores e empresários constroem belas casas próximas às margens e tiram a vegetação para que elas possam ser vistas a distância.

 VITÓRIA RÉGIA II

A Vitória Régia mais nova (“filha da primeira”) foi construída em 2004, em Petrolina. Foi um projeto artesanal do armador João Lacerda. Ela tem capacidade para 95 passageiros.

Aprígio trabalha das 6h às 12h e é substituído pelo filho, que comanda o segundo turno até as 18h.

Ao mesmo tempo que fala da vida tranquila que tem hoje, o vice-presidente da ATB (Associação Travessia de Barquinhas) lembra do tempo que via capivaras e jacarés com frequência. E garante que o que sempre lhe chamou a atenção foi o nascer e o pôr do sol durante as viagens.

Hoje, a ligação Petrolina-Januária teria um custo de R$ 25 mil, o que está fora de cogitação, pelo menos da boca para fora:

 “Fui me desacostumando de descer o rio”, diz.

Um velho marinheiro, porém,nunca esquece suas tradições. Fala das festas do padroeiro , Bom Jesus dos Navegantes, e de lendas. Elas incluem uma serpente gigante, a mãe-d’água (entidade que carrega meninos e jovens para o fundo) e o nego-d’água (espírito travesso que pode virar um barco se não lhe forem oferecidos fumo e cachaça por pescadores e marinheiros).

Aprígio também sabe de cor a profundidade do São Francisco, no trecho em que navega  –  oito metros. É tão fundo quanto suas saudades.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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