Dois dentes e quatro cordas

Dois dentes e quatro cordas

José Rosalvo dos Santos nasceu em Creguenhém, no município de Tucano (BA). Como toda criança sertaneja, ajudava o pai, trabalhando com ele nas feiras da região. O velho foi picado por cobras cinco vezes e ficou cego. Foi aí que, para ganhar dinheiro, José Rosalvo virou o Zé do Cavaquinho, após aprender a tocar o instrumento com um copo, uma garrafa, os pés e a especialidade que o transformou na maior celebridade da região: os dentes.
A fama de Zé aumentou depois que ele passou a tocar em bares e clubes de Salvador, o que lhe valeu um convite para se apresentar no programa do Faustão, da Rede Globo. Do convite ao palco, esperou dois anos.

“Andei de avião pela primeira e única vez para ir ao Rio de Janeiro. Fiquei um pouco preocupado de andar no céu e ver que as nuvens estavam abaixo de mim. Mas o que me deixou mais admirado foi quando chegamos a uma serra e entramos em um túnel. Eu olhava para o relógio e nada de o túnel acabar. Eu pensava: se essa serra cair, estamos lascados ”

O túnel a que ele se refere é o Rebouças, assim batizado em homenagem aos engenheiros e irmãos baianos André e Antônio, que se destacaram em projetos de infraestrutura no Segundo Reinado. O túnel liga a zona norte à zona sul do Rio de Janeiro. A parte de maior extensão tem 2.040 metros. É preciso passar por ele para ir do aeroporto aos estúdios da Globo.

Zé do Cavaquinho conta que ficou quatro dias ensaiando na emissora. Gaba-se que sua apresentação foi transmitida para mais de 100 países, o que lhe rendeu uma carta de uma fã canadense.

Relata, ainda, que “tirou no dente”, no quadro “Se vira nos trinta”, duas músicas: “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, e “Eu só quero um xodó”, de seu ídolo Dominguinhos. Ele gosta tanto do sanfoneiro que usa chapéu de couro branco autografado pelo músico e compositor de Garanhuns (PE). Peça semelhante custa R$ 60, em Caldas do Jorro, e R$ 95, em Salvador.

Zé diz que ganhou R$ 8 mil no programa por ter ficado em segundo lugar. Acrescenta que não ficou triste por não ser o primeiro colocado.

Hoje, vive com a esperança de retornar ao programa. Recebeu um convite para voltar, mas a espera perdura por três anos.

Enquanto isso, o músico de Creguenhem aproveita a fama no bar que tem em Caldas do Jorro. Embora tenha casa, em Itapuã, Salvador, prefere ficar no  município natal, onde virou personagem do livro “Celebridades e vultos populares”.

No “Jorrão” – como ele chama -, canta, toca, conta causos e prepara cachaças com ervas para vender.

A que recomenda para quem tem problemas de vistas é a “Estufa Ôio”, cuja receita não revela

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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