Nidinha variedades

Nidinha variedades

A vida para Eronildes Ferreira de Andrade, a Nidinha, consiste em trabalhar e se dedicar à religião. Aos 85 anos, teve “uns namoros bestas, sempre de longe, nunca no portão”. A mais antiga comerciante de Uauá, na Bahia, tem saudades dos pais e das festas em sua casa. Vez por outra, pega-se em cantorias, as mesmas cantadas ao redor do fogo com os “padrinhos de fogueira”, nas noites de São João.

Se fosse um objeto, Eronildes seria um relógio. Qualquer morador da cidade pode confiar nas horas se acompanhar a rotina de Nidinha, do momento em que ela abre a loja, às 6h, até quando se recolhe, às 20h. Se ela estiver tomando café, são 7 horas. Se sair para almoçar, 11h30… E, assim, a rotina da comerciante marca o tempo em Uauá.

Quem começou com a história de comércio foi o pai dela, João Andrade da Silva. Em 1935, abriu uma bodega que só “vendia besteira”, na definição da filha. Ou seja, cachaça e cigarro.

 Do tosco armazém, passou para uma loja de ferragens, miudezas, cereais, agulhas e linhas, mantendo a lucrativa venda de pinga. Foi nesse tempo, prestes a fazer 10 anos, que Nidinha começou a ajudar o pai. Ela, os irmãos e a mãe Maria Ferreira se dividiam na função.

 Os estudos tiraram os irmãos do comércio. Nidinha só terminou o primário, mas aprendeu a lidar com os caixeiros viajantes, fazer pedidos, definir preços e administrar o negócio. Quando o pai morreu, aos 92 anos, em 1997, não havia dúvidas sobre quem o sucederia.

 A Nidinha Andrade Variedades tem freguesia cativa, graças a produtos que resistem à modernidade. Ali, é possível comprar penicos esmaltados, prego a retalho (varejo), permanganato, aparelho de barbear de metal, breu, anil (as “bonecas de anil” arredondadas e envoltas em pedaços de pano de filó foram substituídas por tabletes) e rusalgar, veneno antigo para matar cupins, ratos e pardais.

 Nas prateleiras e no balcão cinquentenário, estão dispostos ferragens, fogos, ferramentas e artigos de armarinho. Estão, também, um chicote e uma foice que pertenceram a João Andrade, à época em que o estabelecimento se espichava por uma quadra inteira e tinha o seu nome.

“Aqui tem de tudo um pouco. Acho que são uns 100 produtos, porque eu não gosto de exagerar”, diz Nidinha.

 De todas as coisas da loja, o que ela mais gosta é um baleiro de vidro, por trazer lembranças do tempo de menina.

 SÃO JOÃO E POLÍTICA

 A conversa, por instantes, deixa de versar sobre trabalho. O tempo recua para quando João e Maria eram vivos. A mãe era festeira, o pai, opositor do governo. A família “era da parte da UDN”. A casa dos Andrades estava sempre cheia pelos dois motivos.

 Nidinha é sobrinha de Chico Dorope. Tocador de clarineta, compositor e um dos responsáveis por Uauá ganhar fama de ter uma das melhores festas de São João na Bahia, ele as animava. Em junho, tudo ficava mais belo: as crianças e seus “padrinhos de fogueira” dançavam e cantavam em torno do fogo.

“São João dormiu/ São Pedro acordou /Nidinha, minha afilhada/ que São João mandou/ Antônio, meu padrinho/ que São João mandou”, cantarola.

 DE VOLTA AO TRABALHO

 Nidinha não tira férias. É dona e funcionária ao mesmo tempo. Diz que não põe empregado porque, “com a nova lei, eles querem tomar tudo”. A Consolidação das Leis Trabalhistas foi criada em 1943, pelo ex-presidente Getúlio Vargas, inimigo número um da UDN.

 Com o pai vivo, a comerciante passou 15 dias na casa de um irmão, em Salvador. Em outra ocasião, passou uma quinzena em São Paulo. E só.

 Quando precisa ir ao médico e fazer exames em Juazeiro, a três horas de ônibus de Uauá, ela fecha o estabelecimento.

 Fora isso, abre todos os dias, inclusive aos domingos. A única diferença é que, neste dia, fecha às 10 horas, pois não pode faltar à missa. Afinal, é a responsável pela capela do Senhor do Bonfim, primeiro padroeiro de Uauá.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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