A poltrona 45

A poltrona 45

A moça chega correndo. Carrega quatro bolsas e uma mochila. Por causa dela, o ônibus do Expresso São Matheus parte depois do horário. O atraso é pequeno, três minutos, e ninguém reclama.

A passageira que senta na poltrona 45, a primeira e mais próxima do lado direito do motorista, é bonita.

Morena, veste um short desbotado e desfiado, camisa colorida sem mangas e, para afugentar a friagem, um casaquinho rosa fininho, que vai tirar lá para os lados de Serrinha.

A cabeleira é preta com mechas castanhas. Ela passará boa parte da viagem ajeitando-a. Suas unhas estão pintadas com esmalte transparente.

Gabi – só descobri o nome na parada de Santa Luz, porque alguém a chamou para tomar um café – é conhecida do motorista e do cobrador, João Primo.

Por causa dela é que a porta que separa a “tripulação” dos passageiros está aberta. Assim, eles podem conversar.

Durante a viagem, entre uma e outra tentativa de prender o cabelo, a moça vai transformar palavras em “pérolas”: “Ficar em casa de parentes só é bom nos primeiros dias” ou “As mulheres preferem os casados porque eles são experientes”, desfia.

Os ônibus que cruzam o sertão se parecem com trens e vans. Têm um sem-fim de paradas, levam cargas e permitem que ambulantes subam e ofereçam seus produtos. O primeiro vendedor entra 24 minutos depois de sairmos de Salvador. Ele oferece tapioca, água e Skinka, uma bebida que parece tintura.

Parado próximo ao posto da Polícia Rodoviária de Simões Filho, o motorista pede para que seu assistente pegue um café com leite em uma barraquinha. Ele toma o café, enquanto o cobrador grita o roteiro para quem está no ponto: “Feira, Santa Bárbara, Serrinha, Coité, Retirolândia, Valente, Santa Luz…”. Monte Santo é o fim da linha.

“Café, coxinha, bolo de aipim, sucos, ‘pastel de forno para quem não pode comer fritura’”, apregoam os ambulantes.

Os salgados custam R$ 4. O cheiro de fritura espalha-se.

Na BR-324, o que mais se vê são outdoors propagandeando as festas de São João. Ainda é março, mas é preciso fazer as reservas com antecedência nas cidades que têm mais atrações. Jeane Lima e Tyrone Cigano são alguns dos cantores que aparecem nos cartazes. Daniel Vieira faz propaganda da música “Sabonete de Motel”.

Curioso, também, é ver as placas dos estabelecimentos na BA-120 ou na entrada dos municípios.

Em Santa Bárbara, existe a pousada “Nega do Zé do Ouro”.

Em Retirolândia, no meio do nada, o motel Carpe Diem. Por fora, ele está maltratado, mas, na internet, há fotos de seu interior bem cuidado.

Bem antes, em Serrinha, existe a funilaria do “popular Vaca”.

O ônibus intermunicipal da São Matheus tem 45 lugares. Saiu da capital baiana com 23. No entanto, até Queimadas, 86 passageiros viajaram nele. Isso ocorre porque os veículos, nas cidades do interior, também fazem pequenos roteiros. Há passagens de vários preços. Da capital até Queimadas, custa R$ 61,65, com seguro incluído. De Conceição do Coité até Valente, R$ 5,85. De Serrinha ao povoado de Malhada do Alto, R$ 2,65.

É em um ponto improvável, diante de uma padaria em Conceição do Coité, que sobe o maior número de passageiros, depois da rodoviária de Salvador. São 13, incluindo crianças.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *