Meus Sertões

Tripas e carnes

FEIRA QUILOMBOLA

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Os chás de dona Lita

Agricultora e artesã, Valerita Santana, dona Lita para os moradores de Rafael Jambeiro (BA), tem 80 anos. Ela teve 11 filhos, três morreram. O mais velho tem 64 anos. Também criou três filhos dos outros e costuma tirar bêbados da rua, levá-los para casa e curá-los, afastando-os da bebida com conselhos e afeto.

Bisneta de índia, aprendeu cedo os segredos das folhas e ervas. Diz que não toma remédios e que se cuida com chás. Sabe indicar muitos deles, dependendo do mal que se tem. A octogenária, que calcula ter entre 70 e 80 netos e bisnetos e um trineto, faz questão de mostrar que ainda tem boa forma e se põe a manejar a enxada.

A octogenária Lita a maneja a enxada com habilidade. Foto: Paulo Oliveira

Com a ferramenta, passa a manejar o solo e garante que consegue encher quatro sacos de capim por dia para alimentar os animais. Mais jovem, tirava 11 sacos do solo. Com tamanha vitalidade, passa noites sambando e cultuando a cultura de sua terra, mas isso será tema de outra matéria. Assim como a revelação de que ela aumentou a idade – nos documentos tem 82 anos – para poder votar.

No vídeo abaixo, Lita desfia as propriedades dos chás que costuma fazer.

 

Medo da violência em Rafael Jambeiro

Um casal de idosos segue pela estrada de terra que liga a sede do município de Rafael Jambeiro à localidade de São Roque do Piratigi. A mulher pede carona e entra no carro contando sua história. Ela está indo conferir o estado da casa que deixou por causa da ‘ladronice’, que está grande na região”. Seu companheiro permanece calado. E ela continua:

“Estão roubando tudo. Vou ver se minha casa ainda tem telhas. Muitas vezes, os bandidos pegam as pessoas, levam para casa e fazem uma bagaceira”, conta.

Segundos depois, pede para o carro parar, desce com o parceiro e agradece.

Nos três dias que passei em Rafael Jambeiro, a 217 quilômetros de Salvador, o que mais ouvi foram queixas sobre o aumento dos índices de criminalidade na região, por onde passam três estradas federais (BRs 324, 116 e 242) e uma estadual (BA-490).

A facilidade de acesso, a precária estrutura e o reduzido número de policiais facilitam a ação de bandidos e traficantes. Por todo o município, incluindo a zona rural, a colocação de grades é a única forma que as pessoas encontram para tentar se defender.

O surgimento de mansões de empresários jambeirenses estabelecidos em Salvador, a partir dos anos 2000, não está apartado do investimento de sistemas de segurança que incluem câmeras e sistema de eletrificação em altos muros.

UMA VIATURA E TRÊS POLICIAIS

O secretário de governo Airton José Borja Martins explica como é hoje a estrutura de segurança, em Rafael Jambeiro, que tem 1.090 km², segundo o IBGE:

“A Polícia Militar só conta com uma viatura e três policiais. Então, se os policiais vão, por exemplo, atender uma chamada no Rosarinho, a 45 km da sede, ela fica desguarnecida. Pior de tudo: se os PMs apreendem um ladrão em flagrante têm que levar para Santo Estevão, a 52 km, porque aqui não tem delegado. Se a prisão for no final de semana, tem que levar para Feira de Santana, a 98 km”

O número de policiais ideal para garantir a segurança do município, segundo parâmetros da Organização das Nações Unidas, seria de 52. Um para cada 450 habitantes. No entanto, é uma meta muito distante, que gera situações constrangedoras que se confundiriam com piadas.

“Já aconteceu na prática de o bandido voltar primeiro do que os policiais. Quando ele chegou na delegacia, havia um advogado que o soltou, enquanto os PM tiveram que ficar lá, preenchendo relatório”, conta Airton.

O secretário observa que para manter a precária estrutura o governo municipal assina convênio com a Secretaria de Segurança para fornecer imóvel e custear as despesas de limpeza, energia e comunicação, além de bancar as refeições (café, almoço e jantar) dos policiais em serviço.

Com relação à Polícia Civil, a inexistência de delegado titular faz com que um delegado substituto passe pelo município uma vez por semana, às vezes duas, de acordo com Airton José:

“Se uma pessoa quiser prestar uma queixa não consegue. Então os índices de criminalidade do município perante o estado são bem menores do que o real “ – acrescenta o secretário.

Em Rafael Jambeiro também não há escrivão. Um funcionário administrativo faz esta função. E o número de investigadores não passa de três.

“A delegacia fica em prédio da prefeitura. O carcereiro é da prefeitura. A refeição dos presos, quando tem preso, é a prefeitura quem paga. Refeição dos policiais e do delegado substituto quando estão aí, a prefeitura banca. Faz parte do convênio firmado com a SSP. O município pode até não cumprir, mas imagina: ele faz tudo isso e é mal servido, o que acontecerá se não fizer? ”  – questiona Airton.

O gestor municipal também se queixa que a cidade não tem comarca e que o Ministério Público está fechando a promotoria. Airton conta que criadores de caprinos e ovinos deixaram de comprar e vender animais na cidade, temendo assaltos.

MÓDULO DESATIVADO

Já a vereadora Magna Lúcia Gomes de Araújo (DEM), a mais votada no município e cumprindo o quinto mandato, lembra que no passado havia um módulo policial na entrada da cidade, no distrito de Paraguaçu. O posto foi desativado em 2011 pelo comando da PM que alegou falta de efetivo.

Magna conta que na última terça-feira, houve uma reunião com representante da PM no município. De acordo com ela, ficou acertado que o governo pagará horas extras para os policiais lotados na cidade dobrar a carga de serviço. Em contrapartida, a prefeitura disponibilizará mais uma viatura e duas motocicletas para facilitar o acesso à zona rural, onde vive cerca de 70% da população.

“A prefeitura vai ter que direcionar verba de outras ações para melhorar a qualidade da segurança. Mesmo assim, isso não atende à necessidade” – diz.

Magna contou que o major PM que participou da reunião informou terem sido registradas sete ocorrências policiais em Rafael Jambeiro, em 30 dias, o que estaria bem abaixo da realidade.

Concurso de fotos Meus Sertões

1º CONCURSO MEUS SERTÕES DE FOTOGRAFIA AMADORA

O 1º concurso de fotografia amadora Meus Sertões tem como tema A MULHER SERTANEJA. O objetivo é selecionar 20 fotografias expressivas sobre a mulher do semiárido brasileiro. Estas fotos ficarão expostas na seção Galeria, na primeira página do site www.meussertoes.com.br, durante 45 dias a partir de outubro de 2017. …Visualizar o restante

Obras divinas feitas de barro

O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” – Gênesis 2:7.

Do barro que os homens foram feitos, segundo a Bíblia, são produzidas peças artesanais divinas, em Barra (BA).  Da tabatinga do rio São Francisco e do tauá do Rio Grande também são extraídas as tintas brancas e amarela – esta depois da queima fica vermelha -, usadas para colorir a cerâmica tradicional da cidade, produzida por seis artesãs e dois ajudantes nas instalações cedidas por comodato pela Igreja Nossa Senhora de Fátima. …Visualizar o restante

Foto solidariedade

O radialista Noilton Pereira de Lacerda, 45 anos, teve uma infância difícil. Criado por uma tia, desde cedo começou a trabalhar para ajudar ela e a avó. Foi feirante, eletrotécnico e tentou viver de música, criando uma banda de rock de um homem só. Quando viu que não conseguiria atingir um grande público foi trabalhar com comunicação. Há quatro anos, porém, decidiu sair da zona de conforto e encontrou uma forma diferente de fazer trabalho social. Passou a ajudar 10 famílias, focado principalmente em 45 crianças, mas atendendo 120 pessoas no total. Só recentemente caiu a ficha de que estava suprindo duas necessidades: a de ter uma família completa – e bota completa nisto – e a de “partir para cima” e garantir melhor qualidade de vida para estas pessoas. …Visualizar o restante