Categoria: Outros Sertões

O folheteiro

Nos últimos dez anos, Jurivaldo Alves da Silva, que prefere ser chamado de folheteiro e não de cordelista, montou uma coleção de mais de quatro mil títulos das obras dos principais poetas populares do Brasil – uma das maiores que se tem conhecimento. E pretende fundar um museu. Os livrinhos estão guardados numa chácara, onde, se dependesse da sua vontade, já estava montada a biblioteca e aberta à visitação dos admiradores e de estudiosos do tema. Esbarrou nas dificuldades financeiras. Na ponta do lápis, as contas são mais difíceis de fechar do que uma sequência de rimas. A concretização do sonho vem sendo adiada – ele não sabe até quando. …Ler mais.

A botija encantada

Achou estranho aquele sonho. O dono da terra onde morava havia aparecido quando o dia já estava amanhecendo. Estava vestido de branco e indicava: no canto esquerdo da camarinha onde ele dormia antes de partir, havia enterrado uma panela de ferro com moedas de ouro e prata para escondê-las da família. Queria ter um dinheiro garantido para as precisões, mas não houve tempo de usá-las. Por isso, estava a vagar pelo mundo das almas. Agora havia recebido permissão para indicar o lugar certo da botija, que estava no casarão abandonado na beira da estrada. O escolhido fora ele. E só ele poderia desenterrar o tesouro. Ficou o dia a pensar sobre aquilo, mas não deu muita atenção. Botija, para ele, era como uma lenda, que ouvira do avô em conversas no alpendre de casa. …Ler mais.

Lampião ostentação

Lampião na passarela

Florisvaldo Mattos

Os cangaceiros, cuja história de façanhas e crueldades inspirou conceituações diversas – símbolos do mal, como criminosos frios e sanguinários, para as autoridades e classe média, principalmente do litoral; heróis, homens bravos e destemidos a serviço da defesa da honra, para os camponeses, principalmente o sertanejo habitante dos descampados -, dormem na memória e no esquecimento, mas às vezes despertam por repentinos sacolejos da estética e da comunicação. …Ler mais.

Arma secreta

O CARISMA DE LAMPIÃO

Florisvaldo Mattos [1]

INTRODUÇÃO 

O estudo do banditismo social do Nordeste, de uma perspectiva histórica antropológica foi enormemente prejudicado por uma série de juízos preconcebidos que se formaram em torno do tema, inspirados geralmente na ação predatória praticada por bandoleiros, que os tornava antes de tudo uma ameaça para a sociedade. …Ler mais.

A tradução da seca

DA LITERATURA AO CINEMA, O SERTÃO E O SERTANEJO EM VIDAS SECAS

Clarissa Damasceno Melo [1]

Resumo: Este artigo propõe, considerando tanto a prosa da Geração de 30, quanto o movimento Cinema Novo, traçar a forma com que sertão e sertanejo foram representados em Vidas Secas; primeiro por Graciliano Ramos e depois por Nelson Pereira dos Santos em adaptação para o cinema; quando a literatura sobre a seca se transforma em fotografia da fome. Para tal, faremos a conexão entre complexidades sociais vividas no sertão brasileiro e a produção artística que se propôs a denunciar, esteticamente, tais complexos e contradições. Partiremos da ideia de que, fotografando a literatura regionalista da década de 1930, Nelson Pereira dos Santos consegue denunciar a condição de subdesenvolvimento encarada no país em fins dos anos 1950 e início da icônica década seguinte, concluindo que a condição de sofrimento cíclico em decorrência dos períodos de estiagem, imposto pelo sertão e sugerido por Graciliano, se confirma a cada novo ciclo de secas e que estas, apesar de serem atualmente enfrentadas com melhorias pontuais no estilo de vida do povo sertanejo, continua a atingi-lo de forma a traduzir ainda um problema historicamente negligenciado.

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