Categoria: Reportagem multimídia

Curta sertanejo

Após a morte prematura, Fernandi de Seu Neto ficou preso na Terra para pagar uma dívida: a promessa de rezar uma ladainha para o Senhor do Bonfim caso conseguisse um jogo de camisas para o time de futebol em ele que jogava. Desesperado para cumprir o prometido, o rapaz passa a assombrar a família da amiga Nita Esta é a sinopse do filme “A História Trancosa de Fernandi”, primeira produção do Clube Audivisual de Ichu (Cavi), cidade do sertão baiano, que disputa a categoria adulta do 8º Festival de Curta da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) com 52 outros filmes de 10 estados (BA, GO, MG, PA, PB, RJ, RS, SC, SP e TO).

…Ler mais.

Seu Zé – Capítulos I, II e III

Mal a lua crescente, propícia para plantar milho, arroz, feijão e tomate, deixou o céu, o beato Pedro Batista da Silva chamou o agricultor José Rodrigues dos Santos e pediu para tirá-lo da cama e sentá-lo em uma rede. Nos últimos quatro anos, Seu Zé, homem de confiança do “Padrinho Pedro”, cuidava do homem santo responsável pelo desenvolvimento de Santa Brígida, cidade do sertão baiano.

…Ler mais.

O resgate do aluá

O aluá é uma bebida fermentada e refrescante, preparada com milho ou abacaxi, adoçada com rapadura ou açúcar mascavo. Sua origem é controversa em função de existirem preparos semelhantes entre os indígenas brasileiros, os povos africanos e os europeus.

A bebida foi incluída na Arca do Gosto, catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores ameaçados de extinção. A iniciativa visa contribuir para recuperar alimentos e ressaltar a riqueza de produtos que a terra oferece.

Sete anos antes da criação do movimento de preservação de sabores (1996), o historiador Sebastião Gonçalves Passos, 85,  já lutava para preservar o aluá, que junto ao refresco de gengibre, eram os únicos “refrigerantes” no tempo em que ele era criança e brincava nas ruas de Jeremoabo, no sertão baiano, onde vive até hoje.

No início dos anos 40, a bebida era feita por três irmãs negras – Eutímia, Suru e Cota – e por uma feirante, vendedora de doces diversos, chamada de Vovó Maria. Após o catecismo, aos domingos, as crianças iam para casa de Eutímia, onde um pote de barro com refresco era rapidamente esvaziado.

As velhas senhoras ensinaram, a quem quis aprender, como fazer o aluá. Depois que morreram, a tradição foi sumindo. O tempo passou e o refresco deixou de ser produzido. Até que Sebastião, há 30 anos, resolveu resgatá-la da forma como lembrava, usando apenas milho e água.

“Um dia me lembrei do aluá e disse: “vou tentar fazer”. O mais importante é o pote de barro, onde o milho é fermentado. O último vasilhame que comprei não deu certo. O gosto do refresco não ficou bom. O tipo de barro é importante. O aluá é delicado, qualquer coisinha se perde. Voltei a fazer no pote velho mesmo” – conta.

Sebastião lembra que as senhoras que faziam o aluá na primeira metade do século passado, faziam como os antepassados. Colocavam palha de banana no chão, em local limpo, colocavam o milho pousado nela, depois molhavam e cobriam com mais palha.

Oito dias depois, quando o milho estava germinando, era levado para o pilão. Em seguida, picado até virar xerém (farinha de milho). O milho moído era colocado em um pote de barro, onde ficava de molho por três ou quatro dias. Um pano braco era amarrado à boca do pote, tampando-a totalmente.

Sebastião, 85 anos, luta para preservar o aluá.
Sebastião, 85 anos, luta para preservar o aluá

Sebastião não segue à risca a primeira parte da receita. Para acelerar a preparação, que do jeito dele leva seis a oito dias, ele compra dois pacotinhos de xerém. Assim, pula a parte da germinação e do pilão.

“Hoje o milho já tá pisado, então tem mais facilidade. Boto de molho hoje; amanhã, lavo bem lavado em quatro, cinco ou seis águas. Em seguida, boto no pote de barro por três dias e amarro o pano na boca da botija” – ensina.

No tempo antigo, na etapa seguinte, o pote ia para o fogão a lenha, onde ficava por duas, três horas, cozinhando em fogo brando. Hoje, o historiador tira o milho do pote e coloca em uma panela de alumínio, levando-a para o fogão a gás. Depois de 20 minutos de cozimento, começa a mexer. O produto vai ganhando consistência como uma canjica.

“Você tem que continuar mexendo para não pegar. Aí quando começa a bufar, fazendo plac, plac, plac, mais ou menos uma hora depois que foi ao fogo, tiro da panela de alumínio e recoloco no pote de barro, sem que ele tenha sido lavado” – explica.

Agora é deixar esfriar por 12 horas mais ou menos. Se foi feito pela manhã, por volta das 11 horas da noite o vasilhame de barro está frio. Hora de voltar a fechar a boca com pano branco e deixar três dias descansando. Após esse período é pegar o milho, que fica igual à massa de polenta, colocar em um copo, dissolver com água gelada e colocar açúcar à vontade.

O aluá, acrescenta Sebastião, é uma bebida festiva. Normalmente era feito para ser consumido nas festas juninas, aniversários e no Natal. Hoje, o historiador faz quando tem vontade. Serve para família e para os amigos como o coronel João Carlos Gama de Oliveira, que mora em Salvador, mas lhe visita toda vez que retorna a Jeremoabo, a fim de beber aluá.

Sebastião ressalta que ele e um de seus irmãos sabem preparar o antigo refresco. Diz que não conhece ninguém mais que o faça. Ele admite que só não gosta muito quando tem que mexer a bebida no fogo porque ela exala um cheiro desagradável.

“Mas beber é gostoso e compensa todo o trabalho” – garante

ORIGENS PROVÁVEIS

O site Slow Food Brasil, que divulga a história dos alimentos que fazem parte da Arca do Gosto, ressalta que os indígenas brasileiros preparavam bebidas fermentadas de milho, mandioca e frutas nativas há séculos. As técnicas de fermentação variavam, de acordo com os pesquisadores, de acordo com as regiões e os ingredientes, podendo utilizar enzimas da saliva ou leveduras espontâneas.

Na África, prossegue o Slow Food, bebidas fermentadas eram feitas à base de cereais, seivas de palmeiras e frutas. Posteriormente, povos como os Ovimbundu, do sul de Angola, passaram a usar produtos da América como o milho e o abacaxi. Lá, bebida parecida com o aluá é chamada de kissanga e vendida em locais públicos.

Os colonizadores portugueses também faziam refrescos, fermentando pedaços de pão e cereais, acrescidos de especiarias, aromas e beterraba. Essa é a provável origem do “aluá de pão” até hoje presente nas mesas do interior cearense.

No século 19, o aluá ficou popular em todas as classes sociais. Com baixo teor alcoólico, passou a ser consumido até por crianças. Ainda segundo o Slow Food Brasil, o refresco é citado em diversos livros. Em um deles, Eloy de Souza relata que no Rio de Janeiro era vendido “em potes de barro muito limpos, à cabeça das negras velhas”.

O aluá se espalhou pelo Brasil durante a ocupação e colonização do Nordeste. Também está presente nos rituais de religiões afro-brasileiras, onde é oferecido às divindades e participantes.

No distrito de Morro Vermelho, em Caeté, Minas Gerais, desde o século 17, são realizados ritos onde há o consumo de aluá, produzido a partir da fermentação de frutas, restos de alimentos e rapadura. A bebida é servida em copos de barro durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, em outubro.

Independente das variações regionais– muitas delas utilizam especiarias nas receitas -, o aluá faz parte da cultura brasileira. Sua preservação é importante para perpetuar a tradição indígena, quilombola e nordestina, além de resgatar uma bebida saborosa e saudável.

 BOM EXEMPLO

RECEITA

Em levantamento feito por Meus Sertões, esta é a receita atual mais simples:

Ingredientes
1 kg de milho seco
1 kg de açúcar mascavo
Cravos-da-índia
Gengibre
Erva doce
Água

Modo de fazer
Torre o milho no forno por uns 20 minutos. Em seguida moa os grãos e despeje-os em um pote de barro. Acrescente a água e o açúcar. Deixe descansar por 24 horas. Depois  desse tempo coloque as especiarias  (cravo – gengibre e erva doce) também moídos e deixe por mais um dia. Se achar  necessário, coe a bebida com um pano e na hora de servir acrescente gelo.

As memórias de Sento Sé

Pedagoga, jornalista e mestranda em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental, na Universidade Estadual da Bahia (Uneb), a juazeirense Adzamara Rejane Palha Amaral, 41 anos, tem dedicado a vida acadêmica aos impactos causados pela Barragem de Sobradinho, em Sento Sé, terra de seus antepassados desde que os bisavós se mudaram da vizinha Pilão Arcado para o povoado de Brejo da Brasida.

…Ler mais.

Toada para a Fábrica Peixe

O poeta e cantador José Cosme de Lima, o Zé Galego, 67 anos, vive hoje em um abrigo para idosos, em Arcoverde (PE). No entanto, só precisa de milésimos de segundo para reencontrar o passado, que ficou na terra natal, Pesqueira, a 43 quilômetros de distância, e de dois minutos para cantar a toada que fez sobre a fábrica Peixe, motivo de orgulho para os pesqueirenses por um século.

…Ler mais.

Todos de branco

Santa Brígida, cidade do sertão baiano que tem o nome da padroeira da Europa, se desenvolveu a partir da chegada do líder messiânico Pedro Batista. Ele e Maria das Dores dos Santos, a Madrinha Dodô, ex-assistente de Padre Cícero, acreditavam que o sofrimento do corpo era o caminho para se chegar até Deus. Por isso, pregavam a necessidade de os cristãos fazerem penitências e sempre rezarem.

…Ler mais.

Romaria Pankararu


A relação entre o padrinho Pedro Batista da Silva (1888 – 1967), beato e conselheiro estabelecido em Santa Brígida (BA), a Madrinha Dodô (1902 – 1998), seguidora e herdeira espiritual de Batista, e os indígenas Pankararu se consolidou graças a Maria Bárbara Binga (1917-1993), indígena batizada pelo padre Cícero, devota dos padrinhos e criadora do grupo de penitentes da aldeia de Brejo dos Padres.

…Ler mais.

Devoção, orquídeas e relíquias em Ichu

A Fazenda Canavial, a dois quilômetros do centro de Ichu (BA), possui atrativos que a tornam difícil de ser igualada: beleza natural, uma capela histórica, orquidário e marcas de antiga usina de açúcar. Visitá-la é uma benção, principalmente em setembro, quando é hasteada a bandeira que sinaliza o início do mês de Maria. Serão 32 dias consecutivos de rezas na capela de Nossa Senhora da Conceição, incluindo as celebrações da Natividade e das Dores de Nossa Senhora.

A entrada da propriedade. Foto: Paulo Oliveira
A entrada da propriedade. Foto: Paulo Oliveira

…Ler mais.