Nasceu e cresceu numa típica família brasileira. Potiguar, morando na Bahia há vinte anos, é médica de formação e pesquisadora da cultura popular. Nos últimos 10 anos abandonou a sua especialidade em cardiologia e ultrassonografia vascular para atuar como médica da família na Bahia e no Rio Grande do Norte, onde passou a recolher histórias e saberes. Nessa jornada publicou cinco livros.”. No final de 2015 passou temporada no Amazonas recolhendo saberes indígenas.

Cantos de Oxóssi

Mãe Nair é gente de santo em Xique-Xique. Sincrética como boa religiosa baiana, filha de Oxóssi e devota ardorosa dos seus “Cosmes”, abre a sua casa alegremente para quem crer e deseja a saúde.

A rezadeira e mãe de santo cura dores no corpo e cabeça. Também é capaz de livrar os viventes do rasto de sol. Para quem não sabe, o raio direto ou indireto de sol é capaz de adoecer uma pessoa ao tocá-la em partes do corpo. Pé, cabeça, perna…

O tratamento é feito com reza e tocando a área afetada com um vidro ou copo virgem com água.

Neste vídeo, a médica e pesquisadora de cultura popular Helenita Monte de Holanda nos mostra os cantos que Mãe Nair entoa para chamar seu orixá. O deus caçador de uma flecha só, senhor da floresta e dos seres que nela habitam é cultuado no Brasil, em Cuba e em países que a cultura iorubá prevaleceu.

Òké Aro!

Superproteção

A origem da figa ainda hoje é incerta, embora estudos encontrem a sua presença mais remota entre os etruscos. Este povo viveu na Etrúria, na península Itálica, na área equivalente à atual Toscana, por volta do século VII Antes de Cristo.

Inúmeros desses objetos foram encontrados nas ruínas de Pompéia.

Símbolo de fertilidade (o polegar entre os dedos indicador e médio sugerem a penetração peniana na genitália feminina) originalmente era usado por mulheres e crianças, servindo para afastar o “malefício da infertilidade”, considerada verdadeira maldição.

Com o passar do tempo, a figa foi “ganhando poderes”, passando a servir como objeto protetor (amuleto) contra qualquer infortúnio, principalmente contra mau olhado.

O português colonizador a trouxe para o Brasil e logo foi adotado pelas religiões de matrizes africanas como amuleto que “fecha o corpo”.

Em maio de 2014, ao ser interrogada em um ambulatório sobre o amuleto, a mãe do bebê de 26 dias (foto acima), uma jovem de 19 anos, explicou:

“A figa dourada mode decorar e figa verdadeira de pauzinho de arruda mode olho ruim.”

Este objeto também foi passado, no sertão paraibano, por ciganas para seus filhos, pois acreditavam ser capaz de evitar agressões físicas e espirituais, afastar feitiços e influências negativas.

Recomenda-se que seja levado junto ao corpo para servir como proteção. Quando uma figa se parte deve ser jogada fora, pois já cumpriu sua função. Se perdida, não deve ser procurada.

Inveja do olhado

Dona Teresa Maria de Jesus, nascida e criada na localidade de Pau Branco, em Tucano (BA), é uma rezadeira especializada em tirar mau-olhado das pessoas. Sua longa prece começa com uma frase curiosa: “Olhado, quebranto, invejo você”. Inclui ainda muitos Pai Nosso e muitas Ave Maria.

Outra coisa que não pode faltar no ritual são raminhos de folhas de “vassourinha” ou “pinhãozinho roxo”. Durante a reza, também são citas Nossa Senhora do Desterro e Nossa Senhora do Livramento, que têm a missão de desterrar e livrar as pessoas do mal.

Teresa vem de uma família de rezadores. O que sabe aprendeu com a avó. Tem um sobrinho cego que, segundo ela, cura as pessoas, “mas não reza de boa vontade”.

A história dessa rezadeira, que diz não ter tanta fé quanto quem lhe procura, é contada pela médica e pesquisadora de cultura popular Helenita Monte de Hollanda.