Vida de monge – Série: parte 2

Vida de monge – Série: parte 2

Os sinos do Mosteiro de Jequitibá, em Mundo Novo (BA), começam a tocar às 5 horas, chamando para o Angelus (saudação e prece à Virgem Maria) e o ofício das Vigílias, que deve ser realizado antes do amanhecer. Na caatinga, porém, os pássaros despertam antes dos monges cistercienses e fazem algazarra com os primeiros raios de sol.

A ordem de Cister, fundada em 1098, na comuna francesa de Saint Nicolas lès Citeaux, na Borgonha, é originária da congregação beneditina. Ela surgiu a partir do descontentamento de alguns religiosos com o relaxamento das regras criadas por São Benedito para regular a vivência da comunidade monástica. A regra possui 73 capítulos, sintetizando o roteiro espiritual de conversão a Deus por meio da obediência e tendo Cristo, amado acima de todas as coisas, como guia.

Existem duas ordens cistercienses: a congregação da comum observância e a da estrita observância, também conhecida como trapista, ainda mais rigorosa na interpretação da regra de São Bento. Os monges de Jequitibá, integrantes da Abadia Nossa Senhora Mãe do Divino Pastor, fazem parte do primeiro grupo. A disciplina, o rigor litúrgico e o trabalho são seus valores fundamentais.

Dez minutos antes das primeiras orações, irmão Bernardo, 30 anos, o monge mais novo entre os 14 que vivem no convento – o mais velho é padre Estevão, 93  -, atravessa o claustro, onde pássaros de várias espécies voam entre parreiras, árvores e arbustos, em direção à igreja da Nossa Senhora Mãe do Divino Pastor. Difícil não associar o local com o paraíso. Há até um quiosque charmoso no local, que pode ser usado para contemplação e reflexão.

Orações na igreja Nossa Senhora Divina Pastora. Foto: Divulgação
Monges oram na igreja. Foto: Divulgação

Embora São Bento determine na Regra sete horas canônicas (tempo destinado às orações) para os monges, os cistercienses do povoado de Jequitibá se reúnem cinco vezes por dia para rezar e louvar a Deus, além da missa conventual, realizada às 6 horas da manhã nos dias de semana e às 9 horas, aos domingos e feriados.

Após a oração das Vigílias, vem a das Laudes (louvores), inspirada no renascer do dia. Atualmente, ela é realizada em conjunto com a missa, mas antes tinha horário diferentes. Cantos gregorianos fazem parte da liturgia.

Ao término dos ritos do amanhecer, os monges seguem para refeitório, onde é servido o café da manhã (cuscuz de milho, banana, mamão, bolo de leite, café, leite e leite de soja).  Até o ofício da hora média, a partir das 11h45min, eles farão a Lectio Divina (leitura orante da Bíblia de forma individual) e iniciarão seus trabalhos. Cada monge exerce funções de acordo com suas aptidões e conforme as determinações do abade.

O cronograma de atividades está afixado na porta quartos de hóspedes da Pousada São Bernardo, destinada a leigos e oblatos interessados em vivenciar a rotina do mosteiro, meditar ou simplesmente descansar, e das celas do primeiro andar, também disponível para os visitantes. Qualquer pessoa pode participar dos ofícios e missas na igreja do mosteiro, que também é sede da paróquia de Mundo Novo.

Vista da igreja Nossa Senhora Divina Pastora. Divulgação
Igreja Nossa Senhora Divina Pastora. Divulgação

O ofício da Sexta (hora média), começa às 11h45min e marca a hora da agonia de Jesus na Cruz. Os rituais das duas outras duas horas canônicas menores – Terça e Noa -, que visam santificar o dia e lembram a vinda do Espírito Santo sobre Nossa Senhora não são realizados nos dias de hoje, no Mosteiro de Jequitibá.

Ao fim do Angelus, ao meio-dia, os religiosos almoçam e descansam até às 14 horas. Normalmente, as refeições dos visitantes e dos religiosos são feitas em locais separados. Existem dois refeitórios e duas cozinhas. No entanto, o repórter de Meus Sertões foi convidado a almoçar com os cistercienses em um amplo salão, com piso preto e branco como um tabuleiro de xadrez.

Nele, estão colocados seis mesas e bancos de madeiras com capacidade para 33 pessoas. Uma delas, a do abade e dos abades eméritos, fica disposta na horizontal de frente para a dos irmãos e dos padres, situadas nas laterais dos refeitórios.  O irmão João Batista traz a comida – arroz, feijão, farinha, batatinha, cenoura, soja e carne moída – em um carro de madeira para ser servida.

Durante a refeição, irmão Bernardo faz a Lectio Divina, leitura orante, em um púlpito. Trata-se da carta de São Paulo aos romanos. Em seguida, lê um texto de um abade trapista (cisterciense da estrita observância). Dom Bernardo Bonowitiz nasceu em Nova Iorque, de família judia e se converteu ao catolicismo. Hoje, comanda o mosteiro de Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, no Paraná.

O artigo de Bonowitiz trata da formação de um monge. Por experiência própria, o abade diz que a vida espiritual é doce e superficial. Depois de um processo lento e regular, torna-se produtiva. Por fim, tornar-se “simples e deliciosa”.

O jovem monge Bernardo, do Mosteiro de Jequitibá, explica que leituras são feitas durante as refeições. No jantar é lido o Martirológio Romano Monástico (lista dos mártires da Igreja Católica, ordenada pelas datas em que eles são celebrados), avisando os que serão louvados no dia seguinte. Naquela noite, foram lidos trechos da vida de Santa Cecília, cuja comemoração é no dia 22 de novembro.

Interior da igreja. Foto: Paulo Oliveira
Interior da igreja. Foto: Paulo Oliveira

Na rotina dos monges, as quatro horas seguintes ao breve descanso pós refeição, são destinadas a trabalhos diversos e estudos. Bernardo, além das obrigações religiosas, é o artesão do monastério. Responsável pelo restauro de imagens, confecção de velas, decoração da igreja e fabricante de medalhas de gesso de São Pedro para venda externa, ele também acolhe os hóspedes no claustro, dá aulas de religião na escola mantida pelos cistercienses e cuida do coral de senhoras da comunidade.

Já o irmão Antônio Fraga de Lima, 62 anos, é terapeuta holístico, atende pessoas da comunidade e de outras paróquias com técnicas que incluem quiropraxia, radiestesia, acupuntura, iridologia e florais. Sua outra atividade é administrar as propriedades as criações de animais da Fundação Divina Pastora e do mosteiro.

Os serviços prestados para o público por eles e outros monges serão o tema da terceira reportagem desta série.

Além disso, os monges e padres são responsáveis pela limpeza dos diversos banheiros, pátios, salas, capelas e departamentos do monastério. Sábado é dia de faxina geral, mas ela pode ser realizada em outros dias, sempre que for necessária.

Fim de tarde, às 18 horas é a vez do ofício das Vésperas, cujo nome deriva de Véspero ou Vênus, planeta cuja reflexo da luz solar brilha no céu quando “caem as trevas noturnas”, como se dizia na Idade Média. Esta oração dá graças a Deus pelos benefícios de mais um dia e lembra a Ceia do Senhor e sua morte na cruz. O ofício ainda lembra aos fiéis que Jesus voltará.

O jantar é servido trinta minutos depois. O cardápio inclui arroz, panqueca de frango, pão feito na lenha, arroz, pudim de leite e café. Em seguida, ocorre a leitura da Santa Regra de São Bento e o ofício das Completas, a última oração do dia, quando a pessoa se entrega nas mãos do Senhor antes de dormir.

“Na verdade, o monge é aquele que está reunido da presença de Deus durante todo o dia” – define Bernardo.

Os cistercienses não se recolhem imediatamente após as Completas como era no passado. Hoje, é permitido que vejam o noticiário noturno na televisão ou acessem a internet e as redes sociais antes de dormirem.

FORMAÇÃO

“Há quatro anos fiz os votos perpétuos. Anteriormente, fui noviço, fiz os votos simples por três anos, renovados por mais três. Posteriormente, optei pela profissão solene” – resume o irmão João Batista, 48 anos.

Vista parcial do claustro do monastério. Foto: Paulo Oliveira
Vista parcial do claustro. Foto: Paulo Oliveira

Quando iniciou sua vida religiosa na Congregação dos Padres Redentoristas, no Pará, seu nome civil era Manuel Luís. Ao decidir se tornar cisterciense, ganhou outro. A mudança é uma tradição entre os monges da comum observância, mas nem sempre foi assim. O irmão Antônio Fraga de Lima, 62 anos, diz que na época de sua iniciação podia manter o nome de batismo. O que para ele foi uma bênção, pois foi uma escolha de seus pais, que tanto ama.

João Batista explica que quem entra em um instituto religioso de clausura busca uma perfeita união com Deus e tem como objetivo ser irmão ou monge. Ser padre da ordem é uma das possíveis consequências, que depende do religioso e da comunidade.

“Para ser irmão estudamos as disciplinas de formação de monge. O candidato passa pelo postulado e noviciado e vai conhecendo o carisma da Ordem nas aulas sobre espiritualidade, sobre a vida dos padres do deserto e, posteriormente, de São Bento. Caso queira se tornar padre, precisa estudar três anos de filosofia e quatro de teologia” – explica.

Irmão Bernardo ainda é monge professo simples. Ele dá mais detalhes sobre o processo de formação.

“Quando você entra, faz um período de postulado. Ele varia de seis meses a um ano e mostra que você está querendo fazer parte da ordem. Em seguida vem o noviciado, uma resposta mais firme para alcançar o objetivo. Também é chamado de período de provação. É preciso passar um ano em regime fechado no mosteiro ou dois em período semiaberto, no qual pode sair, mas tem que voltar no mesmo dia. Se contabilizar 15 dias de ausências, o pretendente é dispensado” – revela.

O postulante quando vai para o noviciado está vestido de calça, camisa e terno. Na cerimônia, o abade tira o terno e diz: “Despe a velha roupa” e começa impor o hábito. Bernardo conta que nessa hora o noviço recebe um novo nome, que ele escolhe entre os três sugeridos pelo abade ou prior. Todos os nomes são de santos ligados à ordem

Ao fim do noviciado, o capítulo (assembleia de religiosos) se reúne para avaliar os prós e contras da participação do candidato na comunidade monástica. Se aprovado, o noviço é convidado a fazer a profissão simples dos votos por três anos, nos quais ele inicia os estudos para a vida sacerdotal e para uma área mais específica, caso desista de ser monge. Esta fase pode ser renovada por mais três anos.

A escolha resulta em um certo distanciamento da família. Segundo irmão Bernardo, só é possível vê-la após um ou dois anos do começo da preparação para a vida monástica. Nos anos seguintes, o monge pode passar 15 dias anuais com os familiares.

A última etapa é a profissão perpétua. Os votos dos cistercienses são estabilidade, obediência e mudança de costumes, mais antigos que os votos modernos (pobreza, castidade e obediência), de acordo com o jovem monge.

No voto de estabilidade, o monge professa que pertence àquele mosteiro. Embora a comunidade cisterciense esteja presente no Brasil e em outros partes do mundo, ele promete que ele pertence aquele mosteiro. A obediência é devida em todos os sentidos aos superiores, à Igreja e a Deus. E a mudança de hábito, engloba a maneira de viver, a convivência com a família, a humildade, a pobreza e a castidade.

Os monges que fazem profissão perpétua se comprometem a viver para sempre no Mosteiro de Jequitibá. Geralmente, quando ficam muito idosos, deixam as celas individuais do segundo andar e passam para as do claustro, no térreo. Em caso de falecimento, eles são sepultados no cemitério do monastério.

leia a série completa sobre o mosteiro:
O mosteiro de Jequitibá Os dois museus do monastério O monge holístico A pousada e o claustro

 

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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