N. Sra. das Candeias

N. Sra. das Candeias

Minha curiosidade a respeito da Igreja de Nossa Senhora das Candeias, em Candeias, cidade a 50 quilômetros da capital baiana e integrante da Região Metropolitana de Salvador, começou quando o amigo Edcarlos Almeida, de Ichu,(BA) me contou que seu avô tinha a imagem de um Menino Jesus de quase 100 anos, provavelmente comprada durante uma romaria ao local.

Eu imaginava centenas de pessoas caminhando a pé 140 quilômetros para pedir chuva para locais castigados pela seca, agradecer pela boa colheita ou pagar uma promessa. Ao mesmo tempo, tentava recriar o caminho, o enfrentamento ao sol, as paradas e os eventuais locais de dormida para quem seguia pelo sertão a pé, a cavalo ou em carros de boi.

No passado distante, o acesso a Candeias só era feito em barcos ou em saveiros. A partir do início do século XX, a linha férrea passou a ligar o município a Salvador e a Santo Amaro, no recôncavo baiano. Foi pensando em tudo isso que acordei bem cedo, no sábado passado (4 de janeiro) e resolvi conhecer o Santuário e a Fonte dos Milagres. Saí de Salvador de carro.

A primeira visão que tenho da igreja que está no alto de um monte são os fundos do templo, onde uma cruz imensa com a imagem de Nossa Senhora das Candeias, esculpida na parte de baixo, e um painel de São João Paulo II, que foi papa entre 1978 e 2005. A frente da igreja, voltada para uma área verde, cortada por dutos da Petrobras, é coberta parcialmente por um toldo, que só permite visão total do alto do frontispício.

Em torno da praça e em muros da rua que dá nos fundos do templo, painéis das estações da Via Sacra, do Espírito Santo e de Nossa Senhora das Candeias.

A igreja de Candeias foi construída no final do século XVIII. No dia 8 de dezembro de 2014 foi elevada à condição de Santuário pela Diocese de Camaçari. Até 1894, ela fazia parte da freguesia de Nossa Senhora da Encarnação do Passé. Há 29 anos, ela é administrada por frades franciscanos conventuais.

A beleza do templo é inegável. No altar estão depositadas relíquias de São João Paulo II, Padre Pio, Beata Maria Gabriela, Beata Rosa Flesch e outras religiosas europeias. Nas paredes, as estações da Via Sacra em bronze.

Após a missa, um dos fiéis me conta que a novena de Nossa Senhora das Candeias vai do dia 24 de janeiro a 2 de fevereiro. Ele acrescenta que os romeiros costumam dar três voltas ao redor da igreja, cantando benditos. Há também a queima de fogos de artifício e intenso acesso à fonte de água dos milagres, a cerca de 120 metros do templo. A festa culmina com a procissão do dia 3 de fevereiro.

A LENDA

A fama da fonte começou com uma lenda contada no século XVIII, na qual se relata que uma menina cega, vinda do alto sertão, seguiu o conselho da Mãe de Deus e banhou-se na fonte para recuperar a visão. Desde então, os relatos de milagres se intensificaram.

Hoje, está escrito em uma das paredes da Fonte dos Milagres uma história real que serve para referendar os poderes da água sagrada. Parecido com a lenda, o fato ocorreu com uma integrante da Igreja Batista, Rubenisse Souza Lima Dias, cuja filha deu à luz a uma menina cega.

Um dia, a ex-moradora de Candeias que vivia no Espírito Santo, sonhou com Nossa Senhora lhe pedindo para lavar os olhos da menina com águas da fonte milagrosa. Rubenisse pediu para uma parente levar a água para Vitória (ES) e cumpriu o que ouvira da santa. Passado pouco tempo, a menina Stephany voltou ao oftalmologista e a cura foi atestada.

No relato, escrito em uma das paredes, Rubenisse tornou-se devota da Mãe de Deus das Candeias e levou a menina ao templo, em 2007, onde prestou o depoimento.

As primeiras lojas nas imediações da fonte começam a funcionar por volta das 8 horas da manhã. Antes disso, ambulantes se colocam na entrada da Fonte, vendendo fitas, recipientes diversos para coleta de água, fitas, medalhas e imagens. As garrafas e galões custam de R$ 2 a R$ 20, dependendo do tamanho.

Jorge Alberto de Jesus, 73 anos, vice-presidente do Terço dos Homens e integrante de pelo menos quatro grupos da igreja, conta que há 300 anos a água jorra da nascente da Capela de Nossa Senhora dos Milagres.

“As pessoas lavam as vistas e a cabeça. Também levam garrafas cheias de água para casa. Antes era tudo aberto, mas depois foi cercado para evitar que poluíssem a fonte” – conta.

No mesmo local, há a Sala dos Milagres, onde estão depositados santos, ex-votos e fotos dos romeiros. Seu Capelinha, como gosta de ser chamado, 66 anos, após muita insistência concorda em dizer o primeiro nome: Antônio. Ele diz que há 28 anos tomou para si a penitência de rezar as pessoas que chegam ali.

Misturando bençãos, rezas mais conhecidas do catolicismo (Ave Maria, Pai Nosso, Credo e Salve Rainha), pedidos de proteção e segurando um crucifixo e um terço, ele demora uns 10 minutos em suas orações. Em alguns momentos, parece querer exorcizar os males dos fiéis. Capelinha conta que originalmente a Fonte se chamava Gruta da Pitanga e que fica muito feliz em ajudar as pessoas.

Esse universo fantástico é completado por coisas inusitadas como o Bar de Nelson Bolinha, vizinho a nova estrutura da igreja usada nos dias de romaria. Nelson vende infusões de cachaça em doses e até em garrafas de 10, 15 e 35 litros. As doses saem por R$ 2 reais, os garrafões maiores são vendidos em duas partes: o líquido custa R$ 230 e o recipiente de vidro, R$ 270. As cachaças mais vendidas são as de cana de açúcar com coco, erva doce, jiló e cambuí. A preparação delas leva de 40 a 90 dias.

Interessante que além da bebida, Nelson também comercializa objetos religiosos no bar.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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