Cristo indígena

Cristo indígena

O Cristo indígena, nascido no bioma caatinga castigado e maltratado pelo homem com sua ganância usurpadora. O Menino Deus que respira o cheiro da umburana, da juremeiras e dos licuris e está cercado de umbus, que dão mais gosto a cada amanhecer. Da caatinga, as flores dos gravatás, das macambiras e dos incós perfumam o ambiente. Os ipês amarelos, os calumbis e a barriguda embelezam com maestria o solo seco e rachado de massapê. O canto dos coleiros, bem-te-vis e nambus fazem a sinfonia, enquanto uma gota de chuva multiplica os milagres e deixa o verde acontecer.

A noite fresca, iluminada pelas estrelas, reúne na manjedoura uma Maria indígena, um José indígena, os Três Reis Magos indígenas, vaqueiros, lavradores, rezadeiras, benzedeiras, lavadeiras, tecelãs de pindoba, artesãos, sambadores, aboiadores, cantadores, lavadeiras, lenhadores, tocadores de pandeiros, sanfonas e tambores, repentistas e todos que labutam no sertão. O Menino Jesus moreno percebe nas primeiras horas de vida que o sertão se desdobra entre o calor diurno e a brisa noturna, os espinhos do verão e as orquídeas que florescem dentro de cada plantinha. Nada se antagoniza na caatinga da região sisaleira da Bahia.

Este foi o cenário da 8ª edição do Projeto Presépios Populares Sertanejos, coordenado pelo artista plástico autodidata, professor de filosofia e diretor artístico da ONG Fulô da Caatinga, encenado na primeira semana de dezembro, em Teofilândia, a 203 km de Salvador. O presépio vivo, encenado pelos alunos do Colégio Estadual de Teofilândia (CET), este ano homenageou a tribo Kaimbé, da aldeia Massacará, em Euclides da Cunha (BA) e todas as tribos do Brasil, que ainda lutam pela demarcação de terras e pelo direito de viver em paz.

Os estudantes trabalharam cerca de dois meses na confecção dos figurinos, nos ensaios, nas leituras de textos e discussões sobre as questões indígenas. O presépio é a última atividade avaliativa do ano e as encenações ocorrem nas principais praças do município. O evento atrai moradores das cidades vizinhas – Araci, Biritinga, Serrinha, Coité e Santa Luz.

As dramatizações mudam todos os anos, incluindo os figurinos, cenários e maquiagens. Este ano, além dos indígenas serem a principal fonte de inspiração, também participaram das encenações quilombolas e personagens típicos da região sisaleira. Noventa e cinco por cento do alunado é composto por negros, pardos e mestiços.

A PROPOSTA

Em 2012, diante dos desdobramentos da perversa globalização, o projeto nasceu devido às inquietações das aulas de filosofia, nas quais prevalecia o exercício permanente da consciência crítica e cidadão. O objetivo era mostrar que é possível transcender, de forma criativa, as salas de aula, os livros didáticos e os muros das escolas e priorizar uma educação pautada no lugar onde vivemos e onde a preparação para a vida é mais importante do que notas e avaliações.

Menino Jesus na tribo. Foto: Divulgação
Menino Jesus na tribo. Foto: Divulgação

O projeto desenha a ousadia de concretizar a interdisciplinaridade. O foco é o bioma caatinga, único no mundo, que se matiza com sua gente e as manifestações populares, tornando-se sagrado e de singular boniteza, a ponto de ser transposto por cada um de nós para qualquer parte do mundo. Isto é, podemos levá-lo através de seus cheiros, de suas cores, de seus sabores, de suas texturas e de atividades artísticas desenvolvidas na escola.

Os Presépios Populares Sertanejos ganham forma através dos cenários, dos objetos de cena e figurinos enriquecidos com material da região; e da postura cênica que lembra as festas, as danças e a labuta diária na roça, aspectos que compõem a estética sertaneja.

A força da encenação também está nos olhares dos personagens e dos visitantes, que convergem para o tão esquecido Menino Jesus, substituído pelo Papai Noel e pela árvore de Natal, que não representam nada para a cultura local e impedem que esqueçamos o grande aniversariante. Com o apoio da mídia, o Deus Menino é substituído por um senhor de barba branca que, embora prometido, não presenteia a todos, perpetuando frustrações ano após ano. No presépio vivo, no entanto, o aniversariante é o foco dos olhares de todos.

Partindo do princípio de que Maria e José como indígenas – ou como pessoas pobres de qualquer etnia – não encontrariam vagas em um hospital, o único local que restaria para o nascimento do Homem mais importante do mundo seria a aldeia, onde haveria solidariedade.

Partindo do princípio de que Maria e José como indígenas – ou como pessoas pobres de qualquer etnia – não encontrariam vagas em um hospital, o único local que restaria para o nascimento do Homem mais importante do mundo seria a aldeia, onde haveria solidariedade. A cooperação faz parte da filosofia de vida indígena do “Viver Bem”, antagônica à filosofia do “Viver Melhor”, que se nutre da competição, da exploração do outro. A perversidade do capitalismo desumano torna tudo objeto e coisifica o mundo, exaurindo a beleza e a poesia de cada pessoa face aos nefastos interesses do capital. O resgate do bem viver nos leva à proposta do projeto: o cristo indígena.

A encenação foi fundamentada no texto “Nós Dizemos Não”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Esse texto que dá título a um livro, foi lido e discutido com os alunos nas minhas aulas de filosofia, tornando-se indispensável para o desenvolvimento desse trabalho. (Para ler o texto, acesse o link: http://blogdobertolo.blogspot.com/2007/06/ns-dizemos-no-eduardo-galeano.html )

O Projeto Presépios Populares Sertanejos deixa claro desde a sua primeira edição o viver autêntico no sertão sisaleiro, onde a verdadeira boniteza acontece nas pulsações de simplicidade de uma vida fundamentada na filosofia de vida indígena, que não maltrata a terra, não sente vergonha do seu lugar, de sua gente e de suas manifestações populares ricas e poéticas.

Os alunos do CET tiveram o apoio desde o início da diretora Lucênia Manaia, da coordenadora pedagógica Laíse Muniz de Sena, dos vices diretores Ricardo José e Bárbara Azevedo. O evento contou ainda com a parceria da Secretaria de Educação de Teofilândia, através da secretaria, Adriana Araújo, e da geógrafa Lucélia Valverde, da professora de inglês Anne Ilza Souza e da ex-aluna e ex-professora Elvanir Oliveira. Outro grande incentivador do projeto é o padre Elias Cedraz, atualmente na paróquia de Santa Luz.

Um agradecimento especial para Nete, que cuidou e limpou os jardins das duas principais praças de Teofilândia para que os estudantes os usassem com respeito à sustentabilidade. Neles, foram montados 12 cenários, nos quais foram utilizadas folhas de pindobas e flechas de sisal, respeitando o meio ambiente.

Raimundo Carvalho Contributor
Raimundo Carvalho é artista plástico autodidata, professor de filosofia, poeta e diretor da ONG Fulô da Caatinga. Inspirado em folhas, espinhos e galhos da caatinga, o ecoartista produz obras incríveis. Leitor voraz, nascido em Biritinga, vive em Teofilândia, no sertão baiano.
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