O fantástico mundo de Sebastião – Parte I

O fantástico mundo de Sebastião – Parte I

No box 56, ao lado do mercado da farinha, o paraibano Sebastião Jovino da Costa oferece a cura para diversas doenças, através das ervas e cascas de árvores que comercializa, e histórias fantásticas do tempo em que atuou como pai de santo. Paraibano de Picuí, na divisa com o Rio Grande do Norte, Sebastião Raizeiro oferece aproximadamente 200 tipos de ervas, cascas de árvore óleos e garrafadas, além de muita conversa no cantinho da feira de Araci, no sertão baiano.

Na primeira parte desta reportagem, vamos tratar do conhecimento que ele acumulou nos 52 anos de trabalho com raízes. Amanhã, falaremos sobre o universo fantástico que vivenciou em cerca de duas décadas como pai de santo e como conseguiu escapar da perseguição do diabo, que queria recrutá-lo para trabalhar com as “linhas tortas” da religião.

Foi uma frase do velho pai que fez Sebastião se transformar em raizeiro: “Ô meu Deus, será que eu vou morrer e não vou ter um filho que tome conta do meu povo?”. As palavras pesaram na decisão do menino, que hoje se queixa por ser uma das pessoas da família com menor renda.

“Tenho um irmão em Murupi, Minas Gerais, que é bem de vida. Outro em Goiás, aposentou com um salário e meio (R$ 1.497) e ainda está trabalhando como empregado. Outro tem uma fazenda em Várzea Nova (BA) e outra em Goiás. E eu fiquei desmantelado” – diz.

A queixa logo é esquecida quando o raizeiro começa a falar do que entende.

A propriedade das ervas medicinais aprendeu nos livros – cita dois “Planta cura” e “Trato com remédio caseiro – e pesquisas feitas por conta própria. Sebastião conta que nunca pegou uma erva ou casca no mato. Costuma comprá-los em Jacobina, a 260 quilômetros de Araci, e, principalmente, em Jequié, a 355 quilômetros.

De vez em quando, quando sabe que encontrará remédios caseiros bons para seus clientes, vai mais longe. Para adquirir três litros de óleo de pequi viajou nove horas (640 quilômetros) até São Raimundo Nonato, no Piauí. Ele ainda negocia vidrinhos do óleo quatro anos depois da viagem.

“O óleo serve pra quem sofre de mal descadeirado, dores na coluna. A pessoa bota ele na coluna e fica deitado no sol até não aguentar mais. É pra ele invertir (intervir). Serve pra doença no intestino. Problema no intestino é só botar no café amargo. Também resolve mal do vento. Se for num braço ou na vista, passa no lugar e ele bole com ela. Ele é pra muitas coisas. Até pra animal. Vaca que não quer parir, o animal que não quer parir, a pessoa dá um vidrinho dele pro bicho que pare.” – explica.

A planta medicinal mais vendida por Sebastião é o barbatimão, que ele chama de barbatenã e tem propriedades anti-inflamatórias. Indicada para o tratamento de feridas, hemorragias, queimaduras, dores de garganta, malária e diabetes. Também é excelente, de acordo com o rezador para tratar sífilis, para curar sífilis. Para isto, é preciso fazer uma garrafada e usá-la como lavagem. Um molho de barbatimão custa R$ 5.

Quando apregoa suas cascas e raízes, Sebastião Raizeiro não poupa qualidades:

“Essa tá curando 40 tipos de doença. Cura dor de barriga, cura ferida na perna. É o pau-tenente, bom para prisão de ventre e chicongonha (chicungunha). Eu trato com ele quem tá maltratado de chicongonha . Isso aqui amarga que dói, mas cura.”

Acrescenta que o pau d’arco (ipê roxo) tá curando 40 tipos de câncer.  O que parece ser mentira tem fundo de verdade. Sites noticiosos como o G-1 e o UOL publicaram, entre 2007 e 2012,  que pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos comprovaram o alto poder que uma substância do ipê roxode possui para matar células do tipo mais agressivo de câncer de mama. Mostraram ainda que ela é eficiente no tratamento de câncer de pulmão e promissora para combater a doença na próstata.

Sebastião ensina ainda que as infusões feitas com cascas e raízes de árvore só têm 12 horas de validade.

“Passando disso não beba mais porque a doença pode voltar pior”.

Ele acrescenta que não se deve colocar nada natural na geladeira, pois as propriedades medicinais desaparecem quando ficam geladas.

RAÍZES QUE CURAM

 

ESPINHO DE OURIÇO

Enquanto fala, surge um cliente em busca de pedra hume para curar a dor de dente. Sebastião oferece um estranho remédio. Segue o diálogo:

Raizeiro – Rapaz, pra dor de dente eu tenho um remédio aqui pro senhor sair daí sem contar dor de dente, mas precisa ter coragem.

Cliente – É mesmo?

Raizeiro – Depende de sua natureza. Eu só sofro enquanto não furo o dente com ele.

Cliente – O meu dente não é furado. Está começando furar.

Raizeiro – Mas tá doendo, então está inflamando. Aqui ó. O remédio é esse (mostra espinhos de ouriço-cacheiro). Isso fura cabrunco (doença infecciosa que faz surgir tumores) de jegue.

Cliente – Isso fura o dente?

Raizeiro Se o senhor tiver coragem fura.

Cliente – Rapaz e se furar de lado assim, pode?

Raizeiro – O senhor pode furar uma cabeça de prego com ela. Aqui ó. Eu tinha esse sinal aqui no rosto. Um caroção feio desse em cima do olho. Ele estava quase do tamanho da cabeça de um dedo. Furei uma vez aqui e ele ficou pequeno.

Cliente – Rapaz, tô invocado nisso aí.

Sebastião deixa a companheira, com quem trabalha, negociando e volta para a entrevista. Aconselha que uma garrafada só é boa quando mantém a casca crua dentro da mistura para que se beba. Em seguida, pede ao repórter que ele abra a palma da mão e despeja um pouco de um remédio caseiro que diz ser bom para hérnia, inflamação de coluna, gastrite e para evitar derrame.

“Prova aí. Só tem planta. Foi feita há oito meses. Não lava a mão agora porque você vai experimentar outra”.

Se pudesse, ele faria o jornalista experimentar o conteúdo de todas as garrafas enquanto mostra vidrinhos  cheios com óleos de jacaré e de sucuri, que teriam sido comprados em Jacobina.

Em cerca de uma hora de conversa, Sebastião atendeu cinco clientes. Quatro deles bem fiéis, como as irmãs Eulina Meireles dos Santos, 59 anos, e Eulália Barbosa dos Santos, 58. As duas compraram cascas de canela de velho, cassutinga e amora para a diabetes e dores nas pernas. Elas costumam adquirir quantidade suficiente para um mês de consumo, voltando ao raizeiro quando precisam de outros medicamentos caseiros.

“A gente vai pro médico, ele passa um remédio e não funciona. Quando nós compramos aqui, ficamos boas” – diz Eulina, que faz uso de ervas há 30 anos.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *