Arte garrincheira

Arte garrincheira

Tudo começou assim: José Lopes Carneiro, o Inho, caminhava pela caatinga quando viu um pedaço de pau que lembrava uma figura humana. Ele pegou e guardou. Com o tempo, passou a prestar mais atenção no que esbarrava pelo caminho quando ia ajuntar vacas no fundo de pasto. Raízes e pedaços de árvores pareciam ratos, camelos, animais diversos.

Desde então, passados 20 anos, Inho fez milhares de miniaturas, que passam por um processo de retirada de excesso de material, polimento com óleo e colagem em pequenos pedestais de madeira. Nada foi vendido até hoje. As peças estão espalhadas pela casa dele, na cidade de Araci, no sertão baiano.

A família do eletricista e ex-caminhoneiro não o considera artista, apesar de ele também produzir veículos de latas, arranjos de pedras e insetos de sementes. Prefere chamá-lo de louco ou garrincheiro, alusão ao pássaro (garrincha) que faz o ninho com tralhas que encontra pelo caminho.

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“Tô aí de teimoso. A mulher e os dois filhos reclamam” – conta ele, que sonha em vender seus trabalhos ou fazer um leilão da coleção com cerca de duas mil peças.

Se em casa a arte de Inho é reprovada, entre os amigos não há opinião formada:

“Eles ficam calados. Não dizem que tá bom nem ruim. Acho até que alguns gostam porque nunca ninguém reclamou” – diz.

Há cerca de um mês, no entanto, um dos colegas perguntou se ele tinha autorização para tirar o material da caatinga, incluindo as pedras dos arranjos que guarda na garagem.

Inho buscou informações e soube que precisava de licença do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) para coletar e usar o material. Deu entrada no processo e aguarda a conclusão. Após pagar taxa de R$ 180 voltará a fazer o que tanto gosta.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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3 reflexões sobre “Arte garrincheira”

  1. Arilson Borges da CostaDisse…
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    A caatinga é a maior produtora de artes entre os ambientes naturais, dentro dela estamos diante da maior exposição natural revelada pelo universo. Inho, teve a felicidade de ser atraido, através do olhar, por uma força natural, onde o simples e o belo se misturam de maneira natural sem necessidade de espelho.

  2. Fátima CarneiroDisse…
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    Parabéns, Inho pela dedicação, sensibilidade em transformar garrancho em arte .
    Sucesso

  3. Antonio Jose Carvalho Da DilvaDisse…
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    Parabéns ao Artista Inho, conheço seu trabalho, acho muito bonito. O Artista vé o que outros sequer percebem, Ele é criativo e inteligente para encontrar nos garranchos e raízes da caatinga figuras para transformá-las em arte.

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