O ecoartista da caatinga

O ecoartista da caatinga

Das folhas, espinhos e galhos da caatinga vêm a inspiração. O ecoartista plástico e professor de artes José Raimundo Carvalho dos Anjos, 58 anos, transforma vegetais em mulheres, troncos e folhagens em asas. Criatividade sem fim, um moto-continuo que cria sequências intermináveis de quadros.

Raimundo Carvalho, que prefere usar o nome artístico, já levou a arte feita em Biritinga, a terra natal, e em Teofilândia, cidade adotada, para os Estados Unidos e Europa, difundindo a cultura sertaneja. Atualmente, participa da mostra coletiva “Várias Vozes Visuais”, em exposição até o dia 13 de dezembro, no centro cultural do Sesc, em Feira de Santana. Ele não deixa de receber convites para voltar a expor em galerias americanas e europeias, mas a falta de apoio financeiro impede o retorno.

“Esse menino não é normal” – costumava dizer o pai ao vê-lo riscar as paredes e o chão da casa.

O primeiro desenho foi uma canoa. Depois que ganhou uma caixa de lápis de cor e um caderno de desenho do pai Arlindo Elias dos Anjos, o Arlindo Vaqueiro, começou a pintar flores.

“A preocupação do velho, apesar de ser analfabeto, era saber o que eu queria ser quando crescesse para ele poder investir. Enquanto isso, minha mãe, dona Lindaura Carvalho dos Anjos, me alfabetizava com um garancho na areia da fazenda Piabas, em Biritinga, onde morávamos” – recorda Raimundo.

A primeira professora também reconheceu o talento do garoto que foi matriculado aos sete anos. Até hoje Paulina Araújo visita as exposições do ex-aluno, em Salvador.

Raimundo Carvalho lembra ainda que o pai comprou todos os livros que a escola pedia, quando ele cursou a quinta série. Francês, geografia, história, matemática…

“Só eu tive todos os livros. Isso é fabuloso. Demonstra a vontade de meus pais em dar para os filhos o que não tiveram.Até os 13 anos morei em casa de taipa.”

Foram muitos incentivadores, mas o impulso para o jovem artista se dedicar às artes foi da então namorada, hoje esposa, Tamar Valverde. Uma atitude simples, emoldurar um desenho feito por ele, fez Raimundo perceber que tinha potencial:

“Quando cheguei na casa dela e vi o quadro estranhei. “Na moldura?”. A partir daí que comecei a expor” – conta.

Uma nova guinada ainda aconteceria.

O lugar mais distante que Raimundo Carvalho expusera tinha sido em Serrinha, a 22 quilômetros de distância. Um dia, Jota Velloso, sobrinho de Caetano, fez um show em Teofilândia e se sentiu atraído pela casa do artista por causa da fachada antiga e da entrada repleta de plantas. Pediu para entrar e a conversa entre eles foi até as quatro horas da manhã.

“Ele me perguntou se eu queria expor em Salvador e eu disse que sim” – conta o autodidata Raimundo.

As primeiras exposições foram na Barroquinha, no bar Casa da Mãe – local em que a carreira de Jota deslanchou em 2004 -, no Pelourinho, na Galeria Senac e no hotel-butique Zank. A produção dos eventos foi de Luzia Moraes, ex-mulher e ex-produtora do cantor. Ela apresentou Raimundo à responsável pela October Galery, na Pensilvânia e, em 2011, o artista foi expor na Pensilvânia. No ano seguinte, seria a vez de apresentar o trabalho em Salamanca, na Espanha.

“Depois parei, mas não foi por falta de convites: Madri (Espanha), Braga (Portugal) e Paris (França). O que meu impediu de viajar foi a falta de apoio financeiro. É doloroso ser chamado e não ter ajuda” – lamenta o artista.

O carro-chefe das pinturas de Raimundo é a série “Mulher caatinga”, idealizada após saber que a senha de uma jovem de São Gabriel (BA) nas redes sociais era caatinga.

“Eu fiz mais de 100 obras com essa temática. Pintei em carvão, em acrílico e até com caneta BIC.” – revela

Raimundo também conta como surgiu a ideia de criar anjos nus com asas feitas de pedaços de árvores.

“O fotógrafo Marcelo Mendonça, meu atual produtor em Madri, estava preparando o meu site quando fez uma fotomontagem de um anjo com asas de gravetos. Percebi que podia desenvolver uma série assim. Falei para Marcelo qual era a minha ideia e ele concordou. Comecei a pintar os quadros entre 2014 e 2015″ – relata.

Os quadros fizeram sucesso, mas a página da internet está fora do ar.

O pintor sertanejo conta que costuma fazer vários trabalhos ao mesmo tempo.E que muitas vezes acorda durante a madrugada para concluir um detalhe da pintura. Foi assim com a imagem de um nativo da coleção “Nós-outros”. Ele levantou às quatro horas da manhã para terminar o olho do personagem.

“Aquilo estava me assombrando” – admite.

“Flores Negras”, “Paredes Rachadas” e “Ferrugem” são outras séries em andamento. O terceiro autorretratos também não tem prazo para ser concluído.

Formado em filosofia com pós-graduação em Educação, Raimundo ainda se dedica à fotografia, à poesia, ao mestrado em educação e à ONG Fulô da Caatinga, criada para revitalizar manifestações culturais da região.

As fotos fazem parte das exposições “A Poética do Feio” e “A Poética da Inutilidade”. A primeira sobre mulheres deformadas, a segunda sobre folhas e gravetos secos.

Já o lado poeta é muito fértil. A produção, acessível no site Recanto das Letras, tem mais de mil escritos ou como diz o autor “1.200 textos com pretensão a ser poema”.

Outra paixão é a leitura, Raimundo compra 10 livros por mês pela internet e aguarda ansioso a chegada deles. Recentemente “devorou” “O País do Fast Food”, crítica à alimentação dos americanos, e “O Vegano para Atletas”. Os livros sobre alimentos passaram a lhe interessar desde que mudou a alimentação e passou a frequentar a academia seis vezes na semana para cuidar da saúde.

“A minha pressão foi a 20. Agora está 13×8” – comemora.

 

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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