Os espantadores

Os espantadores

Uma função chama a atenção na Cooperativa dos Produtores do Vale de Itacuruba (Coopvale), no sertão pernambucano. Afinal, o que faz uma espécie de espantalho humano dentre os criadores de tilápias da cidade que foi reconstruída há cerca de 30 anos, após a Itacuruba original ter sido submersa pelas águas da barragem de Itaparica?

Antes de esclarecermos esta questão, vamos falar sobre a Coopvale, produtora de alevinos, juvenis e tilápias adultas em tanques terrestres e nas águas da barragem. A cooperativa foi criada no final dos anos 1980, no local onde a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) tentou implantar sem sucesso o projeto de criação 3Ps (porcos, patos e peixes) após a construção da nova cidade.

Hoje, a Coopvale produz 2 milhões de alevinos (pesam até duas gramas) e alevinões (até 10 gramas) de tilápias e 400 mil juvenis (peixes de até 20 gramas) para o mercado local e regional e para a empresa Netuno, exportadora que tem unidades de cultivo em Jatobá e Petrolândia (PE) e indústria de filetagem, produção de farinha, de óleo de peixe e retirada de couro em Paulo Afonso (BA).

Nessa engrenagem, o espantador(a) tem papel importante: impedir que anus, biguás, bem-te-vis e martins pescadores ataquem os tanques terrestres. O principal “inimigo” são as garças que, segundo o responsável pela cooperativa Romero Magalhães, estuda os hábitos humanos e só ataca em horários em que não há vigilância.

A função de espantadora oficial é exercida por Paula Maria dos Santos, 30 anos, uma das 110 cooperativadas. Quando está de folga ou precisa ir ao médico, como ocorreu no dia em que Meus Sertões esteve no local, ela é substituída pelo filho Gilbert Gabriel, 16.

O rapaz trabalha no turno das 5h30 às 11h30. Sua missão é andar entre os tanques e afugentar os pássaros, usando a peteca (sinônimo de estilingue, bodoque ou atiradeira). Gilbert admite que de vez em quando mata um dos pássaros e justifica:

“Os pássaros branquinhos, maiores, servem para comer.”

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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