A fazenda despedaçada

A fazenda despedaçada

O site Meus Sertões recebeu 100 fotos e seis vídeos curtos, enviados pelo artesão, músico e responsável por projetos de manifestações culturais do Departamento de Cultura de Jeremoabo Flávio Luiz Silva Passos, 51 anos. Este material mostra o abandono da fazenda Caritá, lugar onde Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo nasceu e passou a infância. Ali também foi instalado um dos primeiros engenhos de açúcar da Bahia.

Flávio diz que seu objetivo é lutar pela recuperação da fazenda e do engenho, visando que o local se transforme em ponto de visitação de alunos da comunidade e atração turística, onde se possa apreciar trilhas, serras e nascentes existentes na propriedade. No entanto, não tem conseguido obter apoio das instituições estadual e federal de preservação do patrimônio artístico e cultural.

Antes de falarmos do jogo de empurra que impede a preservação, vamos falar um pouco do Barão e da propriedade. Cícero Dantas Martins ganhou o título de barão por ser o responsável pela implantação da indústria açucareira na região. Político, foi deputado e senador e está sepultado com a mulher na Igreja de Bom Conselho, na cidade que tem o seu nome.

A fazenda onde o Barão nasceu está em uma área de caatinga preservada, que possuiu fontes de água e árvores bicentenárias. Do antigo engenho, restam equipamentos que eram movidos por escravos e bois. A fazenda de Cícero foi vendida, posteriormente, para o coronel João Sá, pecuarista, latifundiário, deputado estadual e ex-prefeito de Jeremoabo.

A área da fazenda foi requerida à Agência Nacional de Mineração por uma empresa multinacional para exploração de manganês, segundo o canal Folha Serrana, no You Tube. A principal aplicação do minério é na fabricação de ligas metálicas e baterias. Impasses com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) atrasaram a liberação, mas recentemente os processos foram acelerados.

Flávio, que é neto de uma prima de João Sá, diz que a exploração ocorrerá a partir do Riacho dos Porcos, um pouco distante da sede da fazenda e das ruínas do engenho. Ele tentará também fazer com que a multinacional recupere as instalações. Enquanto isso, não ocorre, existe dificuldade para que o local seja tombado.

De acordo com o diretor de Preservação do Ipac-BA (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia) Roberto Pelegrino não há verba para o tombamento. Ele ressalta que a preservação deve ser feita pelos proprietários. No entanto, há uma divergência quanto a quem a fazenda pertence.

Caso não seja resolvida a questão, segundo Pelegrino, as prefeituras de Jeremoabo e do Sítio do Quinto podem tomar providências juntas ou separadamente. A atuação do Ipac está limitada a orientar comunidades e agentes públicos a se inscrever em editais do governo estadual, onde têm alguma chance em obter verbas para pequenas obras de restauração.

A situação de abandono da fazenda é de conhecimento do governo estadual e da secretaria de Cultura desde 1999, pelo menos. À época foi lançado o “Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia – Monumentos e Sítios das Mesorregiões Nordeste, Vale Sanfranciscano e Extremo Oeste Baiano”.

O inventariante classifica a sede da fazenda como “casa rural de relevante interesse arquitetônico (…) provavelmente anterior a meados do século XVIII (18)” e ressalta que sua planta lembra o “antigo domus romanos”. Por fim, assinala que a falta de uso continuado deixou o imóvel muito estragado e dominado por morcegos e cupins.

Quanto ao engenho, também tratado como de relevante interesse arquitetônico, assinala que ele conserva a almanjarra e o forno com quatro tachos.

O grupo de Jeremoabo não conseguiu acesso ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). No entanto, as notícias que vêm de Brasília são as piores possíveis. O governo federal anunciou esta semana o corte de 72% das verbas para preservação de patrimônio e memória em todo o país, o que resultará na paralisação de obras em andamento e a falta de investimento em novas iniciativas. Outro fato lamentável são as nomeações políticas para a direção do Instituto, aprovadas pelo atual presidente do Brasil.

A Fazenda Caritá corre um sério perigo.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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