Seu Zé – Capítulos I, II e III

Seu Zé – Capítulos I, II e III

Mal a lua crescente, propícia para plantar milho, arroz, feijão e tomate, deixou o céu, o beato Pedro Batista da Silva chamou o agricultor José Rodrigues dos Santos e pediu para tirá-lo da cama e sentá-lo em uma rede. Nos últimos quatro anos, Seu Zé, homem de confiança do “Padrinho Pedro”, cuidava do homem santo responsável pelo desenvolvimento de Santa Brígida, cidade do sertão baiano.

Ao sentar-se, o beato falou: “Seu Zé, eu vou melhorar”. Em seguida pediu para o cuidador mudá-lo para uma cadeira.

“Primeiro ele disse que ia melhorar. Depois quando ele pediu “me mude daqui”, de um canto pra outro, da rede pra cadeira. Quando eu levantei ele, ele olhou pra mim assim…: “Êiiii, seu Zé, já tô é morto”.

Passados quase 52 anos (11 de novembro de 1967) da morte de Pedro Batista, José Rodrigues guarda todos os detalhes do dia em que o Padrinho “viajou”:

“Era mais ou menos duas horas da tarde. No momento, eu estava drumindo. Quando me acordei…Ele dava aquele negócio, aquela crise, mas aquilo passava, n’era? Tinha muita vez que dava aquela passage, dava aquele desmaio, mas depois tornava, né? E a gente pensando que ele tornava e ele não tornou mais. Veio muita gente de longe que queria ver ele. Foi só três dias depois que ele foi enterrado. Se era uma pessoa como eu ou outro qualquer, passou daquele tempo…, mas ele não, parece que tinha sido naquele momento, né? Não tinha cheiro nenhum, não. Foi quando levaram para o cemitério.”

Das pessoas que conviveram diretamente com Pedro Batista e sua herdeira espiritual, a beata Maria das Dores, a Madrinha Dodô, Seu Zé é o mais fascinante. Em 2017, depois de passar na casa Museu de Pedro e Dodô, onde conversou com algumas pessoas, ele saiu com um saco às costas e o facão pendurado no ombro para trabalhar na roça de sua propriedade, a duas léguas (12 quilômetros) de distância. Foi a pé, debaixo de sol. Tinha então 95 anos.

Há muitas coisas interessantes sobre o agricultor, que até hoje trabalha no campo. Ele é o único morador da rua Castro Alves, onde vivem importantes personagens do tempo do beato e de Dodô, a manter a casa original, construída em seus primeiros anos na cidade. O restante modernizou as moradias.

Seu Zé também se destaca por ter excelente memória, continuar trabalhando no campo, lembrar de benditos antigos, participar de penitências, contar histórias e cantar músicas que aprendeu com os avós, os pais, os beatos e em sonhos, onde vê lugares e pessoas, sem saber onde é e sem conhecer ninguém.

“Juazeiro/ Eu vou à Bahia/ Vou às Alagoas/ De lá, João Pessoa/ Dou uma volta/ E vou a Lisboa/ Lá conheci Ditu/ Gente muito boa” – entoa.

Seu Zé e a inseparável varinha de mororó. Foto: Paulo Oliveira
Seu Zé e a inseparável varinha de mororó.

Atualmente, José Rodrigues carrega uma varinha feita de mororó, resistente árvore da caatinga também conhecida como pata-de-vaca. Ela serve para ajudá-lo a se escorar, pois desde que contraiu chicungunha a perna fica dormente e falseia, e para afugentar cães de rua que tentaram atacá-lo uma vez.

II

“Meu pai era João Rodrigues. Minha mãe, Rosângela. Meu pai viveu uns 80 anos. Minha mãe passou um pouco dos 80. Eles tiveram 10 filhos. Eu já fui quase o segundo. O segundo filho foi uma mulher e fui encostado no segundo. Nasci nesse lugar que chamava Cajueiro. A cidade nesse tempo era Pão de Açúcar, mas depois municiparam. Ficou São José da Tapera (AL).

Meu amigo, na casa de meu pai quatro horas da madrugada ninguém drumia mais porque quando era quatro horas chamava. Ele levantava para ir buscar um animal no cercado, para ir atrás de uma vaca, para ir atrás de uma criação lá no mato. Se não pegasse os bichos comiam o filhote, né?

Eu trabalhava na agricultura. Naquele tempo não existia arado, nem trator, nem nada. Era tudo puxado no braço. Dava 40, 50 tarefas de roça para levar tudo no braço, arrastado na enxada. Tarefa é assim, uma vara com 10 palmos de comprimento (2,20 metros) chama uma braça. Uma tarefa é 30 braças quadradas (4.356 m²).

Nesse tempo, a produção maior era argudão (algodão), a mola do Brasil era argudão. Óia aí! Se o governo tivesse mantido aquele plantio, não dava tanta roubalheira com tá dando hoje porque tinha ganho para todo mundo.

A pessoa botava uma roça grande de argudão da Paraíba, chamou antes de argudão preto, argudão seridó. Esse argudão cresce, fica igual a um pé de pau (árvore). Ele veve 20/30 anos, hein? Então todo mundo que botava uma roça em grande quantidade e não precisava limpar, bastava roçar. Era roçado na estrovenga. Quando era na época: “Ei vamos ganhar dinheiro na roça de seu fulano que tem muito algodão para apanhar. Apanhar por arroba, sabe?”

Comecei a trabalhar na lavoura tinha de 8 anos de idade. Estudo não tive. A luta foi pesada. De menor era na roça, no cabo da enxada e para fazer mandado atrás de gado, de criação, de ovelha, que naquela época tinha muita onça.

A onça de noite vinha pegar a criação de meu pai. Tinha todo dia aquela criação para dormir em casa. Não podia dormir no mato porque senão a bicha devorava. Fazia um chiqueiro perto da casa, ela vinha, mas não pegava. Então tinha todo dia vaquear aquela criação, todo dia, todo dia. Não podia dormir no mato.

Meu pai, às vez, viaja uma viagem, a gente ia pro mato não achava a criação toda. De noite, cadê a criação? Principalmente as oveias (ovelhas), umas cento e tanta cabeças de oveia. “E as oveia?” “As oveia não achamos tudo não”. Aí acendia um candeeiro, ele ia no mato, já sabia onde as oveia ia drumi e tangia. Tinha que tangê para casa para dormir em casa porque se drumisse no mato o bicho só ia pegar de meia noite para madrugada. Quando o bicho gato, a onça, vinha pegar o bichinho, vinha muito de madrugada.

Eu ia mais ele, acendia um candeeiro numa vareda (vereda), numa capoeira que tinha sido roça. Aquela criação vinha dormir naquele malhador. A criação quando é para dormir se junta tudinho no malhador, o bolo. Aí chegava, tocava a criação no caminho de casa, de noite. Fiquei nessa lida até a idade de ficar de maior. Quando fiquei de maior fiquei lá mesmo. Já vim praqui (Santa Brígida) depois de muitos anos, já quase 30 anos.

Aí, então, no verão. Quando chegava o verão, meu pai tinha um carro. O transporte para transportar o legume era carro de boi que não tinha caminhão. O camarada ia buscar a carga como daqui a Aracaju (220 km) ou Itabaiana (166 km) de carro de boi, hein senhor? Viagem de 40  ou 50 léguas para ir buscar em carro de boi, hein senhor? Não existia caminhão nesse tempo, nem carro de passeio. O transporte era ou em animal ou em carro de boi. E para ir buscar carga em Feira de Santana era 460 quilômetros em costa de burro.

Eu fazia essas viagens, aí ia montado, na volta fazia de a pé. Vinha carregado. O cabra é só para tanger o animal com aquelas cargas. É rojão, meu amigo. Uma viagem, depende da viagem, era oito, quinze dias para ir e vim. Uma viagem, digamos assim, umas 40 léguas. Era oito dias para ir lá e vim. A jornada antigamente, o cabra para sobreviver o rojão era pesado. Trabalhava. E todo mundo vivia bem. Se vivia.

Quando a gente viemos para cá as coisas já tinham modificado. De (19)30 para cá, o negócio foi mudando. Já foi aparecendo carro, mas carro era um transporte quase que nem um avião. Era para seu fulano. Os primeiros que apareceu não era difícil o cabra comprar um carro, o difícil era pra arrumar um motorista porque os primeiros carros que veio foi para a polícia, nas campanha dos cangaceiros. Agora sabe quem podia dirigir? Só podia dirigir o comandante. De um sargento para lá. De um sargento, de um tenente ou um capitão, mas policial não sabia dirigir. Dirigir os carros era os comandantes. Só era quem sabia. Os comandante é que pilotava os caminhão com os policiais de um canto para o outro.

Eu casei com 22 anos. Nós passou quatro anos cuidando. Minha família (os filhos) veio nascer toda aqui (Santa Brígida). Meu pai veio.

O Padrinho (Pedro Batista) andou por lá. Ele andava, fez o percurso no estado todo. Andava na zona rural na caminhada dele. Hoje estava aqui, amanhã estava acolá. Era assim, não era parado em um canto só.”

III

Pedro Batista chegou a Santa Brígida em 1945. Foi seguido por uma legião de pernambucanos, alagoanos e sergipanos, que tinham fé no penitente que curava pessoas, dava bons conselhos e livrava os sertanejos de maus espíritos. A família de Seu Zé se fixou no local quatro anos e cinco romarias depois.

As primeiras vezes que falaram com o Padrinho foram aconselhados a não ir para lá.

“Ele falava que aqui o lugar é de sofrimento.” – lembra José Rodrigues

O camarada chegava e não encontrava lugar para abrigá-lo. Havia poucas casas, a maioria de taipa. As pessoas chegavam e iam dar bênção a Pedro Batista. Ele perguntava de onde elas vinham e ouvia as respostas atentamente. Dava conselhos sobre questões diversas, incluindo as pessoais e econômicas. Depois, se despedia.

Em uma das viagens a Santa Brígida surgiu a oportunidade de Seu Zé, a mulher e o pai dele comprarem uma pequena casa de taipa. Ficaram por ali.

“Cheguei aqui em 1949. Quando nós cheguemos, já tinha muitas casas. A casinha dele (Pedro Batista) era ali. Ficava nessa quina aí (perto da igreja de São Pedro), depois desses pé de pau. Depois ele vendeu e fez essa casa aqui (hoje a Casa Museu Pedro Batista e Madrinha Dodô). Aqui era uma capoeirona” – lembra José, que mais tarde se transformou em uma espécie de mordomo do beato.

A residência humilde da família Santos foi desmanchada aos poucos. Substituída por uma de alvenaria, ficou pronta em 1958.  José Rodrigues conta ainda que Pedro Batista dizia que a “ruinha” em que eles moravam ainda ia ficar muito boa. O penitente dizia ainda que a cidade ganharia estrada, carro, energia, banco, tudo o que faltava. As pessoas não acreditavam, mas, aos poucos, tudo que ele dizia que ia ter, teve.

Naquele tempo, havia uma grande rivalidade entre os baianos e os romeiros de outros estados, que eram maioria. Os nativos controlavam uma fonte e temiam que a chegada dos forasteiros fizesse com que a água fosse dividida.

A cidade também era conhecida por ser esconderijo de pistoleiros. Além disso, para os “coronéis” o fantasma de Antônio Conselheiro rondava a região

O BENDITO

Frei Caetano foi-se embora, mas deixou o seu amparo.
Pedindo a todos que rezem a devoção do Rosário.
Pedindo a todos que rezem a devoção do Rosário.

As contas do meu rosário são balas de artilharia,
que combate o inferno quando eu rezo Ave Maria.
Que combate o inferno quando eu rezo Ave Maria.

Quem tiver o seu rosário, benza e faça devoção.
Para vencer ajudado da Virgem da Conceição.
Para vencer ajudado da Virgem da Conceição.

As contas do meu rosário a ninguém eu não daria,
a quem não trazia consigo a Conceição de Maria.
A quem não trazia consigo a Conceição de Maria.

Os castigos estão na terra, cada vez aumenta mais.
Quando o dia amanhece, o filho não dá a benção aos seus pais.
Quando o dia amanhece, o filho não dá a benção aos seus pais.

Quem quiser seguir para o céu tem duas coisas usar.
Penitência e caridade para Deus nos perdoar.
Penitência e caridade para Deus nos perdoar.

(Continua)

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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