Cemitério dos Anjos

Cemitério dos Anjos

O poeta gaúcho Mário Quintana escreveu que em um portão de cemitério se encontram uma estrela, quando se nasce, e uma cruz, ao morrer. Prosseguiu, ressaltando que muitos que se encontram lá hão de emendar que seria mais correto por uma cruz no princípio e a luz da estrela no fim. No Cemitério dos Anjos, construção mais antiga de Araci, município do sertão baiano, a maioria dos que repousam nas covas, muitas delas pequenos murundus marcados com pedaços de galhos, não tiveram tempo de carregar o madeiro nem ver o brilho dos astros.

O coveiro Nielson Souza Tito, 25 anos, há seis anos é o responsável por fazer sepultamentos de recém-nascidos, crianças e adolescentes até 14 anos, no local construído pelo fundador da cidade José Ferreira de Carvalho, no final dos anos 1850. José, no entanto, teve o privilégio de ter o corpo enterrado ao pé do altar-mor da Igreja Matriz – outra de suas obras, posteriormente demolida. Segundo Nielson, não há um mês sem que ao menos uma criança seja sepultada. As causas mais comuns são malformações congênitas.

A fachada do cemitério, idealizada pelo mestre de obra João Mendengue, era de pedras, guarnecida por um portão com ripas de madeira que permitia a visão do interior, de acordo com o pesquisador e presidente do Centro de Cultural de Araci, Pedro Juarez Pinheiro. No livro “Memórias de Araci”, a historiadora Ana Nery Carvalho Silva conta que ouvia da avó, Maria Rosa, que os pedregulhos para construção do campo santo foram transportados da ladeira do Monte do Cruzeiro por escravos. Com o tempo, o muro foi rebocado e o portão deixou de ser devassado.

Patrimônio histórico

 

Até o final dos anos 1920, quando a prefeitura construiu um local maior para abrigar os mortos, não havia divisão por idade nos cemitérios. Na antiga construção, por exemplo, foi sepultada Lourença Maria de Jesus, 120 anos, conforme apontamento número 233 do escrivão de paz José Celestino de Carvalho:

“Aos vinte e oito dias do mês de julho, do anno de 1919 neste distrito de paz da Villa de Aracy comarca do Tucano Estado da Bahia em meu cartório compareceu Severiano Ferreira de Araujo e perante as testemunhas abaixo nomeadas assignadas declarou que no dia vinte e dois do mez de julho do corrente anno pelas doze horas da manhã em sua propria casa de residencia na fazenda denominada Alto Alegre deste termo havia fallecido sua sogra Lourença Maria de Jesus, com (120) cento e vinte anos de idade declarou que sua morte foi causada pelo estado de velhice, declarou que ella vivia da lavoura declarou mais que os pais da fallecida não são conhecidos devido ella não ser deste estado, e que ela era viúva de Manoel Ferreira (vulgo carpina) e deixou um filho, e que foi sepultada no cemitério desta Villa, pelas nove horas do dia seguinte.” (sic)

Antes de se mudar para o centro de Araci, o coveiro Nielson trabalhou na roça dos pais. Na cidade, aceitou o emprego que surgiu e passou a enterrar crianças e cuidar da limpeza do cemitério, recebendo salário mínimo (R$ 678 à época; R$ 998, atualmente). O primeiro trabalho dele foi sepultar o corpo de um recém-nascido que veio de Salvador, a 219 quilômetros de distância. O tráfego lento fez o cortejo chegar à noite.

“Estava escuro e fiquei com um pouco de medo” – lembra o rapaz.

Nielson conta que muitas vezes fica triste ao ver o sofrimento da família, mas se conforma por crer que tudo é coisa de Deus:

“Muitas vezes a criança ia ficar sofrendo” – supõe.

Em Araci, no centro e na zona rural, os velórios das crianças e adolescentes ocorrem nas casas das famílias. Houve um tempo em que os corpos chegavam em um esquife e eram colocados no carneiro, envoltos em redes e mortalhas. Não havia caixões.

Nielson Souza acrescenta que não são feitas exumações no velho cemitério, pois os ossos jovens dissolvem debaixo da terra. Ressalta ainda que muitos parentes preferem não visitar as covas dos anjinhos para não recordar a dor.

O comerciante Adeildo Cruz dos Santos, 53 anos, dono de um bar diante da antiga construção não acredita em assombrações. Ele teme apenas os vivos. Os mesmos que não fazem nada para reconstruir o muro dos fundos do cemitério que ruiu há poucas semanas.

O local foi interditado por conta do risco de novo desabamento. Enquanto isso, galinhas entram, ciscam entre as sepulturas e chocam ovos em cima das catacumbas.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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